Num restaurante beira de estrada foi quando descobri o que é ser atriz

O ônibus parou.
Entrou nele um homem até que
bem vestido e pedindo
dinheiro pra comprar passagem, não sem antes
contar uma história que
pouco Entendi porque eu estava no fundo do ônibus
e também porque
eu estava de
fone.
O sujeito
era um tipo profundo, lembrava muito os velhos homens de circo: tirei o fone do ouvido.
Ele falava com tremenda pena de si também nas sobrancelhas,
nos disse que precisava urgente da grana,
deu pra sacar que ele
tava na merda.
Vivia o fim dos seus anos 60 e tinha um problema esquisito nos olhos, que ficavam
Molhados com muita facilidade, mas
não era choro.
Não consegui encará-lo, várias pessoas
Sim. Elas o ajudaram, inclusive, com cinco e dois reais.
Se
a grana era prum porre ou mesmo pra passagem, isso
pouco importa.
Importa é ficar de consciência limpa, ainda mais nessas épocas de fim de ano, cê pensa ter comprado teu pedaço de terra no céu,
apesar de que deus
está morto, mas eu
ajudei o velho uma ova e Pensei em
Elis
Regina, ao invés. Essa sim, era cantora de lamentos de verdade. E também no que
meu pai me disse, ontem na janta, que eu era
Uma atriz
Sem talento.
– Não deu tempo de tentar mais – eu disse pro meu pai. Tem artista que morre sem ser descoberto, veja Van Gogh- me defendi
como pude mas
acho no fundo
Que ele tá certo.Talento
é mesmo
coisa Rara, quase tão morta quanto deus. Eu deveria ter passado no primeiro teste que fiz para a
Televisão: não passei.
O velho, passou.
Saiu do ônibus agradecido. Deve ter juntado quase o preço da tal passagem e cumprimentou no ombro o último tonto que lhe ofereceu uma nota de 5.

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Férias

achei

Diversos retratos três por

quatro numa caixa

Antiga de

Gaveta:

era dia de faxina.

Tirei do armário o que não me cabe inclusive as mini-fotos,

9 ao todo,

3 da mesma pessoa, 1

de uma amiga que não vejo mais. Tinha também o meu vizinho na época

em que nadávamos juntos

aqui

na piscina do meu apartamento onde moro por 15 anos, quase

16.

Tinha um retrato da minha avó usando um vestido

de tecido

fininho, eu me lembro

daquele pano por conta de um abraço que nos demos, o tecido

tinha cheiro

de varejo.

Guardei também o retrato das minhas três primas, hoje

todas casadas, mas

no tempo da foto

ainda colegiais.

Olhei, não sem nostalgia, para aqueles rostos tão conhecidos de dias que não voltam mais.

Rasguei todos fora,

não preciso de foto pra lembrar que já

Amei.

Acontece que

a da minha avó

eu não consegui jogar, Tentei.

A dela

eu passei cola pritt.

Grudei-a num caderno, ainda novo, vai demorar um pouco pra ele

Acabar.

O retrato dela

eu não joguei, não

Pude, ela morreu em 2006.

Foi um grande ano, esse, eu ainda fazia o Teatro que

não faço mais, sou

ex-atriz.

Sinto

um medo danado de esquecer o rosto

de uma das mulheres

Mais bonitas

Que já vi e o Lixo

cheio,

de

desapegos.

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Golf

deus sem você é deus.tumblr_ncalpo0VHh1tlkm4zo1_500
você
sem deus
é nada, li
a frase
na traseira de um
caminhão.

Fiquei pensando,

eu sou
tanta coisa

enquanto deus
é um sujeito que nunca vi. Superestimado ele,
com certeza, no fundo um omisso. Sem coragem de dar as caras pra falar
abertamente
das merdas que fez.
Quando olho a cidade do carro
sinto vontade de morrer, o rio
acompanha o asfalto, o rio
é Sujo,
feio e, ao redor dele inteiro,
acontecem diversas obras, o governo
quer construir um Futuro além dos sofás sem dono na estrada, dá pena,
a pessoa pensa,
não quero mais esse troço, então
ela joga
o troço
na Rua que a Cidade
é grande, ela sempre
aguenta.
Ultrapassei o caminhão, queria conhecer o Motorista com tanta certeza das coisas que não existem.
Olhei o sujeito,
ele tinha bigode e na boca
uma goma
de mascar.
A cidade está lotada, fora as pessoas que não estão ali, estão em casa, nos shoppings, nas lojinhas. Do carro,
vi um cara no celular rindo pra tela, vi uma família atravessando na faixa, fazendo o certo, eu vi sacolas,
faróis vermelhos e constantes, a
Velocidade reduzida, as multas, a mãe sem paciência e sem sorriso,
O trabalho de
Merda até às 18, um mar de gravatas mal pagas eu vi
do carro a gente toda e
Deus é deus,
Você
é nada. O dose
é que sinto que sou tanta coisa, como posso caber no
Nada? Se me amo num homem que quero
Conhecer mas
não conheço, se compro discos, se acendo luzes, fecho armários, leio livros, penso em mim, como posso
simplesmente
não Ser?
Deus
é um Esporte pra poucos.

