a Salvação

um cheiro de sopa. Vinha do corpo da velha sentada com calças antigas, esperando o filho

que estava pedindo um suco

pra ela, no balcão, e uma colher.

Com tatuagem no braço escrito Giovanna, ele levou tudo pra mesa

com um sorriso que só tinha olhos

pra mãe.

Abriu a marmita de mandioquinha empapada

e começou a dar na boca

Dela, barulho de ferro

entrando

e saindo da mucosa sem dente, uma cara sem osso, a velha usava meia

com chinelo, idade

com peso Da idade.

Ele falava um pouco alto pro ambiente da lanchonete não tão grande.

Falava:

-Come mãe.

-Tá gostoso?

-A senhora tá cansada?

E falava com muito carinho,

Muita paciência. A mãe de corpo estava lá mas ela já não era

A Mãe de

Anos

atrás. Ela agora era uma árvore002-barbershopparis-exhibition-marynn

oca.

Se a abrissem com um machado, sairia

algumas

poucas formigas e

nada mais. Era uma velha

muito velha aquela senhora. Será leve pra Morte a levar de tão magra.

Depois que acabou a sopa, o filho colocou ela de pé para irem embora.

Antes ele passou no caixa

pra pagar a conta

O que deixou a velha bastante inquieta, bunda

pra dentro, calcinha gigante, cu limpo não por ela, mas pelo Filho com

o papel higiênico da

folha

mais macia que existe no mercado. Aquela velha era um bebê

antigo.

Tão frágil que fragilizava o mundo que colocasse os olhos nela, quem colocasse os olhos nela pensava em morte,

pensava em hospital.

Menos o filho. O filho pensava na mãe que ele sempre teve e que dava gemada pra que ele

crescesse um touro, funcionou. Agora que a mãe precisava

de um braço, o filho lhe deu um abraço dizendo

vamos?

E ela foi.

O tempo

é uma Bigorna caindo lenta no corpo da

gente, anos

E anos

Atrás, essa Mulher foi Amada

por alguém em algum nível o suficiente pra fazer um filho nela e seguir

sendo amada,

hoje em dia,

pelo fruto

de uma noite de

sexo em que com certeza

pelo menos 1

gozou.

E tem gente que ainda tem coragem de dizer que sexo não é Importante.

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mãe morta

tropecei no bambolê também porque usei uma velocidade muito acima do necessário pra buscar a bola

de vôlei que

Ia cair

em Cheio

no Jardim do velho rabugento, eu

já estava vendo

aquelas Margaridas

Voando

com as pétalas

em migalhas, culpa da cortada

Mal dada

diretamente na cabeça das

Plantinhas.

Eu corri, mas tropecei no bambolê intrometido, esquecido na beira da calçada acho que até por mim, e caí

de joelho

no asfalto sem poder evitar

a morte, as pétalas

Voaram

exatamente do jeito que eu imaginei porque não era a primeira vez.

Deu pra ouvir os passos

pesados

Do velho rabugento descendo as escadas Louco da vida,

louco também pra furar a nossa bola pra sempre, assim a gente parava de Destruir

O jardim

Dele, éramos Bomba.CKjrv4ZWsAAy7Cu

Até tentávamos brincar longe

Da casa

Do velho, mas

que batata, a bola

tinha Imã e caia categoricamente em cima

das plantinhas mais bonitas do Jardim, pra matar.

Corri pra pegar a bola antes do velho, o sangue no joelho

escorrido pra canela

não me assustava porque

eu ainda não tinha o visto.

Peguei a bola, o bambolê (mas não devia) a mão da minha amiga que me disse preocupada:

-cê tá bem?

Fiz Uhum com a cabeça, só pensava em dar o fora antes do velho chegar, tínhamos a idade curta ao nosso favor o que era

um vento e corremos

Pra dentro

Da minha casa, latejantes.

2 criminosas.

-Bandidinhas! – o velho gritou

Ouvimos com o coração

na boca.

Tínhamos medo da cara do velho. Fechamos a porta pra tudo isso e sentamos de costas pra ela

Rindo

Nervosas, tão

meninas. Foi quando eu vi a minha meia antes branca

Agora

Vermelha.

