rua

o menino preto bateu na janela do carro branco pra pedir, os pais

fumavam

na calçada

vestidos com blusas de algum vereador.

ninguém no carro abriu a janela. o menino só de shorts lembrava muito

1 ameaça

daquelas que vemos

todos os dias

nos telejornais.

Se eu abrir pra dar um trocado, será que ele não puxa a minha carteira?, pensou o homem

que dirigia o

carro.

o menino

tinha um ioiô em 1 das mãos, usou a outra pra bater no vidro, seus dedos

eram muito crianças,

pra alcançar a janela ele precisava ficar na ponta

do pé.

Bateu no vidro umas 5 vezes, forte pro tamanho que tinha. Logo Viu que não

ia

conseguir nada e desistiu, virou de costas pro carro branco sem resquícios de qualquer

desilusão. Começou a brincar com o ioiô. Sorriu pra irmã mostrando os truques,

mais ou menos da mesma idade os 2, ela séria nem aí olhando a Rua, o ioiô

subia e

descia numa velocidade

impressionante, parecia que não tinha corda, parecia uma bola

voadora. o menino

era muito Bom nisso, mas ele

era muito bom Sozinho,

ninguém

parecia

se importar. E de tanto Ninguém se importar,

nasceria o dia em que o ioiô lhe traria

a grande solidão de quem nunca foi visto, o duro

desamparo dos fantasmas

vivos e então

o Ioiô

morrerá abandonado justamente pelos braços do menino-abandono.

tem muita gente no mundo, mas tem mais Mundo do que gente, fora

os outros

planetas. ainda assim,

não cabe na Terra os sonhos de todas as pessoas que moram nela, o homem do carro

branco

Depois que abriu o farol,

enfiou o pé no acelerador e não era medo,

Ele disse pra família que era

medo, mas

na verdade,

aquilo era pressa pra nunca mais pensar no menino preto que, por hora, seguia em paz a sua vida, deu pra ver pela última vez

do retrovisor

equilíbrio

vi uma mulher na rua de vestido rosa justo, seios, joelhos,

salto. alguns homens também a viram, buzinaram seus carros pra dizer

Caramba.

vi muita gente no shopping, deu até filabicycle_drawing_budget_tote_bag-re9cb348ddf274b588ac3054075bb54e2_v9wtl_8byvr_324

no self

service.

vi gente apostando na loteria, alguns de terno. vi

gente fechando viagem em cima da hora

geralmente pra praia, geralmente pra qualquer lugar que seja

Longe.

vi carrinhos de mercado cheios de comida que acabarão até que rápido tamanha a quantidade de gente chegando pro

natal.

vi pessoas animadas porque estão de férias no trabalho, andando pelas ruas em horários não usuais. Vi também pessoas desanimadas porque férias

no trabalho

não existe pra todo mundo, muitas pessoas se sentem presas

no cinza de suas

mesas.

vi

Gente

que morreu recente sem respeito algum pela festa dos outros,

a pessoa morreu, simplesmente,

e agora um choro

de Anos, nenhum natal jamais será o mesmo, data de luto Marca feito gado a comida fica com gosto de

terra.

vi

poucas crianças na rua. vi

muitos carros com ar condicionado, os vidros

fechados, as pessoas dentro

do vidro.

Vi gente carregando bolo pra vender, vi os que preferem escada rolante

do que

escada sem roda

Mas não

vi

pessoa nenhuma

olhando pro azul que está o céu de hoje, parece até uma anunciação de que tudo, hora ou outra,

vai ficar

Bem. o mais perto disso foi a menina

da bike

pedalando na calçada que não

deixou

de pegar o panfleto do moço que entregava também o seu cansaço junto com as folhas, ela pegou o panfleto, deu uma lida e sorriu

pro sujeito

sem jamais

parar a bicicleta pra isso. Devia ser propaganda

de algum restaurante

japonês. Por um momento eu achei que ela fosse cair, olhei bem pro rosto dela: tinha sardas e não

caiu.

