Imã

pintas
que pintam sem
pressa o
rosto folha-em-branco.
São pequenas, não-pretas, marrons
clarinhas elas
pintam 100 formatos a
Formosura, dão à pele
ares de quem sabe
sem saber que
sabe, ares
de
aero
moça.
Quando eu era menina,
achava que só tinha sarda quem comia
muito chocolate e
de tanto,
não cabia tudo na barriga,
ia
pro rosto
da Gente.

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Primata

Me chamaram dizendo meu nome. Nada de moça, flor, querida ou doçura, falaram:

– Aline.

Olhei

na direção do som que

representa minha

figura. O sujeito então me disse:

– A vida é fácil.

Eu sorri um sorriso pequeno. Achei bonito o que ele disse, mas

pra mim,

a vida era difícil a beça.

Disse:

– Tchau, Fulano. Até Segunda.

Sem saber se segunda eu ainda estaria viva pra vê-lo de novo e vice e versa, quanto otimismo.

Segui pela rua e repeti meu nome baixinho enquanto caminhava sem pressa em direção ao meu carro.

Aline. Aline Aline. Aline.

Estava tentando entender. Nunca gostei de me chamar como chamo mas, naquela noite,

sim. Um pouco.

Soou francês e verdade, quando eu fui à Paris pela primeira vez conheci um homem.

Ele era dono de restaurante e queria me comer. Perguntou meu nome só depois de meia hora de conversa. Eu falo francês, não muito. Disse:

-Aline.

Aí ele me contou que tinha uma música, um clássico na França, que se chamava meu nome. A Ouvi assim que cheguei no hotel, era

muito

Bonita.

Aquele dia em Paris foi um dos poucos da minha vida em que eu gostei de me chamar como chamo. Engraçado que nome

é nome, não importa a língua que cê fale. Pode mudar um pouco o acento claro, mas continua soando como algo

incrivelmente

familiar.

E esse gostar do meu

Nome

aconteceu de novo hoje, com esse sujeito me chamando de

Aline. Acho que foi pelo tom que ele deu. Aline. Percebi que jamais existiu um nome melhor pra mim.

Curto, como o meu corpo. Suave

como meu rosto. De som difícil, travado, Aline, como é meu jeito de entender a vida.

Aceitei-me como deus nos pede em seus

manda-mentos.

Não sei se ele

Fala pra gente se aceitar ou

se amar, no fim

é tudo a mesma merda.

Acendi um cigarro no carro antes de ligar o motor. O estacionamento vazio,

todo mundo já tinha ido embora, mas não todo mundo do Mundo. Todo mundo do mundo que antes estava ali, umas 100 pessoas. Fumei de janela aberta, olhando a Lua. Depois liguei o

carro. Acelerei pouco na volta pra

casa.

Tomei banho, estava com cheiro de festa. Comi fruta na janta, dizem

que não pode, que deveríamos comer mais carne. Dizem tanta coisa. Até na bíblia dizem, até nos realities shows. Deitei na cama e acariciei meus lábios com o cabelo. Todo Mundo devia fazer isso pelo menos uma vez na vida e sobre esse todo mundo

é todo Mundo mesmo. Pegue um tufo, abra um pouco os lábios. Passe os fios nos beiços. Isso foi me dando sono. E foi me dando também muita vontade de

beijar. Desses beijos

profundos, salivados, que são mais sensuais que muita metida de quinta por aí. Nessas horas depois da janta e

da novela,

não tem ninguém pra chamar meu nome.

Que sozinha, cadê todo mundo e esse

todo mundo era só você, o sujeito que amei por 12 anos

mas

acabou.

Tentei ler um livro, não deu. Livro não é pessoa. Queria dormir com gente, alguém que tivesse coragem de lamber meu cu sem nunca me perguntar

se eu tomei banho

ou não.

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o Saldo

dos todos que

morreram por crenças

acredito

apenas

nos Romeus e

Julietas.

Das guerras

o que sobra

é a sombra

do que

não-volta.

Não

volta

não. Queria saber do preço

de se morrer de

graça,

quanto custa? Mais que deus, suponho.

Mas que

deus?

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o Meticuloso Sr. Profissional

Num lobby de Cinema,

numa mesa compartilhada de

madeira

com mais – no mínimo – 5

desconhecidos

ao redor de

mim, eu

desisto

do livro que

lia.

Me desejei

olhando

as pessoas e o fiz. Observar é jeito outro de ler, inclusive mais forte.

Neguei também a música no fone, o pedir um cafezinho, as mensagens no celular, nenhum desses escapismos urbanos, tão

Poderosos e Isoladores,

não.

Decidi observar apenas, nua das ações-de-disfarce. Por alguns minutos não

encontrei alvo algum até que meus olhos

sozinhos

se amarraram nos movimentos de um velho nascido

por perto

dos anos 40.

Magro, Camisa Listrada, sapato Vulcabrás. Bic no bolso, em 20 anos

meu sogro

seria assim.

O problema é que os olhos do velho também se amarraram

Nos meus.