Foi quando eu vi o Rombo

no joelho

direito, tudo vermelho na minha

Pele

Marrom. Senti um Peso na perna como se eu não pudesse dar mais nenhum passo na vida, o olho

Ficou molhado,

As bochechas

Vermelhas molhadas,

A boca

Salgada Abrindo do tamanho do mundo

pra chorar muito

Alto,

assim quem sabe a minha mãe conseguia me ouvir.

balanço

tentei ficar menos triste desde semana passada, inclusive

quando vejo

você, Pe d ro, e

Consegui

um pouco, mas voltava logo prum registro de desânimo

abaixo da minha

temperatura normal. Ninguém

morreu, muito menos

metafisicamente. De perda, só que eu decidi não ver mais o

Gabriel e a possibilidade de vê-lo, Apenas, já me dava um certo Quente,

ou seja,

Sexo, mas

não deve ser só por isso que meus ombros andam tão caídos

Deve ser que a Vida é Foda

Mesmo, minha amiga me disse:

-não gosto de gente feliz o tempo todo porque isso não existe.

Eu costumo ser feliz quase que o tempo todo e quando não,

tento

me distrair

ouvindo música, amando de

novo,

tentando apaziguar as brigas, tentando ajudar

A carregar a sacola de mercado numa

carona,

Dizendo de um livro muda(dor) de vida

(a minha)

servindo um vinho com muito cuidado, olhando a pessoa nos olhos pra dizer que somos todos seres humanos numa busca desumana de se Encontrar e

Vamos, um dia. O tempo ajuda a sermos

melhores no sentido de menos

Umbigo.

Eu tento. Mas nesses dias o que tenho feito

não funciona.

Deve ser o Pedro, que me deixou com certa vida no peito ao mesmo tempo em que Ele não me Leva

nem em Consideração

muito menos pra passear

na Cidade a dois, o que deixaria a Cidade

imensamente

Vazia.

Ele Pensa que eu sou um chá, algo que existe

mas que é Ok Ficar sem. Se tiver que beber porque não tem outra coisa

Tudo bem, se Bebe, mas é tão

Ok ficar sem.

Quando a gente conversa é porque eu procuro. Mudo meu tom pra falar com ele. Faço 1 sexy que

vi no cinema nos anos

90 e eu Criança

babando com o tamanho de Mulher que era aquela atriz.

Faço Ela quando o vejo, puxo um beiço,

viro o quadril, coloco minha franja pro lado e falo sobre algo

Inusitado pra ele ver como sou

Especial.

Ontem mesmo falei sobre abacate. Sobre ter ido a uma frutaria que

Considero a melhor da cidade e quando perguntei do abacate descobri que não tinha, por hoje.

Falei que isso era como chegar no puteiro e não ter puta, só Gerente.

O Gerente é o abacaxi, que tinha de monte

pendurado no balcão do caixa.

Ele riu com gosto de cair a máscara que

ele também

veste quando me vê.

Me Disse:

-você é bonitinha mesmo, hein.

E quando foi embora saiu abraçado

com uma mulher de rabo

de Cavalo nem um pouco

Parecido com o meu.

O amor é tão constrangedor.

Sinto vergonha de existir com essas minhas investidas inúteis,

estou ficando sem saber como lidar com a conquista porque ando pensando demais antes

de agir.

Anos atrás eu era um lince. O Pedro ia ver só se fosse anos atrás.

Hoje em dia sou melhor em sentar

na cadeira de balanço da minha

varanda

E pensar no quanto cansa

essa bobagem de gostar de alguém querendo o mesmo em troca e

de Disco

um blues

de algum antigo que já

Morreu.

vamos parar de nos enganar assim

depois de todos esses anos ele me chamou pra fazer um Filme.

Quando éramos amigos,

ele já gostava de cinema mais que de teatro,

Eu comprei no shopping 1 caixinha de guardar qualquer coisa que fosse pouca com a foto da Marilyn Monroe na parte de cima, ou era o

Charles Chaplin, não me lembro, lembro que paguei R$13,90 e o ano

era de 2006, perto do

Natal, mas

não por isso.

Dei o presente na Casa das Rosas, estávamos ensaiando uma peça

que na época parecia que ia mudar o mundo mas

claramente não mudou. Você chorou no meu presente e eu pensei que você talvez não estivesse acostumado a ganhar presentes e por isso

você se apaixonou por mim. Acontece que Não foi por mim. Foi pelo que eu fiz você sentir, a textura de ganhar algo como demonstração de Afeto é

milenar.