naquela casa era sempre natal

seu Luís era um velho sabido com cheiro de grama.

sua casa parecia 1 toca, tinha muita árvore antes da casa começar pela

Sala,

com sofá verde e um eterno presépio que ficava

o ano inteiro na mesa de centro com o menino jesus fora da

manjedoura.

quando o seu Luís não estava olhando

eu colocava o jesusinho na

cama dele, coitado,

e depois de meses, quando eu voltava,

sempre de mão dada com a minha

mãe,

jesus estava fora da cama, mais uma vez. aí eu fiquei religiosa,

achando o deusinho um menino teimoso.

seu Luís

era benze dor.

quando eu estava com dor de garganta e eu estava sempre com dor de garganta,

ao invés de médico, eu ia no

seu luís.

ficava apreensiva antes e toda a vez porque achava aquela casa com muito cheiro de mato, a tv ligada num canal que

ninguém assistia.

seu luís tinha uma velha mulher amante dos vestidos florais. Ela era boa quando fazia pudim, a colher batia no meu dente de tanto que eu chupava ela pra roubar todo o gosto daquele doce que

anos mais tarde,

descobri ser o meu preferido até hoje. Seu luís

usava óculos escuros de noite,

também. Me media na parede

pra ver

se eu tinha crescido desde a última vez que nos vimos: quase sempre eu tinha crescido. minha Mãe me dizia enquanto voltávamos pra casa:

 

– seu luís é homem de

deus.

 

da minha janela dava pra ver

a casa dele.

eu espiava de vidro aberto quando não sentia vontade de dormir.

Ele ficava regando as plantas, longamente.

Depois parava pra sentar na cadeira de balanço e fumava palha no meio da noite 1 passarinho

que cantava sua música de céu

escuro. Eu queria tanto entender as coisas no colégio, ficava com a cabeça cheia de matemática, mas era só

olhar

seu luís Fazendo

que eu ficava tranquila

quanto a essa historia de Entender. eu gostava do

deusinho teimoso que não parava na cama porque eu também era assim.

a Conversa

as palavras

uma atrás das

outras, combinadas e ditas pela boca de pedro

com aquela voz

larga de quem já tinha visto o caminhão dos sonhos chegar,

o caminhão

dos sonhos

passar,

o caminhão dos sonhos bater

no Poste da casa

azul e deixar em tédio

a rua toda

sem luz.

as palavras de pedro evocavam o dicionário dos bêbados que amam demais, por isso bebem, porque o tranco do amor é muito forte.

aquelas palavras depois frases depois

blocos de frases depois a conversa inteira

faziam ela ter

total dimensão de estar viva. Ela mesma

já bebeu demais. Agora

suco de acerola no almoço quando o garçom pergunta

o que a senhora

gostaria de

beber.

Era gingante ter a consciência do pensamento e do coração ao mesmo

tempo, sem valorizar 1 mais que o outro, era junto ouvir

o Pedro dizendo o que ela

sentia e não conseguia externar para além de um papo por baixo do cobertor pós-sexo com o

ex-marido, a única pessoa que teve com ela um pouco do gosto da verdadeira

intimidade.

Com o ex marido ela dizia desses sentimentos sem nome que precisam de frases inteiras para que as pessoas entendam o que

eles são, não como o Amor. Quando se diz a palavra amor as pessoas dizem:

ah sim.

eu sei o que é

amor.

E balançam a cabeça, resignadas.

Os sentimentos sem nome seriam mais como aquela bochecha quente que a gente sente quando não sabe se beija na boca ou no rosto no tchau do carro e você decide ser no rosto e o outro decide ser na boca e fica um impasse de anos que durou segundos. Esse sentimento não chama vergonha, nem falta de coragem, nem tesão enrustido, é um sentimento que

ainda não tem nome nem por isso

menos sentido.

