se eles não tivessem tido coragem de fugir eu não estaria aqui

minha avó sabia tocar piano mas não falava sobre isso,

era minha mãe, orgulhosa, que gostava de contar que sim sem

nunca

ter ouvido 1

nota sequer. Ninguém ouvia. Não tinha piano na casa da minha família, instrumento

custa

caro. Há mais de 40 anos minha vó não tocava. Incrivelmente,

sabíamos todos que era verdade, que

minha vó tocava piano como um anjo e que ela tinha sido muito rica

Anos e anos atrás.

Em época de menina, minha avó estudou música com famosos professores

de requinte, uma pompa.

Casou com um homem mais velho aos 16, por imposição. Meu avô apareceu na janela depois.

O marido dela viajava muito, ela

ficava no piano,

Dedo e ouvido

preenchido com música pra não morrer de tédio ou

Solidão.

E um homem de terno que fumava ficava na porta da janela, escutando. Algumas músicas eram composições próprias, mas

meu avô não entendia de sonata,

Achava que tudo era Beethoven e achava que ouvir música da janela era

Muito Melhor

Que qualquer vitrola.

Estar

no mesmo lugar da Música quando ela acontece é como

visitar deus, um

alívio.

Meu avô não sabia que quem tocava o piano tinha seios largos,

bicos enormes, nuca morena e uma quentura no ventre nunca vista antes num doce abrigo do Nu.

Já Minha vó sabia como ele era alto, cabelo escasso tão jovem, pose de nobre, via o reflexo pelo vidro da Janela.

Achava bom ele estar ali, seu pequeno público, o menor público do mundo o de

1 pessoa só.

Meu avô foi o único que ouviu minha avó tocar. O resto que ouviu

já estava morto há muito tempo e depois de tudo o que eles viveram, filhos, brigas, ausências, casas velhas e casas

emprestadas, dinheiro

pro cigarro antes do pão,

também meu avô morreu.

10 anos mais tarde foi a vez da minha avó.

E claro que nessa época de serenata invertida eles fugiram juntos, minha avó casada com outro, meu avô sem tostão na carteira. Eles Disseram:

– tudo bem.

pro’s infortúnios e fugiram

Pro rio

De Janeiro. E fizeram sexo. E tiveram medo.

De olhar

assim

as fotos,

Acredito piamente em todas as histórias que me contaram sobre

eles sem nunca

ter visto nenhuma por culpa da irrefutável impossibilidade cronológica.

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