Depois dessa peça eu fiz só mais 1 pra nunca mais

Pisar no palco. Meus amigos-atores me esqueceram. Diziam que eu era

O Talento quando estudávamos juntos, mas quando sumi não recebi nenhum telefonema me pedindo:

-Volta.

Eu sei que a vida não é assim. Eu também não liguei pra ninguém. Tinha 18 anos e me apaixonei por um rapaz

Que não gostava do fato d`eu fazer teatro por beijar

outras bocas que não a dele, além do fuso horário de ensaio.

Foi muito fácil desistir por amor. Nunca mais eu quero desistir de nada na vida mas isso é tão

impossível. A cada escolha

Já desisto de outras mil coisas importantes também, lindas também.

Agora depois de anos, quantos? oito,

nove,

você me mandou uma mensagem no

celular

perguntando se eu teria interesse

de fazer um filme

seu.

Um filme, eu pensei. Estava no ponto de ônibus me imaginando num set

por 3 semanas. Me imaginei lendo o roteiro, gostando das falas que eu teria. Falando elas no banheiro pra me acostumar com aquelas sequências de letras que não fui eu quem escreveu ou pensou, mas

deveriam parecer tão minhas quanto qualquer parte do meu corpo.

Me imaginei depois, também, em telas de alguns cinemas de Rua e no

Youtube na casa das pessoas.

Disse que eu me interessava,

sim. Digitei a palavra

Quero.

Você ficou de me mandar um email que nunca chegou. Fiquei ligeiramente esperando mas sem esperança porque penso que Atriz foi uma morte em mim

que eu fico tentando ressuscitar porque acho bonita a beça a palavra

Interpretação, além de imaginar Sophia Loren andando pelas ruas

Com a Itália inteira no Peito, jorrando.

Até que, tempos depois, você me mandou outra mensagem pelo celular, perguntando se eu tinha recebido o tal email, já que meu nome

Não estava na grade dos testes pro seu filme, você

diego,

diretor de cinema, agora.

Eu disse:

-Não recebi email nenhum.

E você tentou me ligar umas 3 vezes, meu celular justo no dia estava com problema na operadora e eu não te ouvia

Nem você

Me ouvia e no outro dia, ainda,

Você preferiu me mandar uma nova mensagem dizendo:

que desencontro.

ao invés de seguir tentando falar comigo até pr`um papo no café da esquina.

E eu

preferi ler a palavra

desencontro

digitada por você pra mim

e concordar um pouco, além de escrever esse texto ao invés de Simplesmente

te ligar.

fome

minha blusa estava larga pra mim. Cabia um palmo a mais

de peito além dos meus que não são grandes, mas

são Fêmeas que

querem boca

tanto quanto a própria

boca ou

mais, já que estão em 2.

Passei o dia com a Blusa e nada me aconteceu a não ser eu

me sentindo muito fresca com esses 30 graus em Sampa city, o vulcão

das cidades

Malditas e também alguns olhares, de homens distraídos

com o corpo feminino no caso o meu.

Fui ao cinema, não pensei mais em peitos. O filme era pretencioso sobre sexo,

de um grande Diretor Alemão que

por terem dito que ele é:

-Grande.

Agora se dá o direito de enlouquecer. Fui ao cabelereiro,

Fiz um coque, pedi um sorvete de palito no bar. Me deram, inclusive

o troco.

Voltei pra casa dirigindo pensando que amanhã daria tempo sim,

de fazer mercado e dormir

um pouco

mais. Voltar pra casa de carro é uma estrada longa que gosto de sentir com janela aberta.

A janela estava abertíssima, inclusive, no máximo que podia e eu querendo que ela fosse 1 porta. Parei no pedágio e disse

Boa Tarde pro homem que me olhava tão sorridente da cabine como se eu fosse uma pop star.

Peguei as moedinhas na carteira e ele sem tirar

Os dentes

do rosto

me disse:

-moça, a blusa.

Num balbuciar de sílabas semi-sem voz.

Olhei pra baixo e vi

1 peito de fora, o que estava do lado da janela,

absolutamente de fora,

nem o cinto do carro cobria e o Bico

Duro.

Olhei de volta pro moço que estava me olhando panorâmico. Um peito nu de mulher

no meio da cidade grande é

das misturas mais poderosas do mundo para desestabilizar 1 vida de

tédio.

