Nossa Invenção

tumblr_n5yy08XyUJ1t3p993o1_500ruas
tomadas
pelas pessoas que moram em
casas
cada uma na sua, às vezes
3 ou 4 na mesma e
isso a gente chama de:
Família.
Cachorros, móveis. As horas, sempre tão relativas. Toneladas de
comida por dia e ainda assim,
muita gente passando fome.
Morrendo
por causa da
Fome.
Excesso de carros, excesso de ônibus, daí inventaram o metrô, um trem embaixo da terra. Cavaram a Cidade,
ninguém
perguntou coisa alguma. E ainda assim,
tudo
é nada perante o volume de pessoas que respiram na estação
Barra Funda. Quem fez faculdade e quem nunca
Leu 1 livro, todos juntos esperando o mesmo
trem.
Ou a morte, ninguém
sabe Quando.
A Cidade
sustenta
os muros. Quem chega, quem fica,
menos os
que não voltam, ela
sustenta calada
a palhaçada, os roubos, os desejos. Cada bebê que nasce, de nome
Gustavo.
Janaina.
Pedro.
Cada um com o seu sonho, cada pé
cada pai, os gênios, os banais,
os edifícios. As mudanças no bairro, os lixos. A Cidade aceita tudo, não
retruca, não é a Natureza, não tem forças pra se
revoltar. Só a gente pode fazer isso por Ela. As ideias, as bicicletas, quem concorda e quem não concorda. As leis pro Amor, quem
acredita em deus e quem
não aguenta mais. Até quem se mata, quem escreve, os trabalhos todos, os bancos, os parques
tão poucos e tão menores
que os shoppings
centers. As igrejas de mármore,
as lojas esperando o Natal, o dia dos namorados,
as faixas de pedestres que ninguém para quando está com pressa.
A Cidade é palco de asfalto
pros Eus do mundo.

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Morreu na Mesa

Infelizmente no dia do Engasgo ela
estava sozinha.
Comia Melancia com a mesma
volúpia que chupava uma
rola, a moça
era Puta. De trabalho, porque
nas atitudes,
uma freira. Sempre Coesa, uma pessoa compacta, se soltava pelada apenas e quem poderia culpá-la? Tinha um corpo dos diabos,
cabelo, bunda, tudo. E tinha seus fãs, clientes
que ligavam pra dizer até
– bom dia.
ia
além do sexo, os seus encontros, era quase amor, ela
fazia amigos. E os atendia, no seu telefone azul. Marcava horários impossíveis, 6 horas da matina pruma Transa, não
negava cliente e
não era por dinheiro. Era porque ela sabia o quanto todo mundo estava sozinho.
Dava festas em casa, vez em quando. Reuniões cheias de homens, especialmente. Mulheres algumas, bem menos. E se divertia com pouco, com desenho
animado, uma música bacana, fazer a janta ou
comer melancia, sua fruta
preferida no mundo.
Nesse dia, de TV ligada, ela
cortou melancia na mesa.
E comia em grandes pedaços, sem cuidado, assistindo ao
noticiário da manhã. Sentia-se feliz de um jeito
estranho.
Passava violência no jornal, assaltos, canalhices. Eu poderia dizer que foi por isso que ela engasgou.
Mas a verdade é que
ela se engasgou com a sua fruta preferida no mundo e
morreu
em cima de mesa
por causa de 1 caroço
ou
pro’s mais atentos,
porque estava
muito sozinha.

A morte

pode ser besta também.

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o Balcão

Copos que passam de mão
em mão,
a mesma mão que usou sabonete uma ova quando
saiu
do banheiro pós-mijo.
Luz baixa, em alguns cantos
quase nenhuma.
As dores todas postas
no balcão
do bar
da esquina,
todos iguais e sempre
diferentes
ao seu modo
abandono
de ser.
Encontrar alguém na solidão fica fácil, ninguém ali
tem
coisa a Perder. Saem, de 2 em 2,
1 casal
a cada meia hora
pelas portas
dos fundos, sendo que
a frase final de
todos eles
é sempre:
-Vamos dar o fora daqui?
numa tentativa
infinita
de arranjar Testemunha pra
vida,
a sua vida,
pessoal e terrível.

