Dona Júlia Assassina

O som do café no bule

deslizando

suave

em direção a xícara

que

roça

no

pires enquanto

chego

na sala de

estar.

Acabei misturando os talheres, coloquei uma colher muito gorda pra mexer o açúcar, i’m

sorry.  É que a sua presença na sala me distrai em níveis que

nem sei.

Se a patroa descobre ela me mata, mas

pouco importa: tu

me importa.

Sinto meu corpo em cio com o Senhor vestindo essa calça,

tão

séria

e tão

justa, ao mesmo tempo.

Penso no teu pacote enquanto volto pra copa em busca de colher

pequena.

A patroa berra da sala:

– Vamos logo com isso, han!

Não me trate assim na frente dele, sua puta. Tenho vinte e seis com cara de

Vinte,

não sou que nem tu que chegou aos 40  de pé

na jaca.

Sei que meus seios não cresceram tanto quanto os da senhora, Dona Julia, mas  essas tetas aqui não são peras de se jogar fora e aposto que seu marido iria se esbaldar

comigo.

Voltei pra sala com as malditas colherinhas, a patroa de rouge e batom cor de uva. Se quer saber de uma coisa eu quase não me lembro do rosto

Dela

sem pó.

Eles

conversavam sobre móveis. Ser rico é uma merda, os caras não tem tempo nem pra ser profundo. Cheguei perto dele pra servir o café e apenas isto já me deixou maluca.

Meu

Deus. Eu tinha que arrumar um jeito de tirar a patroa da sala e tive a ideia da vida: derrubei

café

na blusa. Ela:

–  Desgraçada, era seda!

Seu marido teve vontade de rir, mas não pode. A patroa levava a vida muito a sério. Sugeri matuta:

– Por que a senhora não sobe e troca de roupa? Melhor já colocar a blusa pra lavar antes que a mancha seque.  

-Vou ter que tomar uma ducha, meu cabelo está inteiro melado!

Ela subiu as escadas em direção ao quarto, era

minha chance. Pulei

em cima

do marido dela, quase derrubei o pobre do

sofá. Ele se assustou um pouco, mas não negou fogo

apesar que as rédeas

eram todas

minhas. Seus olhos queimavam, no entanto, e isso pra mim já era o bastante. Quase gozei pensando que a patroa poderia voltar a qualquer momento e nos flagraria assim,

selvagens,

pelados.

Essa

era uma vingança pessoal e dionisíaca contra toda e qualquer Autoridade de araque. Trepei pelo fim da hipocrisia, os salários de merda, as injustiças terríveis dessa vida medíocre. Por tudo e por todos, bailei com o macho a

Dança

do

Sublime. Se me dissessem que flutuamos, olha, eu

Acreditaria.

Porque fui tomada pela áurea de um sexo novo, engajado. Metíamos nas galáxias e pela Terra, já não tínhamos rosto definido quando

a patroa

chegou.

Eu percebi,

seu marido

não.

Continuei a transa-manifesto olhando-a bem nos olhos. Esse gozo é pra você– pensei.

A patroa,

imóvel,

chorava de ranço e de dor.  

Sua maquiagem

agora sim

derretia

e eu pude ver

enfim

aquela fuça sem textura. Era um rosto comum e ela

sabia. De repente a patroa  entendia que o jogo sempre foi entre nós duas.

Lenta,

ela pegou a colher do café.

Marchou vingativa em minha direção, seu macho

em transe em cima de mim.

Feito bandeira, a patroa levantou a colher. Seus olhos

eram luta, ela nunca esteve tão viva e mataria até um marmanjo usando

apenas

1

colh...

Acordei num susto.

Ofegante,

olhei em volta do meu quarto de sempre. Não havia resquícios de Dona Julia.

 

a não ser pela minha calcinha

molhada

Imagem

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4 comentários sobre “Dona Júlia Assassina

  1. Oi apenas quero saber se você é uma escritora palpável com quem eu possa trocar uma idéia. Sou um aspirante a escritor iniciando a trilha.

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