Segurei os segundos antes de puxar de volta a

blusa, segundos esses que fizeram toda a diferença

pra deixar aquela cena

digna de ser contada em beira de bar pro’s amigos, quiçá até

daqui uns anos.

Então arrumei a blusa, devagar. Demostrei vergonha que não foi de toda mentira, pedi até

desculpa,

Ele tão leve me disse:

– não moça. desculpa eu.

e o outro cara,

da outra cabine,

me acenou de longe um tchau Gentil.

Acelerei,

amando ser mulher.

de bairro novo

Deitada no peito da minha mãe com a correntinha dela balançando em mim num carinho de aço na

Estrada, que descobri mais tarde ser a Castelo Branco,

rumo à nova casa que eu não sabia que cara

teria.

Nem o Bairro,

que agora moro por mais de 15 anos, o tempo

correndo em frente como um Cavalo revirando o mato que somos. Cada vez que me perguntam,

– você mora por aqui faz tempo? eu digo

cada vez mais anos, me mudei

e não me mudo desde então.

andar de carro quando eu era menina tinha uma velocidade diferente. A cidade era maior e incompreensível, eu tentava dar significados

pr`os muros escritos que eu lia

metade das palavras, não todas,

as palavras com V e W eu não lia direito, nem

com 2 ss, era tudo

um código imenso que me deixava distraída no colo da minha

mãe, ela gostava muito de me pegar no colo

porque eu era

mini.

Quando chegamos na casa nova não me lembro do portão.

No apartamento dentro eu olhei bem fixo, antes eu morava em casa-casa e estranhei a falta de quintal explicada num pedaço de janela aumentada chamada de:

– Terraço.

O meu cachorro teve que partir porque não tinha Espaço

pra ele apesar que pra gente tinha, então

por que?

pra ele não. Eu pensava que membros da família

tinham que estar sempre juntos, não importa o drama.

Parece que nem sempre, pelo que me explicou meu pai na época.

Eu tomava muito milk shake do Mcdonalds e as cookies que a vizinha trouxe

enquanto meus pais tiravam as coisas das caixas

E colocavam as coisas das caixas

Espalhadas pelas cômodos da casa como se fosse lógico o lugar de cada 1.

Até que

eu gostei do tal do

Terraço. Batia um ar cheiroso que misturado

com o Milk shake acabou virando jeito

De lembrar com o passar dos anos.

Eu alugava fitas para assistir os filmes da moda. A tv era enorme atrás. Eu pensava

que as pessoas que faziam os programas que eu assistia estavam atrás da minha televisão. Chegavam de avião discretamente na minha sala e eu nunca conseguia pegar eles chegando, por mais que eu Tentasse.

O que mais me impressionava era quando aparecia o mar. Porque

O Mar pessoalmente era tão grande mas cabia no tubo da minha tv que também

Era grande, mas bem menor.

Eu ia na banca de jornal com a minha mãe de mãos dadas. Comprávamos revistas pra recortar a tarde

toda. Eu Estava gostando do bairro novo, sentindo falta só da Giovana, que

Iria me visitar no fim do ano, se tudo desse certo

Com a saúde da sua avó.

Deu tudo errado com a saúde da sua avó e eu nunca mais vi minha amiga, só

dentro da minha cabeça e nas cartinhas

que mandávamos uma pra outra e que foram

Ficando

cada vez mais escassas com o passar dos

anos.

O Passar dos anos.

Hoje,

olho pra minha casa que é a mesma desde então. Fui eu que perdi

aquele olhar

que Preenchia tudo. Tem alguma coisa muito velha e triste no Terraço, agora. Uma coisa feia, dura,

cheia de

Saudade chamada eu cresci.

ps: 