Mudo

Quer que eu te dê um tapa na cara pra você acordar?

Não respondi.

Fiquei Debruçado sobre os meus pensamentos, sentindo a vida

Pesada nas minhas

costas. Não falo com as pessoas as coisas que devia falar pra me sentir melhor, ao invés,

prefiro esconder, fechar dentro de mim mas não sou

Coisa

Pra que se apertem e me façam

Caber, sou pessoa e nunca cabe

Tudo, vai chegar a hora em que mato alguém. Pode ser eu. Pode ser ela. Pode ser meu estilo de vida, mas só essas cervejas que tomo e que guardo na minha geladeira não vão mais me bastar.

Sou um mistério inclusive pra mim, não me lembro das coisas que gosto, que me fazem feliz, passo a vida sendo obrigado e, ao mesmo tempo, ninguém pode obrigar ninguém a nada, então

Talvez

Essa seja minha escolha, a de

Não Ser. E de tanto não contar

Não consigo mais

Dizer, mesmo que eu queira muito,

como quis há pouco enquanto

te ouvia, puta, me dizer verdades que não são minhas.

Agora sou silêncio mas

não um silêncio bom, de quem aprendeu. Meu silêncio é o mais triste de todos, é o silêncio

de quem

Desistiu.

ALÉM DA GRANA TEM UMAS COISAS QUE A GENTE PRECISA MAIS QUE FOME

Deixei passar três ônibus. Precisava
urgentemente
Conversar. Contar meus feitos é
Acreditar que eles de verdade aconteceram, quando
Não conto, e quase sempre não conto,
Penso que Invento o fato como
Invento tantas coisas pra
não morrer.
Contei ao meu amigo da noite de Londres, foi
Amor. Contei do
Convite que o cara me fez pra morarmos juntos, com minhas despesas pagas por
meses,
Bingo. Tô tão dura, não quero trabalhar em restaurante, senti esperança com o convite dele, sinto
vontade de mudar quase todos os dias, mas
me falta a coragem, que
Foda é agir, sou
frágil pro me que sai da rotina, eu disse isso ao meu amigo, acendendo um cigarro de menta
Que comprei por 4 trocados na banca
Da rua de
baixo. Foi quando uma moça abordou a gente, ela
Usava um shorts menor do que ela, uma camiseta preta escrita com coisas que não tive vontade de ler. Carregava também umas sacolas, era jovem pacas, talvez
Mais jovem do que eu. Pediu pra gente uma grana. Eu disse:
-Cara, tô na merda.

Ela me olhou,

com aquela coragem que me falta diariamente. Disse:
-Desculpa moça, mas não fala uma coisa dessas que é pecado. Cê não tá na merda porra nenhuma. Cê não foi despejada na semana passada. Eu fui, eles me jogaram no meio da rua. Cê não abre lixo pra pegar comida. Cê não tá fodida do jeito que eu tô.
Expliquei pra ela que eu era artista. Que não ganhava um puto pelos poemas escritos,
Mas
Minutos antes, eu tinha gastado 50 mangos numa janta com o meu amigo. Ela me disse:
-Eu escrevo também. Escrevi um livro da minha vida.
É um pouco o que eu faço,
pensei. Onde será que ela encontrou uma Caneta?
Sugeri a
ela que andasse com o livro debaixo do braço. Que pedir dinheiro por nada, isso as pessoas não gostam. Mostrar
o Feito
é sempre mais eloquente, todo mundo
quer ver o
Mundo.
Passou o quarto ônibus, esse
eu peguei, estava tarde. Mas fiz ela jurar andar com o livro na sacola a partir de hoje. Ela disse:
-Prometo.
Apertamos as mãos pra dizer o Tchau. Entrei no ônibus, meu amigo desceu pro metrô. Ela continuou no ponto, pedindo trocado, o livro era coisa pra acontecer só amanhã
de manhã. A mudança
Nunca é
automática, mesmo depois de concordarmos sobre o quanto ela é importante. E indispensável. E Imperativa.
Talvez a moça tivesse sorte de encontrar no caminho alguém que pudesse
Ajuda-la, não pude.
Naquele dia, quem precisava de ajuda era eu.

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