Aí não deu, ele

ganhou.

Sua observação era muito mais apurada do que a minha. Anos de estrada, naquela camisa usada

quantas? 300, 377 vezes? O velho tinha história e gostava de gente. E gostava de mulher. E me dissecava inteira na sua mesa de observações fatais. Já sabia minha idade, meu signo, minhas cores preferidas, se eu acreditava no amor, meu jeito de falar no telefone, meu medo de ser esquecida, meu ódio por cebola, ele sabia de tudo e eu ainda presa

na vestimenta

do velho,

num amadorismo estéril, vergonhoso, especialmente aos que se auto-intitulam

Poeta.

Fiquei sem jeito. Fiquei

bastante sem jeito, um pouco vermelha. E o velho me engolindo, fixo no meu ritmo. Não perdoou nem as cutículas. Nem as células. Me senti tão pelada e sozinha que até

Peidei um gás

de nervoso:

são

os piores, esses.

Ficou um cheiro denso no ar. Terrível. Fiquei ainda mais sem jeito, não queria que ninguém se aproximasse de mim pra não perceber o

peido.

Lembrei do meu caderno na bolsa, comecei a fingir que anotava pensamentos como se estivesse muito concentrada, pra que ninguém sentisse coragem de

me perturbar. Escrever algo importante,

isso as pessoas respeitam. Fiz cara de responsável, a melhor que pude. Acho que deu certo, ninguém se aproximou. Até o velho

perdeu o interesse em mim. Acho que ele percebeu que eu mentia muito. Mudou de lado, começou a observar o segurança

do cinema. Fiquei entre ofendida e

aliviada.

Daí anotei sobre ele no caderno pra depois escrever um conto. Errei palavras, Semi-descobri que quase não sei mais

escrever à mão. Minha letra estava horrível, sofri

de ortografia e

preguiça. Estamos ficando analfabetos, computador é muleta

pra nós que usamos as Letras e uma moça,

linda, à minha esquerda estava desenhando um Castelo.

Ela tinha sardas e tinha

talento.

Olhei pro seu desenho nos detalhes. Que Castelo nítido, eu moraria ali. Gostei especialmente do jeito que ela desenhou as janelas. E o jardim. E a falta de cortinas. Ela percebeu que eu a notei e me deu um

meio

Sorriso tímido. Acho que nessa observação

quem ganhou

fui eu. Placar final: 1 a 1. Parei de olhar pra não constrange-la. Queria que ela desenhasse pra sempre e não que fosse eu

o motivo de sua parada.

Mas acho que

parei tarde demais porque ela fechou o caderno. E saiu da mesa, sem sequer olhar pra trás.

Eu a incomodei, de fato,

sua saída foi como o meu peido.

Ao medo, reagimos com o corpo. É uma bela verdade, essa. E tantas outras que tive em diversos poemas que escrevi.

Apesar disso

Sou

tristemente

Anônima. Tão anônima que posso escrever no meu caderno as maiores atrocidades sem

Ninguém

Me notar.

Talvez só o velho da Bic no bolso. O meticuloso Sr. Profissional, mas ele

não vale.

Esse

era gênio.

 

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Vizinhos

o peso de um pássaro morto é maior do que seu vôo (e uma das coisas mais tristes de se ver)

quando acorda, a moça-mania-da-rua é mais feia que a velha da feira. Ela Perde
por semana
quase 12 horas no espelho.

O calmo rapaz da farmácia
nunca dorme sem
antes
bater punheta. Ele gosta
de revistas
de sacanagem
gay.

A mãe protetora do térreo
faz
2 anos que ela não transa. Trocou
tédio
por
livros e o filho
só liga
quando precisa de
dinheiro.

A faxineira que ganha salário
nunca
mudou
os lençóis. Ela coloca os limpos na máquina,
deixa o sujo
na cama. A dona da casa chega tão tarde que nem
percebe.

Um garoto de seis anos chamado Pedro tenta muito ser amigo de seu pai. Quase nunca consegue, só um dia
em que seu pai estava dormindo e o
Pedro
lhe deu
1 abraço.

Tem uma moça de 20 e poucos que ganhou
dos pais
1 carro. Ela mora no oitavo andar e continua pegando ônibus
todos
os dias,
6 e meia
da manhã.

Um velho de 70 anos morreu em seu apartamento. Não tinha amigos mas ia à missa. Demorou 6 dias pra que alguém
notasse
a sua
ausência: não foi o padre.
A Janela sabe.
Ela é

Deus.

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Li(cor)

Detentor de conhecimento(s), parece. Possuidor
daquela
dor que te deu as
rugas.
Não é de tragarias, Classe
não se traga. Se respira,
depois
Inspira ares de um livro
bom.
Charutos parecem canudos de grandes historias que
depois
viram fumaça
expeça
ao redor de ti.
O cheiro é difícil, como
também é a
vida e
nem por isso
menos bela.
O ato, os
olhos, a posição da cabeça que fica, não há humildade e também
não há
tragédia: o pior dos problemas espera
o fumo
do charuto
sem presa.
 

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