o retorno

que rosto, o teu.
é de garoto com esses olhos de janela pro mato,
uma casa nova
num velho bairro que chove muito no verão, você.
Não reparei na sua altura,
Nem na sua falta de tato no
abraço, nem nos seus textos. Quase não
Reparei que reparei em você de tão leve que foi.
Percebi depois, que passou o dia,
e teu rosto ficou insistente no fundo do meu olho enquanto eu dormia e até hoje.
Entro no sono e vejo
teu rosto que percorro com todo o meu corpo como quem viaja de bicicleta pra longe e precisa ir lento
porque a perna é 1 só.
não tive coragem de perguntar a tua idade, você deve ter não mais de 20
anos.
Se veste de caso pensado, acha importante umas coisas
que não tem a menor importância no meu hall de presto atenção, como meu cadarço desamarrado da bota que você me avisou:
– cuidado.
pensando que eu podia cair.
Acho que te ganho em altura por uns 5 centímetros.
Fico imaginado nosso beijo em um lugar dançante. As pessoas aglomeradas nos juntando cada vez mais até que a nossa boca cole, tua língua
Entra,
engulo um hálito
morno e,
Um pouco mais tarde,
engulo teu pau
no que seria
Uma chance que nos daríamos para esse ímpeto de encaixe que bate e é forte, faz o peito crescer.
No fundo, a gente só quer se conhecer
melhor porque estamos muito curiosos nos achando parecidos.
Não seria amor, seria uma
Chance que eu daria também pruma cidade inédita que me fizesse Sentir. Moraria nela, tenho 1 amiga que fez isso e está viva,
tomando cerveja
na rua de quinta, a nova sexta.
Ela Foi pra Porto Alegre e nos bares se sentiu em casa, agora está em busca de um apartamento.
Gosto de pensar em você como um apartamento que quero morar porque tem uma vista das mais Bonitas, inclusive de dentro das minhas pernas com
a tua língua num entra e sai
de buracos, teu pau te fazendo morar
Em mim, com
Você inteiro, homem-menino, dentro de mim e já no útero, no fundo penso
que o apartamento sou
eu.

o casamento

o som do taco estalando com o peso dos passos

dele e o olhar fulminante

pra ela, que vinha de um peito Gelado cansado de

Sofrer. Aquele olhar guardava o palavrão mais Diabo de todos os tempos que sequer foi inventado, nem mesmo durante

a segunda guerra mundial não por falta de Urgência, mas

Sim

porque em Guerra não há tempo pra Sentir nem a Dor da própria guerra.

Aquele olhar dele

guardava todas as angústias engolidas, entupidas, enfiadas goela abaixo,

Angústia que já morou no estômago, que subiu os

degraus do

pescoço e foi morar no olho

Violento

Dele.

Mas esse olhar

ele só lançou quando se afastou dela e saiu da sala.

Ela distraída com o próprio pé, se olhando vaidosa depois de ter dado mais 1

De suas

Respostas atravessadas, dizendo que ia trocar a bolsa que tinha

Ganhado dele de aniversário Sim, na verdade

Que ia fazer caridade ou jogar a bolsa na lata

Do lixo,

Ela disse Qualquer coisa bastante agressiva também no tom, menos

No amor.

Ele deu um sorriso duro pior que soco e ela tão perdida em si, se amando como

Sempre porque ninguém mais conseguia tal feito, ela

mal percebeu

que ele não a amava mais e o quanto Isso fazia

tempo.

Ela jura que ele a ama muito. Conta disso no cabelereiro.

Talvez num dia bêbado ele a mate, talvez

Falte peito e falta, Mas ele

já a matou pensando que sim. Enquanto ela berra seu monólogo diário contra o mundo, ele imagina 1 Faca

fazendo bife daquela mulher que não se cala talvez nem com

A morte tamanha a sua

Força em Resistir.

Ela ainda o Ama. É desastrosamente insuportável porque não aprendeu a ser outra coisa. Ao lado dele ela Se sente triste com quem assiste um jovem morrer e ele também, tristíssimo.

O casamento continua, por qualquer motivo que eu desconheço mas penso

que Deve ser porque lá na Igreja,

no dia 20 de maio 30 anos atrás,

o padre disse que era até que a morte os separe e eles 2 carregam nos músculos Muito medo da ideia de

deus, como se

o Amor

fosse uma espécie de

Solitária.

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Soledad é a palavra mais bonita para Solidão

Roberto dava chilique pra cantar. Numa hora qualquer da música ele debatia o corpo, rangia o rosto

Negro, encolhia os ombros e a voz altíssima não necessariamente no refrão, era lindo.

As pessoas da plateia ficavam como se estivessem vendo a Lua de dentro do mar e a água

quente, inclusive eu ou

especialmente.

Roberto usava um terno preto rigoroso mas a gravata era de glitter. O brinco

Era dourado, numa orelha 1 argola

Na outra

um botão.

Nada em seu canto era comum e quando era o solo

Dos músicos, Roberto

Virava de costas pro Público

Pra se tornar ele mesmo parte do público dos músicos de jazz.