O ser humano não tá pedindo muito.
Em qualquer lugar do mundo
Toda gente só
quer
Amor.

Escapismos Primeira Edição

Tenho uma longa mania de roer as unhas, faz

tanto tempo, desde

Menina.

Fico tentando lembrar do dia que começou, o

primeiro dia de unha na boca.

Acho que foi em 94.

Estava subindo a rampa do prédio de educação física, eu estudava num colégio grande e pra se locomover entre as aulas, tu era obrigado a andar um bocado. Quando se tinha 6 anos, a professora de classe ia contigo. Depois dos 9,

tu ia sozinho e isso era

Legal.

Nos sentíamos adultos,

andando de um lado pro outro só com os amigos, sem pais ou professores,

só a gente, cuidando dos nossos

próprios rabos, nada de:

amarra o tênis!

toma o lache!

cuidado a pedra!

Ser criança é muito difícil. Especialmente quando

cê carrega no peito o

desejo de ser

Livre. Eu sempre gostei de fazer o que tenho vontade. Não lido bem com ordens ou pedidos-imperativos do tipo Preciso que você fique

ou

Pegue isto agora,

desprezo interesses pessoais que não sejam os meus.

Na época do colégio, eu achava uma violência ter que pedir pra ir ao banheiro toda vez que precisasse, mas

que merda, quem sabia do meu xixi era

eu.

E quando eu estava menstruava era ainda pior, uma questão de vida ou morte. Fechava fundo o mods na mão, pedia acanhada a pausa pra professora. Às vezes,

ela não me dava.tumblr_static_8y3q3nacbeo0oc0cskscc440k

Eu dizia baixinho:

– Mas que Canalha!

E

do alto dos meus 11 anos,

aprendi em sala o que era abuso de

poder.

Sem saber como enfrentar as regras eu roía as unhas, sempre as unhas, quando não me deixavam as coisas. Era o meu Escapismo,

o dedo

na boca, meu jeito de aliviar as angústias. Uma chance de reagir pacificamente aos infortúnios, de extravasar sem machucar ninguém além de mim. Porque às vezes eu tiro sangue do dedo, tem horas

que apelo. Mas as situações, elas

apelam mais do que eu. Como quando

eu achava que era bonita. Daí um cara publicou no Facebook as 20 gatas

mais tchucas

das redes

Sociais, segundo algum site machista.

Fui olhar,

um pouco por tesão, um pouco por garantia.

As moças

Eram

Incrivelmente

Maravilhosas. Mesmo. Os dentes, as poses, os peitos, os cabelos impecáveis, na lancha, em Bariloche, em Barcelona. Eram ricas, além de tudo. E frígidas, aparentemente. Umas bonecas.

Perdi a tarde inteira com elas. Esqueci que Tempo é precioso, que a gente um dia morre, por isso

é melhor ser feliz. E depois de t a n t o olhá-las,

fui eu me olhar no espelho. Tentei tirar umas selfies também, nada feito. Pensei:

– Certo. Então, quer dizer que sou feia?

Feia, não: muito feia. Chego a precisar de uma dose de Rum se comparada com essas gatas internáuticas. Fiquei ansiosa. Me cobrando de uma beleza impossível, que jamais terei e

pra que teria?

Pelo menos sou inteligente. Até eu conhecer pessoas

mais inteligentes que eu. A comparação é sempre um jogo de perder mais que tudo.

Naquela tarde, roí minhas unhas até o talo. O esmalte ficou descascado cada um de um jeito, tipo aos 7 quando eu pintava os dedos com aqueles esmaltes de Brinquedo.

Era mesmo

bem difícil ser criança, mas

é assustadoramente pior ser Mulher. As possibilidades de fuga vão ficando menores, mais fracas, menos

Convincentes.