O Pedro

traduzia em língua humana o que ela era por dentro sem dizer. Ela

tinha

aquela língua

guardada nos cantos dos ossos.

o tempo passa sem palavras

ele disse,

e ela lembrou da sua vó vestindo pulseira colorida funcionária pública, hoje morta

há 10 anos.

quem tem o poder de peneirar é a gente,

ele disse

e ela lembrou do primeiro caderno de poemas da sua vida, ele tinha uma capa de calça

jeans,

no lugar onde eu moro não tem parede

ele disse

e ela pensou que o céu também não,

a natureza não deixa eu ficar triste

e ela perdeu por uns segundos o medo

de borboleta porque

passou 1 e ela não correu. Só sentiu a beleza de dividir o mundo com alguém que

voa.

as palavras de pedro

acariciavam como língua macia nos seios, os bicos

imploravam, ela tinha

seios Enormes num volume de carne redondo e

preto até que chegou no

Êxtase antes mesmo do fim da conversa: gozou com letras soltas saídas pelos poros, discretamente. Ninguém no restaurante notou

também porque ela foi a primeira pessoa que gozou

com palavras em todo o mundo.

Depois,

sugiram outros casos e de vez em quando as pessoas falam sobre isso, mas

é difícil

porque gozar assim também não tem nome.

oração

ele me chamou de índia mas não é sempre que eu olho uma árvore e vejo

a Árvore,

muitas vezes nas minhas vistas ela só é

parte

da cidade como é

um paralelepípedo, também.4-Q.aliena

depois que ele me chamou de

-índia.

comecei a pensar no futuro sem árvore

da cidade

grande. Quando em 2070 tirarem fotos de São Paulo pela janela mais alta vai ficar um silêncio tonelável pela falta

de verde.

Existem muitos medicamentos disponíveis na farmácia,

a vida é alongável na cidade que cresce pro lado

até emendar na outra cidade, daqui a pouco

seremos colados e muito

sós. Não vai dar pra sair da frente do computador também por uma questão de espaço nas ruas, não caberemos. As crianças nascem sem caber, barrigas carregam pessoas pequenas que crescerão e morrerão cada vez mais

tarde. As pessoas

mudam de casa, na mala poucas coisas pensando que

se faltar algo

a gente compra no mercado da grande são

Paulo cada dia mais triste.

Que pá

ssaro

ver uma árvore, resistindo.

Ela mora no meio do chão, está sozinha de natureza igual a gente, ela parte o cimento em partes quando a raiz é muito forte.

Se estragar a rua a prefeitura

tira árvore

porque a mulher da casa da frente ligou

denunciando e a calçada fica sem nenhuma rachadura depois da árvore

tirada, só lombadas

pra evitar os rachas

dos meninos inconsequentes.

Tem terra

embaixo de tudo quanto é prédio, ele me disse, depois de me chamar de:

-índia.

e eu imaginei um mar subterrâneo com água de terra, minhoca

de peixe. É só pensar na morte que a gente entende que tem terra por baixo de tudo, cava-se muito para que o corpo

fique morto e não

perturbe.

por baixo do pé da gente que potência.

Tocar numa árvore é esquisito porque ela não é macia. Mas é quente e faz companhia pra quem presta atenção nos troncos com

galhos tão finos, as folhas de cor amarela que o sol empresta quando

toca, as flores

brotando às vezes e os frutos, só nas sortudas.

Uma árvore é uma pequena cidade completa.

Se morássemos em baixo dela ela vira casa, vira mãe, vira lúdica, vira feira, vira

um Livro. eu também sou uma cidade pequena que poderia se chamar

tribo, minha vó sempre foi

marrom, ou seja,

eu tenho no sangue um resquício de terra.

Não sou

Índia, mas chamar alguém por 1 nome Invoca o que há do nome dentro da pessoa chamada.

