Mesa pra um

Nas ruas os pés sem cabeça,tumblr_ljyo6lHa8t1qe7ucso1_500

as placas.

Não olho nunca pros rostos,

nunca pros olhos, que eles dizem demais pra quem sabe de menos.

Prefiro a janela e uma bela macarronada.

O apartamento em paz e sem tv.

Cortinas cremes, um suco, alguns livros que não sei qual começar, é difícil,

me parece definitivo escolher uma história só. Sou mulher de muitas, não há vazios por onde amo.

Tentei o rádio, mas é só notícia e eu não quero notícia: quero voar.

Voltei a vitrola, olhei discos.

Talvez eu devesse voltar a pintar. Ou talvez eu devesse continuar a dormir. Não sei. De que vale a vida, afinal? Me vem vontade de morte toda vez que o céu

fica assim rosado.

Mas quando escurece passa. É que escurece também em mim o medo e as coisas podres.

Queria juntar no peito todas as contradições do mundo. Queria que nada fizesse sentido, nem meu corpo, e que nenhum homem jamais se aproximasse de mim por causa dos seios.

Mas é sempre pelos seios e eu me sinto sozinha. Não quero ser carne, o desejo me assusta. Não gosto de festas e nem de sertanejos.

Da música,

preciso do blues e da cerveja e de alguns compassos que me façam ter coragem de olhar nos olhos.

Semana passada eu estava na rua.

Mês passado também, de bicicleta, que uma mulher, once in a while,  precisa de ar. E de amor. E de algumas carícias na coxa.

Qual o quê!

Impossível encontrar um ser que te queira como és. O que vejo são seres que querem a-si–mesmo, num dueto do sozinho infinito. Assim fica fácil, assim fica sexo. Eu passo.

Prefiro a janela e uma bela siririca.

Não me importo de ficar nua ao meu lado, pelo contrário, me sinto leve.

Tenho Bukowski no travesseiro e Beatles no meu carro, eu tô legal.

Entre o amor só

e o amor egoísta

eu fico com o livro.

 

 

(Smiths aqui)

(c)oração da ex

tumblr_ldvjwpO32Y1qcaz72o1_500_thumbAcordei com um gosto na boca que não sei se era seu.

Ontem

dormi com pessoas que não eram você.  Pra te esquecer, amor,  que bobagem, mas não deu certo. O gosto daquela gente

lembrou-me o seu.

 

 

Que dor de cabeça, me olhei no espelho. Estava linda, que estranho.

Tu ia gostar.

Tomei um gole de whisky antes do café. Foi tu que me ensinou assim. Estava de camiseta sem calcinha mas com meia que,

em São Paulo,

outono parece inverno

e eu não tenho mais você.

Escovei o dente.

Teu terno ainda está aqui.

Eu o odeio, mas que merda.  Um dia

tu terá que vir busca-lo.

 

 

O porteiro contou, viu, do teu carro.  Estacionado,

de olho na minha janela. É vontade de boceta? Sei que é.

Aposto que cê ouviu dizer que agora eu faço dança. Te amo

mas não quero te ver. Corro o risco de sentir-te feliz. Constar penosa e lentamente que eu

já não te faço tanta falta.

Por deus não, que maçada, prefiro a saudade. Lembra dos nossos domingos sem tédio?

Líamos poesia um pro outro, nus, grifando frases, você sempre perdia o teu lápis mas nunca as mãos. Minha bunda era teu parque.

A gente beijava beijo longo

que molha

que leva

que agita.

Até filme de terror a gente via e eu não sentia medo. Com você nem da morte.

Nem da vida.

Morar contigo era melhor do que ter um cachorro.

Melhor que ouvir na vitrola

as canções malucas dos Mutantes.

Meu amor

Volta.

Tua vida sem mim não é tua.

Vamos tomar uma ducha

esquecer das besteiras que te fiz.

Cê me chupa e me perdoa, toma um drink, deixa a louça.

Volta. Que eu te mostro o quanto é lindo

comer a mulher da tua vida,

além dos novos truques que eu aprendi na aula de dança.