Lolita Pimenta ou A presa

Olhos azuis tão azuis os seus. Coisa rara, linda de se ver. De se ter e você
tem.
São olhos pequenos
rasgados
que me causam arrepios
por todos os lados. Olhos celestes de uma terra muy distante.
Têm um quê de loucura também, um tempero, uma malícia de homem que já viu muita estrada, comeu poeira e mais de mil mulheres, ao som de Johnny Cash. Sempre o Cash, que eu te conheço. Sou menina, mas cê não me engana. Na cama
es um lince.
Um bárbaro.
On the road, o asfalto tem seu cheiro. Cê é livre, prematuro e sabe que a poesia vem do sexo.
Não tem casa só tem carro e claro,
não se apaixona nunca
(ou quase nunca)
porque sabe do poder de uma buceta.
Sou menina, mas leio muito
e achei Bukowski outro dia, na sua prateleira.
Entrei no teu quarto, fucei nas tuas coisas, cheirei tuas cuecas e
levei uma.
Minha mãe descobriu, me deu uma surra.
é que ela não entende que eu

gosto de tu.

E gosto também da sua cara. Cê é jovem
mas tem ruga.
No cartório, 29, mas te olhando uns 34.
35.
Boca fina
Avermelhada
que se abre em gozo quando passa uma mulher que te agrada.
Já te vi olhando uma mulata.
Tua boca denuncia o desejo,
te reparo.
cê me mata.
amo tua barba, que é das grossas e é morena, como eu. Sou pequena, mas cê me cabe. Cê me ensina, eu te aprendo.
Quando tu senta na calçada de perna aberta e jeans antigo
eu sinto que o mundo inteiro
podia parar ali,
acabar em ti.
Cê é a soma de todos os homens que eu sonhei pra mim.

Daí num belo dia, foi na quarta ou na segunda,
Você provou da minha boca.
Eu tava lavando teu carro, do jeito que cê tinha mandado. Fazia um calor da peste e eu vestida de branco. Me molhei um pouco.
Fiquei transparente.

Você, que me olhava da rede, abriu a boca de desejo
daquele jeito que eu tanto conhecia.
Senti um frio na barriga. Há anos que eu morava ali,
contigo,
e você nunca
tinha me visto.
Agora me vinha assim, sem pressa, andando safado em minha direção.
Teu jeans
Tua bota
Teu cheiro cada vez mais perto.
Eu tremia por dentro, era menina. Te provocava do meu jeito mas não sabia das coisas. Tive medo.
Me virei de costas pra ti. Minha calcinha
era vermelha, eu tinha
15 anos e você cada vez mais perto.
Mais perto
Feito lince.

Já podia sentir tua respiração.

Me virei de novo. Dei de cara com a sua
boca.
Teus olhos azuis
ainda mais azuis
por causa do fogo.
Cê me pegou pela cintura e sussurrou entre os dentes:
– Você cresceu demais, Mariana. Tua mãe te criou direito.
– Senhor, eu..
Me beijou a boca
me arrancou a roupa e me comeu ali, do lado do carro. Não deu nem tempo de desligar a mangueira.

 Imagem

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