 

 

 

A água do café ferveu tanto no fogão que acabou

-por que a gente se beija tão pouco?
eu perguntei antes
de qualquer cansaço, era logo de manhã.
Ficou um silêncio seu de quem está pensando.
– você gosta de me beijar?- soltei.
– se estamos juntos há tanto tempo o Sim é muito óbvio. – você me disse distraído com outras coisas como
ferver a água pra passar o café.
-essa resposta é um desvio.- eu disse,
e você ocupadíssimo, colocando o Mamão picado
na mesa
da cozinha.
fui
pra cima da sua boca com a minha boca Teimosa querendo saber porque
esse espaço
de tempo tão longo entre elas, não é
Normal. Vejo casais que semi-transam no meio da rua por conta de 1 beijo,
não é possível que a gente6915519904_87f5d4b005
vire morno se ainda
é amor o fato
de estarmos juntos.
você retribuiu meu beijo devagar, agora sim pensando na pergunta que te fiz sobre se você gosta.
Depois foi acelerando, ninguém impôs o ritmo, aquilo
era a natureza do beijo e logo
a sua mão tirava a minha
camisola
preta sem tirar, sua mão por dentro me percorrendo o corpo, 1 velho conhecido nosso. não demorou nada e já estávamos
em cima
da mesa, mamão é fruta que amassa fácil imagina com o peso de 2
corpos
se movendo brutos em busca daquela sensação de céu
por dentro.
durante toda a semana depois disso, a gente
só deu selinho.

o homem que eu vi só de costas

uma moto ouvindo música ecoa pela cidade até o fim da rua.

depois

quem vai ouvir a música

é quem estiver

na próxima rua que a moto

passar, não eu. eu

escuto pequeno do lugar em que estou e sempre

estou

em poucos lugares, 1

de cada

vez. Não

Lembro qual era a música que tocava, mas lembro que ela era

Gorda

dentro da moto, mal sobrava espaço pro homem de capacete dirigir.

Ele estava orgulhoso disso, provavelmente a música não era filha da rádio,

era filha

de uma escolha pessoal e também sair naquele horário era pessoal, também fazer aquela

Rota, também usar

aquela roupa, o homem do capacete escolheu tudo menos nascer, além do clima.

A moto passou tão rápida por mim.

Fiquei a pé de boca aberta e o abandono dentro

da minha

boca.

Andar é lento, faz a gente ver

tanta coisa que passa num segundo virando vulto.

eu estava a caminho do supermercado. a moto com música me deu 1 galho de apoio, não cair no Abismo era

por enquanto, um galho

é magro e a rua está molhada de uma chuva

que durou 4 minutos mas molhou. Muita gente esperou a chuva passar sem assistir gota nenhuma da janela.

Eu mesma

não assisti,

preferi só ouvir e lembrar da chuva que conheço dos dias que

Namorávamos de frente pro janelão do teu quarto,

um império de quarto não pela grana, mas porque

teu quarto

era todo o seu apartamento de 50 metros

quadrados. Esse amor

nosso

acabou mas a gente se encontra e somos amigos. Muitos amores acabam. O duro seria nunca mais te ver. Não é como o Meu primeiro namorado que hoje tem 34 anos.

Quando namorávamos ele me

dava uma rosa de presente por nada. A saudade é nenhuma porque saudade não nasce das coisas que já passaram e sim das que

Ficam.

Não quero deixar de tentar nenhuma pessoa possível de virar

1 grande amor, eu disse isso também pra Chuva. Quando ela parou

desci pro mercado pensando em comprar sabão pra lavar minha roupa de solteira, mas pensando principalmente que eu precisava dar pra mim mesma um bom motivo que justificasse minhas

andanças: foi quando a moto passou

deslizante

direito pro

fim

da esquina, a rua molhada

ficou lotada com a música do homem mais ou menos livre porque

ele usava capacete, então

estava claro pra mim que ele tinha Medo.

