célula(r)

Logo cedo pensei em te escrever.
não estou acreditando nesse nosso silêncio de meses, nesse conforto
de ambas as partes em saber que
chega entre nós,
deu. Estamos incrivelmente assentados
no nosso
fim. De pernas cruzadas, bebendo em cima do passado
um chá
de camomila dedo em riste e
se perguntarem se nos conhecemos eu digo
sim, mas
faz tempo
que não o vejo. não faço ideia de como
ele está.
Não vou te ver envelhecer, Danilo. Meu quarto ganhou um quadro que você
nunca viu.
Pensei em te escrever:
Saudade.
Pensei em te escrever:
cu.
Pensei também em:
O tempo.
Ou 1, mais direto:
Vamos se ver?
Escolhi o nada
e quando digo de uma amizade de anos que nunca mais ouviu a voz dos 2 amigos,
não por canalhice ou
por lonjuras de estradas fora, mas
por pura preguiça das distâncias de dentro, eu conto disso pras pessoas e elas acham normal, seguem tomando seus
drinks.
É normal,
elas me olham intactas. Aconteceu comigo e com o Jorge, lembra?
Não lembro,
meu medo
é esquecer teu rosto se eu nunca mais olhar foto sua.
Aconteceu com a minha amiga Giovanna. Lembro da presença dela em mim, da grafia do nome dela na lista de chamada, do sol
alto do meio
dia mas
do rosto dela,
Nadinha.
Ela pode ter passado por mim na rua ontem, anti
Ontem: não vi.

Escrevi:

se eu morrer antes, você chora?

não mandei.

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uma boa contadora de histórias

quando criança eu
sentia medo dos velhos, as mãos, as rugas, o cheiro de
gaveta, o peso
do tempo, o Jeito de olhar perto e parecer raio
x. Os velhos
sabem o que acontece com os outros,
passaram por tantos rostos que
só de olhar 1, já sacam segredos (pro)fundos. Toda vez que eu tentei mentir para a minha vó, por exemplo,
dei risada. Porque ela me mirava tão dentro com aqueles anos, me atravessava os ossos seu olhar de
faca
encapada com
seda, cedia.
– Fui eu sim que derrubei o vaso, vó. Desculpa.
E saia correndo pra não apanhar.
Fui eu, vó. Fui eu
sim.
Quase sempre eu,
Rodeada pela falta de sorte que quebrava pratos, copos, plantas, eu me machucava, tropeçava, me
Apaixonava, uma vez
Me apaixonei pelo menino que fazia a propaganda do macarrão. Descobri, anos
Mais tarde, que o menino era uma menina
De cabelo
curto, gelei. Minha vó
Me olhou. Fechei os olhos
pra ela não descobrir, era pelos olhos
Que ela
Entrava em mim. Eu mentia muito sem ela por perto.
A professora do colégio
Também era velha, o mundo tem muita gente que ainda
não morreu.
Longe dos
velhos eu mentia a vontade. Os novos
Acreditavam em mim. Teve um dia volta as aulas que eu Contei pro’s meus amigos de sala que eu tinha ido pra Disney de helicóptero nas férias.
-pousei no meio do parque.
Eles ficaram encantados. Ninguém lembrou que existia
Aeroporto. Eu dizia que meu cabelo
era grande no ano passado, que cortei assim tão curto agora,
em janeiro. Eu falava que minha mãe era
bailarina e que sabia nadar. Que eu tinha na garagem
um pastor alemão matador de gente
mau.
Mostrava foto minha
no gramado do Ceagesp e dizia que Ali era a minha casa, por acaso
uma mansão.
Meus amigos faziam bocas enormes pra mim.

amor

Pensei no Livro, não em 1

Específico,

acordei pensando no livro como coisa, as palavrastumblr_nnaf6lPE451qdtnqko2_400

umas atrás das outras, as imagens

se molham nas memórias,

A textura da capa, da folha, o cheiro da tinta que

nunca borra porque secou faz

tanto tempo, os grifos nossos,

Sempre tão nossos,

Unicamente nossos os entendimentos que fazemos dos outros.

A língua em que se lê o livro, a língua em que o livro foi escrito de verdade, quantas milhares

de pessoas falam essa língua, tantas

outras

não.

Quanto anos de estudo pra ler

1 livro e o Escritor,

Quantos livros

ele já

Leu? E segue lendo, quantas anos gastos por vida com o olho fixo no papel e olho

Nunca está

Fixo no papel, tá dentro, tá fora

nas estantes

empoeiradas, 1 casa

cheia de

Livros parece boa pra mim. A gente nunca entende tudo de uma obra, a gente nunca entende tudo de

nada, em cada momento de leitura

a gente aprende uma coisa desaprendendo outra, o conhecimento

Vaza

e quantos são os bancos que nos sustentam durante as leituras, os de praça, os de casa, os de ônibus, às vezes

ficamos em

pé,

o chão sustentando os

Pés, a

Poesia

Não precisa de chãos, poesia é

cal, livros

gordos, livros caros,

tem leitura que fazemos deitados fisicamente em alguém,

Tem leituras que fazemos deitados emocionalmente em alguém,

Quantas coisas envolvidas no processo de Ser 1 livro, o antes,

As árvores, a editora, o editor que preferiu

Acreditar,

O revisor

A gramática, antiquíssima.