A notícia

3 meses

sem
menstruar, eu achei que
tava prenha. É que
eu não sou de atrasar, entende, meu chico é
normativo. Essa demora só podia ser barriga, daí que

eu senti uma vontade danada de

chorar.
Gosto de criança, não
me levem a mal. Nem
nova
eu sou mais, 27
já tá
tudo bem pra ser mãe e o cacete. Falta dinheiro, claro, mas
dinheiro

sempre
falta. O problema
mesmo
é que eu não sabia quem era o
Pai.
Tenho dado pra meio mundo desde que meu homem me deixou. Tô sozinha, tô na merda, nesse apê sujeira que aluguei no centro, pelo menos é perto dos Teatros, mas
prenha, quem é que vai querer uma atriz? Inchada, produzindo criança
na barriga?
Eu precisava beber. Estava
muito triste. Sai pelas ruas, acendi um cigarro.
Achei todo mundo feio, opaco, desinteressante como a
Cidade. Com que coragem eu poderia colocar um filho
no mundo, nesse
mundo
que não vale
o pó?
Seria um latrocínio, ainda mais
sem pai, o muleque uma hora
ou outra, ia me cobrar, eu
pensei em aborto até que vi
um homem encostado no muro.
22 anos no máximo, barba grossa, cabeludo.
A gente se olhou de parar o tempo, ele deve ter me achado
Bonita. Fui na dele, dançamos, no bar ao lado tocava um disco de merengue. Ele colocou as cochas no meio
Das minhas. Nos beijamos, foi bom, nos
enroscamos, foi ótimo, ele
me levou pro seu apê. O lugar era imundo, era
pequeno a gente tirou
a roupa. Ele meteu.
Meteu
Meteu.
Tava escuro pra caralho, mas
deu pra ver
O Sangue
no pau
do sujeito, sangue-notícia.

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o aviso

disse ontem, pro’s rapazes da rua:tumblr_mxh5i9bWxP1qdr8w8o2_500

– Olha,
cês viram a Lua?, ela
tá Linda.

Eu estava de longe,
percebi que eles
não me ouviram.
Acharam que eu estava dizendo de Oi e me acenaram com ares contentes, eu disse:

– Não, a Lua! Olha como a Lua está linda. Baixa. Inteira.

tumblr_mxh5i9bWxP1qdr8w8o3_500Eles olharam pro céu.

Durou 5 segundos, o levantar de pescoços, mas
foram os meus
melhores cinco segundos do
Dia. Antes que eles pudessem me dizer de opiniões, eu
entrei no Fusca e
acelerei pra
casa.

queria
mesmo
que eles Olhassem. Não queria palavras, descrições, adjetivos. Queria só que nunca maistumblr_mxh5i9bWxP1qdr8w8o1_500
ninguém ficasse Distraído
toda vez que uma Lua como
aquela
brotasse
no céu das
Noites,
sempre tão ocupadas
com Nada
que seja Imortal.

Farol

– tchau.

– tchau.

Mas eles não iam.
Quer dizer,
1 deles tinha que ir mais que o outro, dava pra perceber pelo corpo puxado pro lado da rua e
não pra calçada. Era
A Moça que tinha compromisso.
O Moço
ficava agarrando ela pelo braço e
ela deixava,
de leve, um pouco preocupada com o horário, um pouco sentada no tesão.
Pela Janela do ônibus, conheci os 2 no tempo de um farol.
Eram novos no amor, se nota, já eu não tinha mais aquele vigor.
Eles me fizeram sentir saudades de Começos.
Ela
ruiva. Ele
negro. Ela magra. Ele
gordo. Ele de mochila. Ela
de mochila. Eles na cidade, vivendo ao mesmo tempo uma história que
poderia acabar em breve,
Provavelmente acabaria, não sei. O tempo do farol foi curto. Do amor, quando se tem sorte,
também.
Um beijo parece que
dura mais que o amor inteiro e ainda
assim
passa. Como os carros, como os ônibus,
Como eles,
quando disseram
o tchau
enfim.
Partiram. Ela virou a direita. Ele seguiu em frente.
Eu
disse:

 

– Adeus.

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Acontece que está todo mundo com medo

numa Festa,
Importa mais se tem Tomada do que gente
ou
pelo menos
Bebida,
tudo fuga
do mundo de uma
figa.

Eu vejo pessoas sentadas
lado
a
lado
sem se ver, isso
já vem da escola, 1998,
eu
vejo
pessoas olhando telas mais que rostos,
lendo mensagens mais
que lábios,
eu vejo
Ninguém
e todo mundo, eu vejo a mim,
entregue a uma força
mais forte
chamada Tendência e
de tão Severa que fico
com o sofá lotado de quem
não
está

também eu

desisto da vida

e foco
meu olho

no celular.

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