Ego

tumblr_lr1lo0P6of1qgrr8oo1_500Eu estava de costas quando você me chamou de um jeito que

talvez

só um Pai

faria.

Um pai puro, livre de incestos

e desejos

carnificentes.

Pena.

A gente conversou sobre coisas fáceis e você me perguntou se a touca

ainda

estava

comigo.

Está sim. – eu disse – Mas não quero te devolver. Não posso.

Tudo bem – você disse, com aquela sua

aceitação crua

a respeito do amor e da morte.

Depois me perguntou, tímido, se poderia ir comigo no atelier daquele pintor.

Peraí,

então é sobre isso o nosso papo? É sobre a porra das Artes Plásticas e eu aqui,

achando que era saudade?

 

-Olha. Eu…Achei que estivéssemos numa boa.

E estávamos. Nosso amor acabou há mais de anos.  Engraçado que, ontem mesmo, eu pensei em nós e no quanto eu

não mais te amava.

Pensei em ti e foi vazio. Me veio só um carinho vestido de respeito pela cama que vivemos

e não foi pouca.

Hoje

leio os versos que te fiz e acho um saco, um sonho e um risco que eu

não mais

saberia  correr.

Então

por que

esse veneno?

Da onde essa dor em saber que

nada

nunca mais

será

de novo?

Acho que estou entre qualquer coisa menor que o amor

e maior que o esquecimento.

Insônia

(aos que preferem a vida que acontece de noite) 

Virei de costas pro espelho e olhei minha bunda:
Que merda, -pensei.
Quem dera ela nua
fosse tão boa quanto é de calça. Essa história de refrigerante é o que me fode.
Minha bunda
é o resultado do açúcar e eu devia mesmo tumblr_lst0nm0Ghy1qzutuuo1_500
é só comer fruta mas
existo
e prefiro
o chocolate.
Continuo a análise. Estou entre triste e
bem humorada, porque
afinal
é uma bunda feia que ninguém
jamais
recusou.
Só mulheres e, se eu fosse lésbica,
aí sim
eu estaria na merda. Não há nada pior do que o olhar de alguém
que tem
o mesmo que tu.
Largo do espelho, vou à cozinha. Escolho sempre a cozinha quando é noite de lua cheia.
Abro
a geladeira
ansiosa: quanta diversão, meu deus. Do pudim a cerveja, a vida deve ser terrível pra quem
não tem
comida.
Além de toda aquela merda do quem eu sou? e pra onde eu vou? Toda aquela porra de angústias existenciais,
ainda por cima
Você
Não tem nada
para comer.
Mas sempre resta o trepar, o que dá
praticamente,
na mesma.
Faço um sanduíche pensando nisso e pensando no pinto daquele professor de Geografia, enquanto meu dog dorme pesado ao lado do fogão.
Ligo o rádio, é John Coltrane e eu
tenho vontade de chorar.
Choro.
Os programas todos ficam bem melhores depois das 2,
assim como as janelas e também
as praias.
Já viu o mar de madrugada? Já viu você? As coisas ficam muito mais interessantes
sob a luz da lua.
Menos minha cama,
claro.