O Conselho

um faroeste dedicado às dores

das mulheres malditas

 

Falei pra ele:

– Esta noite é sua, baby.

Ele me ouviu obediente. Devo ter dito a frase com bastante convicção,  talvez por culpa do álcool que rondava meu corpo.

Devo ter dito tudo alto demais,

sexy demais durante o fumo do charuto Cubano.

Dançamos colados, eu

estava apaixonada e

depois

fui embora, tinha que passar no aniversario de outra amiga.

O problema

é que

ele levou muito a sério o que eu lhe disse, achou mesmo que era Dono da Noite, um pouco também por culpa do álcool,

sempre o álcool e

quebrou tudo no bar, xingou o gerente, se revelou um novo sujeito muito mais interessante. Fiquei sabendo por amigos. A história ficou bem famosa na cidade, quem não conhecia o troublemaker ou estava morto ou

era surdo, o bom de interior é isso,

1 copo quebrado e voilá

tu

vira

popstar. Pouca coisa acontece em cidade  pequena, até chuva passa só de vez em quando e as mulheres querem sempre a mesma coisa: grana. Pode ser fama também, meu amigo

ficou famoso

naquela noite,

quebrou cadeira,

bateu num puto 3 vezes maior que ele,

roubou whisky,

mijou na pia,

a mulherada

ficou maluca.

A policia chegou, ele se intimidou o cacete.

O garçom apontou:

– Foi esse o cara que estuprou a loira.

Meu amigo argumenta:

-Nem tanto. Apenas comi a gata sem ela querer. E outra, a loira gozou.

Os policiais deram risada, a loira também e o meu amigo lascou um soco na beiça do garçom dedo-duro.

A loira

tinha gozado e quem poderia culpa-la, esse meu chapa ficava tremendamente sensual quando estava sanguíneo e no fundo

eu tinha me arrependido do conselho que lhe dei. O deixei famoso na terra das víboras, que burrada, ele acabou virando o

Pica-de-ouro.

Eu,

Enciumada,

dizia:

-Sou a mentora do Pica.

As pessoas riam aquele riso escrachado dos bêbados, deus, como eu odeio esse tipo de gente. E respondiam complacentes:

– Claro, guria. Claro.

Tomar no cu. Estava cansada de não ser prezada pelas coisas que fazia. Decidi tentar chamar alguma atenção já que esse meu amigo nem ligar ele me ligava,  estava ocupado demais comendo 90 por cento das mulheres da cidade. As que sobravam ou tinham mais de 60 ou

eram da família,

menos as primas que prima não é parente e quando digo que esse cara era um perigo, I

mean it.

Também não o culpo, ele não comia mulher há tantos anos e tenho minhas dúvidas se ele não perdeu o cabaço com a loira do bar no dia do conselho. Me deve mais essa, o maldito. Fui à casa dele. Por sorte

ele estava. Atendeu a porta apressado, acho

que ele pensava

que eu era outra

Pessoa:

– E aí, Pica! Esqueceu das velhas amigas?

Ele ficou me olhando.

– Vim cobrar pelo conselho daquele noite. Te ajudei como se ajuda um filho na merda e tu nem me cumprimenta direito quando me cruza na rua. Qual é a tua?

– O que é que tu quer? Dinheiro?

Não.

-Então o que? Meu carro? Aquele vinil roubado?

– É, até que teu carro não seria uma má ideia, mas não. Eu quero o teu pau.

– Sério? Mas… eu não posso te comer, cara, tu pra mim é quase uma irmã.

– Quase, mas, não sou.

Ele ficou em silêncio.

– Ao menos tente, seu puto, se não espalho pro mundo que cê é um viado de merda.

Aquilo o deixou furioso, eu adorava quando ele ficava assim. Me beijou de língua grossa, me agarrou pela bunda e me levou pro seu quarto. A gente foi tirando a roupa nos corredores, fazia tanto tempo que eu queria aquele homem. Uma pena ter sido na base da chantagem mas, pelo menos

consegui o que queria. Ou achei que conseguira porque

Na hora

H

O Pica de Ouro

Não foi nem de lata

Nem de bronze. Me disse:

– Não consigo, cara, tu é minha amiga.

Aquilo me deixou emputecida.

-Então pra me comer eu sou sua amiga, ne, puto? Agora pra me cumprimentar na porra da rua eu sou uma estranha?

– Calma, pô, eu tô exausto, a culpa não é sua.

Ficamos em silêncio por um tempo. Depois ele me disse, visivelmente aborrecido:

– Ou talvez seja caralho!  Tu nunca foi meu tipo.

Olhei pra ele incrédula. Eu fiz tudo por esse cara. A gente é amigo há mais de 10 anos. Já emprestei dinheiro, já perdi foda, deixei o cara famoso,  já fiz até

mercado pra ele e

quando peço em troca

uma simples trepada

ele tem a pachorra de me dizer que eu não sou a porra do seu tipo?

Não pensei duas vezes.

Desci pra cozinha, procurei nas gavetas a faca de churrasco. Achei. Voltei pro quarto com ela nas costas, ele já estava assistindo Futebol. Cravei-lhe rápida a metálica no peito e pensei que os homens

todos

não valem o brinquedo que guardo

na gaveta.

tn_FrostLynn_CountryGirl

 

(* foto de Lynn Frost)

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