Cenas de um divórcio ou A viúva

Tenho que limpar a casadesesperada

tá toda suja da semana atrapalhada

Nem troquei a fronha e agora

tenho que lavar a roupa

e a louça

de ontem.

Mas que dia.

Que diabos.

Preciso lavar o banheiro

Caguei

Cagaram

E ninguém limpou

Que merda.

Que sujeira.

O vaso está imundo

And so and so meu coração.

 

 

Tenho que fazer mercado

Não tem nada na geladeira

Nem uma fruta

Só sobrou ovos

E um pimentão embolorado

Que deixou as coisas com cheiro

Tá tudo bagunçado and so

and goes meu coração.

 

 

Não sou de reclamar, entende,

Mas tá difícil fazer tudo assim

Sozinha.

Foram trinta anos da gente junto

Dividindo a cama

E as compras.

Agora tu deu o fora

Com uma putinha de 25, a idade da tua filha,

não tem vergonha?

Eu tenho.

Eu me sinto um lixo

Usada

Velha

Cansada dessa vida.

Cansada.

Dá o fora, veio fazer o que aqui?

Pegar tua mala?

Fazer a barba?

Vai embora, não entra mais aqui,

Tu vai buscar tua filha lá em baixo, entendeu?

Aqui não seu merda, aqui não que eu tô sofrendo e a culpa é tua.

Eu só queria que tu fosse mais romântico

Mais sensível e que não dormisse roncando igual a um porco.

Aposto que com ela tu não ronca, não é, desgraçado?

Sai daqui!

Me deixa em paz.

Me deixa a paz, me solta o braço que eu preciso chorar

de ficar roxa

and so

and

Gone

Meu coração.

O Stalker

Uma mulher e sua casa. Ela é escultora, por isso mora em um galpão. Tudo ali tem cara de ateliê. Ela está sempre suja de argila, areia, gesso, terra. Até terra. Não sei o que ela apronta quando está trabalhando, mas que gênio. Que mãos. Que corpo. Por certo trabalha nua. Quisera eu ser um de seus modelos, mas não a interesso. Sou um ordinário cara de batata trabalhador da Sé bate carteira. Não tenho emoção. Que diabos. Daria tudo para ser passional, como ela. A essa altura já não sei mais se a desejo

ou se a invejo.

Essa mulher e sua banheira. Meia noite, meia Luz. No banheiro tem uma vitrola e uma taça de champanhe. Ela escuta e canta baixinho. Bem baixinho. Era Nina Simone. Quem sabe ela tivesse comemorando algo ou talvez tivesse apenas se divertindo sozinha. Se eu tivesse aquele corpo, baby, por certo eu também me divertiria sozinho. O banheiro cheirava lavanda. Mesmo nua, só dava para ver o seu rosto. A espuma cobria-lhe o corpo. Sua pele é tão clara. Eu a chuparia por todos os cantos e por toda a eternidade.

A mulher e sua roupa. Suas coisas estavam espalhadas pelo chão. Sutiã, meia-calça, sapato e um vestido azul em zíper aberto. Só não encontrei a calcinha. Safada. Na banheira, seu cabelo estava solto. Longo. Preto. E tinha também os olhos, que eram grandes. E bons. Todo artista tem olhos bons, é como um sinal da natureza pra que nós, seres comuns, percebamos a grandeza de poucos.

Ela se levantou da banheira. Que visão. Pegou a toalha. Difícil dizer o que nela era melhor. Isso acontece quando a mulher é muito bonita: sua graça é por inteiro. Ela se secou devagar, prendeu os cabelos num coque alto. Linda. Colocou uma camiseta qualquer e foi trabalhar.

Uma mulher e sua escultura. Ela trabalhando me deixava ainda mais excitado. Aquelas mãos tocando argila e formando mundos, aquilo, poxa, aquilo exigia coração. Ela tinha um gato também, que lhe fazia companhia. Recebia poucas visitas, da mãe e do irmão, quase não tinha amigos. Se não fosse o gato, ela enlouqueceria. E eu também, se não fosse ela, ficaria maluco. Essa mulher tinha algo de tão forte que me sugava os dias. A mente. Eu não ligava mais a tv, não lia livros. Nunca gostei de cinema. Ela era o meu entretenimento. Tudo girava em torno dela, o meu acordar, as minhas punhetas, eu sentia ciúmes até do gato e principalmente do irmão, eles tinham uma relação estranha, falavam muito perto, ficavam nus e davam risadinhas de coisas que pouco importa, aquilo me irritava, ela passava por mim na calçada e não me via, sempre cheirosa e tão magrinha com aqueles trabalhos grandiosos na sua sala, a sua casa que era incrível, de madeira, cheirava incenso e aquele gato tão quetinho e companheiro, parecia um cachorro, e aquela vitrola cheia de discos tão bem colocada ao lado da banheira, o espelho, a porta de entrada, as cortinas roxas, a boca, a pele, os bons olhos, aqueles peitos suculentos que nunca sentiriam o gosto da minha saliva e aquilo tudo me deixava louco de tesão,
de raiva
de amor.
Ela era mulher e uma mulher
sempre está a frente de seu tempo. A essa altura já não sabia mais se a queria ou
Se a matava.

 

Uma boa mulher

Imagem
Mudei de sobressalto. O medo é um animal oleoso, mas chegou minha hora de voar. Comecei a fumar de piteira e a tratar melhor dos meus anseios.
Entrei pra academia. Estou ficando com um corpo resistente.
Firme.
Melhorei no sexo, na cavalgada. Agora, os homens me adoram.
Eles me ligam e me dizem do amor.
Eu os beijo com a intimidade de uma puta.
Acredito no sonho de alguns, não de muitos.
Aprendi que as pessoas podem se ajudar de vez em quando. E que morar sozinho talvez seja a maior urgência de um ser humano.
Vou mudar pra vila Madalena, viu, fazer minha fita ou pelo menos
Fazer minha feira.
Tem uns muros legais por lá, pra tirar foto. Comprei uma câmera, sabe,
chama Carmem e vai dar tudo certo.
Soltei o passarinho da minha mãe. Estava na gaiola há quatro anos e há quatro anos aquilo me matava.
Minha mãe ficou chorando a tarde toda: Foda-se.
Desarrumei meu quarto, dei algumas roupas e poucos livros. Decidi pelo desapego e por paredes cor de laranja.
Prefiro madeira do que vidro e troco meus lençóis uma vez por semana.
Não tomo banho depois do sexo: Espero o esperma secar.
Parei de vez de usar calcinha e não corto mais o cabelo. Só as unhas, e pinto de vermelho.
Não tenho vergonha do meu corpo e me masturbo 3x por semana. Em duas delas, penso em mulheres. Em seios.
Contei a verdade para alguns amigos. Discuti com eles. Dei umas dicas pro meu porteiro. Comprei o cd novo da Gal e um colar com pingente de bicicleta. Tirei a grade da minha janela e mandei aquele merda, que chutou um mendigo ontem, pra a puta que o pariu.
Achei que ele ia me bater, mas parece que ele ficou com tesão. O mundo é lugar escroto pra quem decide lutar.