Escapismos Primeira Edição

Tenho uma longa mania de roer as unhas, faz

tanto tempo, desde

Menina.

Fico tentando lembrar do dia que começou, o

primeiro dia de unha na boca.

Acho que foi em 94.

Estava subindo a rampa do prédio de educação física, eu estudava num colégio grande e pra se locomover entre as aulas, tu era obrigado a andar um bocado. Quando se tinha 6 anos, a professora de classe ia contigo. Depois dos 9,

tu ia sozinho e isso era

Legal.

Nos sentíamos adultos,

andando de um lado pro outro só com os amigos, sem pais ou professores,

só a gente, cuidando dos nossos

próprios rabos, nada de:

amarra o tênis!

toma o lache!

cuidado a pedra!

Ser criança é muito difícil. Especialmente quando

cê carrega no peito o

desejo de ser

Livre. Eu sempre gostei de fazer o que tenho vontade. Não lido bem com ordens ou pedidos-imperativos do tipo Preciso que você fique

ou

Pegue isto agora,

desprezo interesses pessoais que não sejam os meus.

Na época do colégio, eu achava uma violência ter que pedir pra ir ao banheiro toda vez que precisasse, mas

que merda, quem sabia do meu xixi era

eu.

E quando eu estava menstruava era ainda pior, uma questão de vida ou morte. Fechava fundo o mods na mão, pedia acanhada a pausa pra professora. Às vezes,

ela não me dava.tumblr_static_8y3q3nacbeo0oc0cskscc440k

Eu dizia baixinho:

– Mas que Canalha!

E

do alto dos meus 11 anos,

aprendi em sala o que era abuso de

poder.

Sem saber como enfrentar as regras eu roía as unhas, sempre as unhas, quando não me deixavam as coisas. Era o meu Escapismo,

o dedo

na boca, meu jeito de aliviar as angústias. Uma chance de reagir pacificamente aos infortúnios, de extravasar sem machucar ninguém além de mim. Porque às vezes eu tiro sangue do dedo, tem horas

que apelo. Mas as situações, elas

apelam mais do que eu. Como quando

eu achava que era bonita. Daí um cara publicou no Facebook as 20 gatas

mais tchucas

das redes

Sociais, segundo algum site machista.

Fui olhar,

um pouco por tesão, um pouco por garantia.

As moças

Eram

Incrivelmente

Maravilhosas. Mesmo. Os dentes, as poses, os peitos, os cabelos impecáveis, na lancha, em Bariloche, em Barcelona. Eram ricas, além de tudo. E frígidas, aparentemente. Umas bonecas.

Perdi a tarde inteira com elas. Esqueci que Tempo é precioso, que a gente um dia morre, por isso

é melhor ser feliz. E depois de t a n t o olhá-las,

fui eu me olhar no espelho. Tentei tirar umas selfies também, nada feito. Pensei:

– Certo. Então, quer dizer que sou feia?

Feia, não: muito feia. Chego a precisar de uma dose de Rum se comparada com essas gatas internáuticas. Fiquei ansiosa. Me cobrando de uma beleza impossível, que jamais terei e

pra que teria?

Pelo menos sou inteligente. Até eu conhecer pessoas

mais inteligentes que eu. A comparação é sempre um jogo de perder mais que tudo.

Naquela tarde, roí minhas unhas até o talo. O esmalte ficou descascado cada um de um jeito, tipo aos 7 quando eu pintava os dedos com aqueles esmaltes de Brinquedo.

Era mesmo

bem difícil ser criança, mas

é assustadoramente pior ser Mulher. As possibilidades de fuga vão ficando menores, mais fracas, menos

Convincentes.

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