A nota de rodapé é um

professor, além do Depois do livro.

A vida

Muda

diante das letras. Fica calada porque ler

é grande.

Amadurecemos como fruta depois de certas leituras, chega a dar

Saudade

quando o livro

Acaba, daquela que sentimos por gente que amamos muito e o medo de perder. E o medo de morrer.

A Cura

seu toque de piano no meu

braço

arrepiava até a barriga, eu

me curvava, jogava cabeluda meu pescoço nas

costas, sentir seu beijo eratumblr_nnaf6lPE451qdtnqko1_400

1 dança, você dava

até pausas

pra me ver grávida

dos seus olhos por

anos, foram anos

os (n)ossos. Na noite do primeiro beijo eu vi sumir o mundo de fora, ficou só

a gente

dentro da gente

e dentro 1 do outro, há quanto tempo não sinto essa

ânsia de Ajoelhar e dizer

– Vamos.

pra vida.

Apaixonar não é normal. Pessoas maravilhosas são maravilhosas

sozinhas, acompanhadas elas se tornam terríveis,

Combinar pessoas é tão importante quanto difícil para que o amor

fique bem.

O amor

marca a cara da gente como gado, na rua vejo

rostos e penso:

Esse aí

Amou demais. Você disse de dívidas,

não temos nenhuma. O seu me largar foi para amar a menina dos seus sonhos da época que não era mais eu e você

seguia sendo o homem dos meus sonhos da época. Acabou assim, egoisticamente.

Lembro

que não transávamos tanto, transamos 1 número que dá pra contar nos

dedos. Não me lembro de me mexer muito enquanto transávamos, eu ficava inerte

ao homem lindo em cima de mim enquanto você

fazia sexo com

meu nu.

Eu não sabia cavalgar, faltava

fôlego nas

coxas, eu lambia lento seu pau de cheiro

forte. Nosso sexo foi muito delicado quando você chupou meu cu pela primeira vez. Fui pra rua, depois,

sem você.

Nos despedimos. Um beijo, te

ligo

E eu sentindo que carregava um troféu na minha bunda, as bandas molhadas com a sua

baba, a calcinha

deslizando a cada passo, o jeans um jazz. Eu Caminhava

Como águia, as pessoas me olhando de cara tentando entender de onde vinha tanta pose, afinal.

Vinha do cu,

da sua língua no meu

cu, tem sexo que liberta

Das outras crises da vida prática. Me dei melhor com meus pais depois das suas lambidas, você cuspia no dedo e molhava

Minha calcinha com a mão

inteira. Desmaiei constantemente nos seus braços, não há dívida nenhuma entre nós. Você me mostrou o quanto

amar é aéreo, só não queria voltar no tempo pra sentir as

Dores que eu sentia, ontem

chorei de novo depois de termos nos falado por telefone

rapidamente pós tantos anos de fim de amor.

Não foi saudade. Tenho pouca saudade de você porque cê mora

em mim, te

visito. Chorei

de lembrar da cor

da dor. Te amar era cair no piso molhado do box do banheiro todo santo dia em cima da mesma perna que estava cada vez mais machucada, um

acúmulo com a culpa sendo minha por não saber aonde eu colocava o que eu sentia

por você.

Era difícil até pra respirar no tempo que meu amor era seu, as canções do rádio

eram jeitos de orar pra você.

Passou,

teu amor tinha o peso de uma pedra

teimosa. Tento ser mais eu, agora, usar menos o seu vocabulário. Os enamorados tem mania de dizer do mesmo jeito as coisas, a dor

Nasce daí e eu ainda uso

no fim das mensagens

teu hábito de escrever

beijobeijo.

interpretações e outras coisas pequenas

avistei da minha janela 2 namorados dando corda pro
sexo, vi
1 cachorro profundo
acordado sozinho no quinto
andar.
Vi uma moça que se esqueceu na sala,
de tv ligada
até amanhã, vi um tapete embolado
no corredor do quarto
andar, eu vi
uma janela fechada e imaginei 1 casa com criança indo pra aula amanhã e vi
outra pessoa
também com Insônia além de
mim
olhando
pela janela
como remédio do jeito que eu
pensava as soluções noturnas também, pensava:
de tanto ver pego no sono,
mas
as coisas que a outra pessoa com insônia via
eram tão completamente diferentes
das minhas que
não parecia estarmos olhando pra mesma
cidade.
Sorri pra ela, é pena que de longe

o sorriso não se vê.
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