A figura

Dele se apagava quando ele virava de costas, mas nunca esquecido.

Era como se ele emprestasse a sua luz pro moço do piano, pro menino

Da batera, pro homem-cara-fechada do

Contra

Baixo. O homem do contra

Baixo morava dentro do seu instrumento como numa quitinete de aluguel muito caro. O do piano ás vezes comia em cima do

Piano e derramava líquidos

Sem querer

Nos teclados.

O menino da batera tocava seu instrumento de toalha pós-banho.

Já O Roberto tinha a voz de instrumento, definitivamente vivia na Música, voz

Não se vende nem se troca nem se compra numa loja melhor. Voz é de deus, se existisse coisa

Desse tamanho. Como não existe, voz

É gravidez.

O cantor é gestante da música, o Roberto do Jazz e entregava tudo que sabia

Pra gente-plateia, inclusive eu

ou especialmente, que tomava meu drink sem acertar a Boca porque estava hipnotizada. A maioria das mesas da casa

eram de no máximo 4 pessoas,

com 2 casais amigos quase sempre perto dos 50 anos, vestidos elegantemente em perfumes variados no ar. Tinham vivido pra estar ali.

Pelo Roberto, essas pessoas

paravam.

Erravam seus garfos na boca, como eu, só que mais discretos.

Não pensavam mais se fazia quase uma hora que não saiam pra fumar um pouco de ar, se tinham

Medo de morrer, se fazia anos que não transavam com seus maridos e esposas em noites de um dito:

-Boa noite.

apenas, seguido com o pagar do abajur do seu lado do criado mudo enquanto o outro ficava lendo

Qualquer coisa que não

Importa nem no macro nem no micro do Mundo. O silêncio dos casais depois dos anos é triste porque não é um silêncio

Preenchido. Mas no momento da música do Roberto,

toda gente que ouvia Esqueceu.

Eu pedi nina Simone porque o lugar era pequeno e podia pedir.

O roberto me disse que não sabia cantar Nina Simone, mas sabia

Cantar uma música que era a cara dela e eu vi a Nina

Deitada tomando Sol enquanto ele cantava aquela canção que eu não conhecia e nem sei

Como Encontrar.

Então houve um Intervalo. O roberto sentou

na cadeira do corredor fora da luz do palco, os músicos foram pro bar,

Cada um descansa

Como pode não como deve e os Casais começaram a pedir a conta.

débito.

Crédito.

Dinheiro não se vê mais. O dinheiro é só uma ideia guardada nos números que faz o mundo funcionar como uma Roda.

O Break de Roberto era de 15 minutos. Ele na cadeira sem luz parecia um

Velho que desistiu.

As pessoas foram embora de mansinho.

Aquelas mesas vazias ainda estavam quentes. Depois do intervalo de 15 minutos que pareceu mais longo,

Só ficou na casa de jazz o Roberto, a banda

E eu,

Além dos garçons, que só podiam ir embora depois das 2 da manhã.

O Roberto cantou pra mim sem me olhar, cantava olhando pra frente como se a casa estivesse Cheia.

Cantou igual com se a casa estivesse cheia.

Deu chilique do mesmo jeito, apresentações incríveis só para 1 pessoa dá vontade de chorar. É como uma cidade

Vazia.

O roberto e a banda cantaram mais 5 músicas que eu não pedi nenhuma. Quando acabou tentei aplaudir o mais forte que pude pra

Compensar a plateia que não estava.

Queria dizer com os meus aplausos que era só eu, mas

eu estava escutando pra caramba.

Dei parabéns a todos com palavras, também. Sai pela porta da frente, a bolsa solta

no corpo. Pedi meu carro pro manobrista que foi bus(car) no quarteirão e que demora, o Roberto saiu

Enquanto eu esperava.

Saiu pequeno, com a pasta de músicas debaixo do braço. Disse pro segurança da casa:

– Só volto semana que vem.

Os 2 pareciam velhos amigos e eram negros como

Seus ternos. O segurança o chamou de:

-Robertão.

Com tapas nas costas, Imaginavam que voltariam a se ver semana que vem, mas

no fundo ninguém sabe exatamente se sim porque a morte

Existe.

Depois,

o Roberto saiu caminhando pela alta madrugada sem nenhum resquício de ser

1 Gênio.