Na volta pra casa

o ônibus não freou na lombada, era
uma descida.
Saltei do banco, fiquei com a bunda longe do assento e na volta
bati o joelho
no encosto,
tudo isso durou por oito
longos
segundos.
Eu estava longe de casa, como sempre
estive.
Tinha acabado de te conhecer e
tinha acabo de sofrer provocações da sua parte, fora a carona até o ponto, mal
te conheço e você já soube me dizer o que queria: mais que a
pancada
foi
te ver.
Cê pegou no meu anel, justamente
o mais esquisito deles, aquele
que parece um serrote, foi nele
Que você pegou enquanto eu falava sobre a falta d`água em são Paulo e gesticulava com as mãos pra dizer mais do que sinto. No fundo
eu sabia que você pegaria nele,
tinha imaginado teu tipo antes de sair de casa, tudo que coloquei no corpo
Foi uma tentativa de você parar em mim.
Que ele me olhe com no mínimo curiosidade, pensei,
mas
acontece que não sei direito como você me viu.
Outra coisa pior do que
pancada
é a
Dúvida.
Quando cheguei no bar que combinamos não achei o lugar grande coisa.
Depois eu soube
que ali à noite
bebem os artistas e bebem os escritores.
Bebem até
os vagabundos, os amigos dos vagabundos, as esposas. A rua aqui fica lotada, você me disse
com olhos de quem
frequenta.
Me interessei,
sempre me interesso, tem algo dentro de mim
Que me chama pra bagunça cósmica de gente que produz arte e
Gente que acredita que produz arte. Todas essas pessoas são extremamente interessantes, virei meu copo de
cerveja
tentando
pertencer. Foi difícil. Até
ganhei do dono
uma garrafa de serra
malte. Estava gelada,
todo mundo riu.
Essas pessoas que trabalham no Bar são
boas pessoas, afinal, mas
escuta
Elas nunca
Serão melhores que você.

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Sexo

uma mulher sofrida e a pé tomou uma buzinada de um caminhão,

Biiiiiiiiii
Biiiiii, e suas dores lá,
Todas expostas na presilha do cabelo, na barriga, no
jeito de
pisar o sapato: o motorista do caminhão
não viu.
A mulher sofrida estava pesada, eu sinceramente acho que
por hoje
ela ainda não tinha tomado banho, sabe deus se
tomaria,
já eram 6 da tarde, ela saiu pra trabalhar
com o corpo dormido, o caminhão deu
mais uma buzinada
Biiiiiiiiiiiiiiiii
Biiiiiiiiii, e ela com a calcinha de ontem, o mesmo
carefree, o mesmo
jeans, a blusa não e o desodorante na bolsa, o salário
no bolso, 850 mangos já com hora extra: o motorista do caminhão abriu a janela.
Ele queria
ser visto, estava
vivo, gritou
qualquer coisa como um Nossa prolongado
E a mulher sofrida não levantou Sequer a
cabeça.
Todo mundo no ponto de ônibus olhou
pra ela.

Ela

passou pela calçada sem olhar pra
ninguém.

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Fim

Por mensagem você me manda um curto:

Posso te ligar?

Me adiantei.
Te liguei antes, prefiro. Sabia que a notícia que viria não
seria boa,
intuitivamente eu já sabia, desde Semana Passada.
Desde que
te conheci. Os tempos
nunca são tempos, são
Términos, não vamos brincar que sim. Ainda que voltemos, não voltaremos nunca mais,
Talvez só de um jeito tão absolutamente novo que será estranho e curto te ver no Futuro, será
Esmagador.
Gostaria de poder congelar a vida, não consigo nem gelar
meu próprio copo. Evito
vinho tinto
nesse calor maldito e evito lembrar da gente
Em fotografia pra não sofrer.
As felicidades
passam
E voltam, eu mesma faço assim nas ruas quando ando,
Passo e
volto e
nunca sou a mesma que pisou ali. Posso fazer esse exercício a vida inteira: não entenderei.
Os dias
Rodam,
Mudam, fico
muda, devastada, mesmo sabendo que reviravoltas existem. Minha mãe me contou disso quando eu tinha cinco. Deu minha boneca preferida, ela era um palhaço. Chorei tanto, achei que perderia
1 olho, minha mãe me disse:
– Bonecas não são pessoas.
E me ensinou o que é morrer.
Tentei te arrastar comigo, você não quis, não
conhece a palavra amarra.
Te Perguntei, um dia,
Enquanto fumávamos no seu terraço:

– Tem coragem de largar tudo?

Você Disse que
sim. Você
sempre teve.

E eu,

A corda.

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o Estrago

A priori somos apaixonados pela vida. Isso

até uns 7.

Depois, encontramos Pessoas

pra nos dizerem o quanto

não somos o que deveríamos ser e

então

começa o sofrimento pelo o que se é.

O que se é

nunca é bom

o bastante,

não importa o quanto se Tente. E na estrada das tentativas, vamos parando

de pular tanto

enquanto andamos a caminho da padaria.

Vamos encarando as ruas

com olhos de medo, por conta do tio que morreu atropelado e que você nunca mais viu,

Morrer é isto – cê descobre cedo, mas

entende deus ainda menos

especialmente naquelas missas.

Vamos, com o passar dos anos, tirando as mãos das coisas, em memória da primeira mordia que levamos de um dog.

Os desenhos em nuvens vão ficando menos possíveis depois do primeiro tapa

que levamos da mãe. E vamos ficando um pouco mais céticos,

depois de descobrir a nota baixa que tiramos na prova de geografia, apesar do estudo.

Prova.

Provas

e então

de repente

você

não pode mais

ir naquele aniversário que cê tanto queria.

O primeiro grito da amiga,

o lanche que vazou na

lancheira, hastear a bandeira toda segunda, o primeiro

amor não correspondido e pior,

Ignorado,

os insetos assustam, dores de barriga também,

o primeiro xixi na cama, a primeira

queda em público, a rua inteira

rindo da sua cara, o

mundo todo

rindo do seu tombo e lá se foram quase 11 anos:

está na hora de escolher a faculdade. O

marido. Uma

casa

e tudo isso

Estraga

gradativamente

a vida de um ser

Humano: Aos 50,

o pó.

A Dança

pensei que era um abraço o que faríamos
ao
nos despedir: não foi.
Acabamos num aperto de mão frio, sem encaixe,
num encostar de peles que não sabem bem porque estão assim tão perto.
Nossos dedos ficaram perdidos, dedos que se fossem de Escolher
prefeririam não se encostar mas
se Encostam.
No gelo, ouvi de você um gasto:

– Obrigado por tudo.

mas,
indiscutivelmente,
eu não fiz nada pra merecer esse tudo.
As convenções sociais são tão surdas, tão carentes de
Malemolência.
Me interessam mais os definhamentos, as hemorroidas, o dia da morte da gente, a foto do visto
que tirei pro passaporte, eu
estava faminta no dia e como chovia perto do lugar em que deixei meu carro.
Não parei no estacionamento. Nunca paro. Deixo na rua, que vaga particular é preço de 20 mangos. O dólar
Tá muito alto, por isso a embaixada americana
e(r)ra tão vazia, eu
queria ter falado sobre isso com você. Discutido mais teu gênio. E queria ter te dado um abraço na nossa despedida de garagem. Não funcionou porque abraços não dependem só de 1.
Ficou ao invés um buraco,
depois das tantas semanas convivendo juntos, bebendo, comendo, sentando no mesmo sofá,
diariamente o mesmo sofá, a mesma torneira, o mesmo canal de tv, mas
a Intimidade
nunca
esteve nessas coisas. Ela costuma se demorar um pouco mais na casa da Entrega.