Todo Mundo Brinca no Domingo

quando ele me pegou de jeito eu tinha sete anos.
Não Sabia escrever a palavra Solidariedade, mas
sabia
que iria
Apanhar.
Não era a primeira vez. Semana passada eu tinha derrubado iogurte na cama: levei um tapa. Nunca antes eu tinha apanhado, não
sabia o que sentir. Ardia um pouco, mas, ao mesmo tempo, dava vontade de rir. Por isso, meu avô me chamou de:

– Debochada.

e me bateu de novo, do outro lado do rosto.
Não chorei. Deitei na cama com cheiro de leite e
fiquei pensando que
bater
era um jeito frágil de dizer que não está Tudo Bem.

No domingo que meu avô me pegou de novo, eu
tinha desligado a sua
televisão.
Era o programa do Silvio Santos, ele não perdia um e
aquelas risadas que vinham do auditório me davam vontade de Chorar.

Desliguei a tv.

Meu avô me olhou como um demônio. Me pegou pelo braço, eu tinha sete anos. Me colocou de bruços no seu colo, abaixou a minha calça, abaixou a minha calcinha e lascou de mão pesada infinitos tapas
No meu
Bumbum.

Pá.
Eu não sabia se olhava pra ele ou olhava
Pra frente. Preferi fechar os olhos. Ardia mais do que no rosto, esses tapas de agora, Queimavam, mas
eu me sentia imune de um jeito
oco.
Parece que o Corpo
sabe, antes da gente ele sabe, e se defende mudando de
Lugar. Apanhei, mas eu não estava lá. Estava num parque, brincando com o meu cachorro e a gente cantava junto o hino do Brasil.

Ainda assim,me lembro daquele domingo
como se fosse

Hoje.

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