Da sua moto, era como se ele concordasse comigo quando digo que não quero deixar de tentar pessoas possíveis de virar 1 grande amor.

Mas ele também pedia pra eu ter cuidado

só pelo fato

de usar capacete.

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o retrato

dois cachorros

brincam juntos sem

saber

o significado da palavra Brincar ou

o significado da palavra significado ou

o significado da palavra palavra.

os dois

cachorros

são muito

diferentes. 1 é pequeno o outro é bem rápido, 1 é vira

lata o outro nunca viu a lata de leite na pia porque a pia da casa dele é muito alta e ele é Cão de pata

Curta: nunca pensou em aumenta-la por conta disso.

Depois

da brincadeira na

praça,

os 2 cachorros irão pra casa e não restará nenhum rastro de saudade pelo asfalto da rua gomes de melo, os dois cachorros não vão se

telefonar.

Eles brincaram, apenas, e brincariam de novo caso se encontrem mais uma vez. Caso eles não se encontrem mais,

Tudo bem,

eles

Brincarão com outros cães e pombos ou com os próprios

donos

ou com bolinhas de plástico, sozinhos,

Em casa ou

dormirão se não tiverem mais nada pra fazer e isso não é triste.

Eu não sei se os dois cachorros são machos, se são

fêmeas, se são mistos e mesmo que eu soubesse

isso

não me faria pensar em nada além de

dois cachorros que brincam no fim da tarde apesar De.

Eles Correm, ligados unicamente no ato de

correr. Param quando cansam. Descansam e o outro espera. Não estão competindo. Não estão

querendo mostrar serviço

pro outro cachorro do lado esquerdo que já está

velho pra correr tanto assim, o que não é motivo pra lamento, ele apenas

deita

e assiste

os dois cachorros corredores no fim da tarde sem

Fim

pra quem

viveu esses dois cachorros brincando que

Se brincam, é unicamente pelo fato de estarem Aqui, além de juntos.

Pode ser que só isso

já seja

1 Milagre.

Pode ser também que eu esteja muito sensível nesses dias que passam, com choro

fácil, arrepios que nascem

de beijos

de Oi. Em todo caso,

tirei uma foto dessa tarde

dentro da minha cabeça pra olhar internamente toda vez que eu quiser lembrar do rosto de estar

vivo.

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praça de alimentação

O frango estava com gordura. Cuspi no guardanapo e fiquei com medo

do cara da esquerda perceber o cuspe e sentir

Nojo

de mim

igual eu fiquei do frango que também estava vivo antes de alguém matá-lo pra virar comida no meu

prato

como se eu fosse melhor do que ele só porque nasci pessoa.

Me senti portátil, o cara da esquerda me olhava

tomando suco

com canudo

Tão humano.

Levantei da cadeira sinalizando o fim do almoço e a calcinha enroscada no cu. O cara da esquerda ainda estava de olho, tirei rápida

a calcinha

de lá. peguei o dinheiro na carteira e paguei o restaurante pela comida,

outro homem

ao meu lado

Passava um pano molhado no chão que todos pisavam,

democraticamente.

Um grupo de mulheres passou por ele e por mim. Uma delas quase escorregou no piso úmido sem placa de aviso, as amigas ajudaram pra que Não e elas deram risada, depois.

Ninguém olhou pra cara do homem limpa-chão nem pra minha, mulher

que tira em público calcinha do cu e frango

da boca e frango

da granja, mata frango pra comer e paga.

Paga.

Paga por uma vida morta que ninguém deveria ter o direito de

tirar.

A moça do caixa me deu o troco. Eu peguei o troco e dei pro homem limpa-chão que não aceitou, ficou ofendido.

Me disse bem sério que nunca na vida ele precisou de esmola muito menos de mim.

Senti vergonha pela terceira vez.

