dois jeitos de ver palavra

tumblr_n6k0vyMeoA1ql2g28o4_1280 dançou
ela,
caiu de valsa
morrida.

 

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Elogio

Um Escort a dez por hora numa avenida de movimento: não

eu não acredito em deus. Tem um cara na minha academia, sessenta e poucos anos, se

deus fosse vivo, ele

seria esse cara. Muita ruga, muito charme, magro, olho

danado, boas leituras, bom cheiro, nada nele não me agrada,

deus seria assim.

Mas com essa avenida tão fria, essa falta de velocidade, acabo ficando

Bastante

realista. O vento eu não vejo mas ele existe. Isso não é prova de que deus também existe, porque o vento

eu sinto e

em sentir eu acredito. De deus, escuto muito dizer e se fosse rezar pra pedir as coisas, acho que pediria pra achar um livro perfeito,

que me traga brisa

e me traga um jeito

forte

de pensar

diferente.

Um amigo chamado Marcelo me disse um dia pra eu não acreditar em elogios. Disse só pra eu continuar estudando e

Escrevendo, balancei a cabeça positivamente.

Levei a sua fala como um elogio, talvez o melhor que já recebi, e acreditei nele.

O Escort continuava a 10

por hora, me deixando nula em qualquer possibilidade de ultrapassagem para além da buzina ou do voo.

O Escort

estava no meio da rua

me fazendo ter tempo pra pensar no como eu cheguei até aqui. Por que escrevo? Por que escrever pra mim é natural? Eu podia dançar, ao invés. Ou tocar gaita.

Tem um outro amigo meu, o Mateus, ele me disse que escrever é empurrar letrinhas. Empurrar

Foi uma ótima escolha de

verbo.

Também ele já me disse uma vez que sou bonita, mas me chama mais de gostosa do que

De bonita.

Homem é

grosso, mulher é

carne. Acho péssimo isso em todos os quesitos da vida menos no sexo.

Agora o Mateus, eu gostaria muito que ele me visse pra além das alegorias. Outra dia

ele disse que eu estava muito magra, mas ainda

bem gostosa. Eu não agradeci e

acreditei de novo. Comecei a comer melhor.

O Escort

virou a direita,

ufa.

Agora dirigindo veloz tenho chances de não pensar mais em nada, como se

fosse possível. Se deus fosse vivo, além do livro, eu pediria pro cara um tempo de pausa.

Zero de pensamento, um vácuo sereno

e Profundo,

Descuidado,

Um silêncio de dentro, um shiu pras vozes internas, dá pra pedir

Mais de 1

Coisa

Pra deus? Acho que sim, mas talvez com estratégia. Tem gente que pede em reza felicidade, mas

Convenhamos, a felicidade engloba um infinito de desejos e

possibilidades, que gente

Esperta.

Acreditar deve ter gosto de pirulito.

 

Imorrível

Casa
das letras não é biblioteca, chama

Envelope.
Casa das tuas letras,
escritas pra alguém que realmente importa, pelo bem
ou
pelo mal,
importa, mexe contigo e por isso
precisa de casca, uma proteção não-imbatível mas
imponente
pra encaminhar a polpa das letras
tuas
pro’s olhos de quem
as pertence.
Um jeito de levar, o envelope, um jeito de cuidar das palavras que não passaram pelo estado de som, migraram do teu coração
direito
pro coração do outro.
Tão frágil
se perder essas letras, mas
quando chega, se chegar,
serão Eternas porque
depois de
lidas
as palavras escritas
não morrem nunca mais.

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EsMalte

assopra pra secar,
fuuuu…fuuuu…
já novinhos fazíamos isso, pintávamos a unha das bonecas,

mini-unhas geralmente de vermelho e

usávamos o vento
da boca
pra secar cor
de unha.
As cores
na unha são
jeitos dos dedos ampliarem as pontas, eles
voam
pairam, ficam mais céus, tudo por causa de um mini pincel
(zinho) num
ponte de cores com
cheiro fortinho
chamado
EsMalte, tão frágil só
a casca, mas
que casca
arco
de
Íris.

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Açougue ou Como rezar sem joelho

(uma resposta a Carlos Alonso)

 

do se cortar eu faço não por falta de amor a mim.

Não por ego ou como forma de punição, eu

me corto porque gosto

do vermelho na pele,

a sensação da dor, do

sangue escorrendo

quente

no braço.

Passo o dedo e sinto o gosto, boto pra dentro o que fugia, sangue do braço na boca.

Fecho o olho e me imagino do avesso, por dentro, como se

tripa

fosse vinho, como se vida

fosse fácil, não

se preocupe.

Só me corto vez em quando, não é hábito, apenas quando a Lua faz barulho, quando a sombra de mim é maior do que eu.

Eu tinha medo de sombra quando pequena, hoje

tenho medo de morrer,

não

me acuda.

Só me corto quando quebra um copo, pego um pedaço

e lasco na pele devagar, bem

devagar,

dor aos poucos é rosto pro prazer,

levinha aos poucos,

a pele abre

e se mostra de dentro, da parte do que sinto e não

do que vejo.

A vontade de me virar do avesso é linda porque é impossível em vida.

Queria ser ao contrário sem morte, é um pouco

como o amor. Queria encontrar alguém que me abrisse sem ser médico,

que me abram como tu me abria quando a gente se devorava em meados de 2011. A cor era vermelha. Os pontos de encontro numa transa são vermelhos, tudo melado,

mel

ecado

de lambuzeira em 2 corpos. 3, 4, o que somos afinal quando nos encaixamos uns nos outros?

Somos o Encontro,

sei

que  é forte ser mais que 1.

Se andássemos grudados como ficávamos na cama

Ora,

eu não precisaria me cortar nunca mais,

não me ligue.

Se ligar, direi que esse texto é mentira, direi que o corte foi

um susto,

Direi que cai porque sou desastrada,

não sou,

não me impeça.

Se tentar,

caso tente,  tu ficará louco, consumido

pela minha falta de

juízo que não é pena nem ódio de mim, é uma tentativa

de expansão  poética, é quase um ato religioso

experimentar

a carne humana em toda a sua fragilidade.

hay_que_comer (19)

 

Alecrim

não enche
ela
muito não, ninguém gosta
de ser enchido. Fica pesado pra você, ficaart-bird-cute-drawing-illustration-Favim.com-427542
pesado
pra ela.
Mala devia guardar só essências, memórias, certas pessoas que trouxeram a melhor cor possível de você
pra você, teu maior horizonte estampado em formas de sorriso.
Mala devia guardar isso,
cheirinhos de quando tu
tinha 6 anos,
o balanço
distraído
das árvores, o silêncio que a gente faz por dentro quando se descobre apaixonado, o passarinho que é no peito reconhecer um amigo
no tamanho desse mundo louco,
Mala
devia guardar tão pouco, só
epifanias, menos
roupas.
Por Lei as
roupas
deviam ficar pra fora, numa
mala

o nu.