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fico preocupada com o meu hálito porque sei

que não valho

nada.

Chupo balas, mas as balas

são de borracha. Escovo os dentes mas meus dentes

são antigos. Tá tudo podre na árvore

da minha

família. Bandidinhos meus tataravôs.

Não há heróis, ninguém propagou meu sobrenome

Com bravura, não seria eu

A mais tola de todas

A mais preocupada de todas,

A menos sincera,

A que tentou ser atriz,

que vai conseguir.

Eu vi um ator, quarta feira. Ele cantou um texto que estava dentro

da cabeça dele como um arquivo.

Ele falou o texto

mas o corpo dele já não era mais dele, era A personagem. Eu vi

a puta

Nos olhos

Do ator. Vi ela na esquina e estávamos numa sala

De aula. Era alta madrugada dentro dela. Vi os homens pra quem ela deu, e os homens pra quem ela não deu, mas

Comeram-na mesmo assim. E o ator

Vestia moletom e calça jeans sentado na cadeira. Mas a puta do ator estava de shortinho rasgado cor de laranja e top, em pé desde às 5 da matina. Tinha barriga alta. O ator, Magríssimo. Aquilo Não era contraste nem loucura nem artista, aquilo

era Ser.

Eu vi tudo,

contei pro ator depois da sua interpretação.

Ele ficou sério,

escutando. Não me disse obrigado, o rapaz

era um gênio. Salvou a árvore da família dele porque é brilhante e nem sequer escolheu assim. Não sei seu sobrenome, poderia ser

Camargo. Sorte dos Camargos, que agora

têm

Brio.

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