Sai da praça de alimentação rumo à rua, o homem da esquerda me puxou o braço,

segurou meu braço e disse pra eu acompanha-lo até o carro que ele tinha uma Faca, seria melhor se eu ficasse

calada. Acompanhei o sujeito. No carro Ele me beijou, beijou meus seios.

a língua do homem era curta. Ele me beijou a barriga, as costas, as pregas, estava eufórico,

é muito esquisito ver um estranho em estado

íntimo.

Ele fez eu beijar seu pau, a pele tinha gosto de cueca

antiga.

Chupei pra não morrer porque vi a faca na mão do cabra e chupando eu não sentia

Nada, meu deus, nada, nem nojo nem medo nem coragem pra sair

correndo, sentia apenas 1 não-surpresa à respeito da escrotidão absoluta desse mundo

cão.

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viramos ex amigos

eu tive 1 relógio.

Estranhamente ele era azul mas dentro estava escrito Praia do Rosa.

os ponteiros eram em formato de seta então eles não diziam da hora: Apontavam pra ela, uma espécie de

guia. Eu me programava

compacta

através do meu relógio sem caos, às 2 tenho que estar no

Inglês, às 4 eu tenho que tomar café,

às 8 eu já deveria ter terminado de ler

esse livro sobre a revolução dos

bichos, amanhã a professora vai perguntar um monte de coisa sobre o enredo, vou dizer que não sei porque dormi de hora

perdida.

Quando acordava de manhã pro colégio, eu colocava o relógio no pulso mas não era enfeite.

Eu lia

Praia do Rosa

E imaginava aquele céu de fim de tarde depois de um dia muito quente,

um céu com partes em azul, partes em cor

de rosa e partes em 1 cor totalmente Nova chamada Rozul. Talvez uma praia rosa num relógio azul não fosse uma contradição tão grande assim.

Talvez

eram só 2 cores sendo 1 como o Mar que ninguém de verdade sabe se é verde ou

Se é

azul. Algumas pessoas têm olhos assim.

Eu tinha ganhado esse relógio de aniversário da minha mãe. Tinha pedido um

Relógio pra ela

porque muitas garotas da escola tinham e

as que tinham

eram sempre as que todo mundo ficava olhando com amor quando elas passavam pelos corre(dores).

Eu também queria amor.

Achei que o relógio ajudaria e

ajudou

um pouco, fiquei mais Confiante com o tempo enjaulado no pulso, as pessoas me perguntavam carinhosas:

-Que horas são, por favor?

Até na rua, ele era 1

Relojão. Pedi o presente mas Ainda assim eu não esperava um relógio tão especial que fosse Rozul pra mim e só azul pro’s outros que o viam com olhos pequenos ou não liam que dentro

do vidro

estava escrito praia

do rosa, além do cheiro de verão.

Um dia um menino novo na escola começou a ser meu amigo e eu de relógio. Ele percebeu.

me disse:

– Conheço essa praia.

Na hora meus olhos ficaram intensos, ele foi o primeiro que reparou. Eu perguntei da cor que ele tinha em mente, achei que estávamos falando de

Imaginação.

– Não.

A Praia do Rosa existe de verdade. – ele me disse. – Fica em Imbituba, Santa Catarina.

E eu pensando que esse papo era de

lúdico. Que Praia do Rosa era metáfora de céu

quando o dia tinha sido memorável de verão porque calor tem muita vida por ser

Possível de entrar

no mar mesmo com água fria.

Meu amigo me disse que a Praia do Rosa era tudo isso

sim, como todas as praias que são Bonitas com

vento, só que o mar não era rosa muito menos o céu.

Eu

quase não o ouvia mais, estava

tão triste, expliquei pra ele que

eu queria guardar o tempo de relógio num lugar que não existe fora da minha cabeça, por isso eu gostava tanto do meu relógio escrito Praia do Rosa, porque eu pensava

que aquele lugar tinha sido inventado por mim. Meu amigo me disse:

-não entendi.

E depois disso nunca mais conversamos além dos pequenos Ois no corredor até o fim

da escola.