ALÉM DA GRANA TEM UMAS COISAS QUE A GENTE PRECISA MAIS QUE FOME

Deixei passar três ônibus. Precisava
urgentemente
Conversar. Contar meus feitos é
Acreditar que eles de verdade aconteceram, quando
Não conto, e quase sempre não conto,
Penso que Invento o fato como
Invento tantas coisas pra
não morrer.
Contei ao meu amigo da noite de Londres, foi
Amor. Contei do
Convite que o cara me fez pra morarmos juntos, com minhas despesas pagas por
meses,
Bingo. Tô tão dura, não quero trabalhar em restaurante, senti esperança com o convite dele, sinto
vontade de mudar quase todos os dias, mas
me falta a coragem, que
Foda é agir, sou
frágil pro me que sai da rotina, eu disse isso ao meu amigo, acendendo um cigarro de menta
Que comprei por 4 trocados na banca
Da rua de
baixo. Foi quando uma moça abordou a gente, ela
Usava um shorts menor do que ela, uma camiseta preta escrita com coisas que não tive vontade de ler. Carregava também umas sacolas, era jovem pacas, talvez
Mais jovem do que eu. Pediu pra gente uma grana. Eu disse:
-Cara, tô na merda.

Ela me olhou,

com aquela coragem que me falta diariamente. Disse:
-Desculpa moça, mas não fala uma coisa dessas que é pecado. Cê não tá na merda porra nenhuma. Cê não foi despejada na semana passada. Eu fui, eles me jogaram no meio da rua. Cê não abre lixo pra pegar comida. Cê não tá fodida do jeito que eu tô.
Expliquei pra ela que eu era artista. Que não ganhava um puto pelos poemas escritos,
Mas
Minutos antes, eu tinha gastado 50 mangos numa janta com o meu amigo. Ela me disse:
-Eu escrevo também. Escrevi um livro da minha vida.
É um pouco o que eu faço,
pensei. Onde será que ela encontrou uma Caneta?
Sugeri a
ela que andasse com o livro debaixo do braço. Que pedir dinheiro por nada, isso as pessoas não gostam. Mostrar
o Feito
é sempre mais eloquente, todo mundo
quer ver o
Mundo.
Passou o quarto ônibus, esse
eu peguei, estava tarde. Mas fiz ela jurar andar com o livro na sacola a partir de hoje. Ela disse:
-Prometo.
Apertamos as mãos pra dizer o Tchau. Entrei no ônibus, meu amigo desceu pro metrô. Ela continuou no ponto, pedindo trocado, o livro era coisa pra acontecer só amanhã
de manhã. A mudança
Nunca é
automática, mesmo depois de concordarmos sobre o quanto ela é importante. E indispensável. E Imperativa.
Talvez a moça tivesse sorte de encontrar no caminho alguém que pudesse
Ajuda-la, não pude.
Naquele dia, quem precisava de ajuda era eu.

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