O Stalker

Uma mulher e sua casa. Ela é escultora, por isso mora em um galpão. Tudo ali tem cara de ateliê. Ela está sempre suja de argila, areia, gesso, terra. Até terra. Não sei o que ela apronta quando está trabalhando, mas que gênio. Que mãos. Que corpo. Por certo trabalha nua. Quisera eu ser um de seus modelos, mas não a interesso. Sou um ordinário cara de batata trabalhador da Sé bate carteira. Não tenho emoção. Que diabos. Daria tudo para ser passional, como ela. A essa altura já não sei mais se a desejo

ou se a invejo.

Essa mulher e sua banheira. Meia noite, meia Luz. No banheiro tem uma vitrola e uma taça de champanhe. Ela escuta e canta baixinho. Bem baixinho. Era Nina Simone. Quem sabe ela tivesse comemorando algo ou talvez tivesse apenas se divertindo sozinha. Se eu tivesse aquele corpo, baby, por certo eu também me divertiria sozinho. O banheiro cheirava lavanda. Mesmo nua, só dava para ver o seu rosto. A espuma cobria-lhe o corpo. Sua pele é tão clara. Eu a chuparia por todos os cantos e por toda a eternidade.

A mulher e sua roupa. Suas coisas estavam espalhadas pelo chão. Sutiã, meia-calça, sapato e um vestido azul em zíper aberto. Só não encontrei a calcinha. Safada. Na banheira, seu cabelo estava solto. Longo. Preto. E tinha também os olhos, que eram grandes. E bons. Todo artista tem olhos bons, é como um sinal da natureza pra que nós, seres comuns, percebamos a grandeza de poucos.

Ela se levantou da banheira. Que visão. Pegou a toalha. Difícil dizer o que nela era melhor. Isso acontece quando a mulher é muito bonita: sua graça é por inteiro. Ela se secou devagar, prendeu os cabelos num coque alto. Linda. Colocou uma camiseta qualquer e foi trabalhar.

Uma mulher e sua escultura. Ela trabalhando me deixava ainda mais excitado. Aquelas mãos tocando argila e formando mundos, aquilo, poxa, aquilo exigia coração. Ela tinha um gato também, que lhe fazia companhia. Recebia poucas visitas, da mãe e do irmão, quase não tinha amigos. Se não fosse o gato, ela enlouqueceria. E eu também, se não fosse ela, ficaria maluco. Essa mulher tinha algo de tão forte que me sugava os dias. A mente. Eu não ligava mais a tv, não lia livros. Nunca gostei de cinema. Ela era o meu entretenimento. Tudo girava em torno dela, o meu acordar, as minhas punhetas, eu sentia ciúmes até do gato e principalmente do irmão, eles tinham uma relação estranha, falavam muito perto, ficavam nus e davam risadinhas de coisas que pouco importa, aquilo me irritava, ela passava por mim na calçada e não me via, sempre cheirosa e tão magrinha com aqueles trabalhos grandiosos na sua sala, a sua casa que era incrível, de madeira, cheirava incenso e aquele gato tão quetinho e companheiro, parecia um cachorro, e aquela vitrola cheia de discos tão bem colocada ao lado da banheira, o espelho, a porta de entrada, as cortinas roxas, a boca, a pele, os bons olhos, aqueles peitos suculentos que nunca sentiriam o gosto da minha saliva e aquilo tudo me deixava louco de tesão,
de raiva
de amor.
Ela era mulher e uma mulher
sempre está a frente de seu tempo. A essa altura já não sabia mais se a queria ou
Se a matava.

 

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