Paixão

Sei que
do nosso amor
não vou me esquecer
nunca.
Sempre haverá no travesseiro
na nuca
no creme de passar na pele
algo de ti
um pouco de mim
um cheiro de nós.
Fizemos no carro
Assistimos Zé Celso
Fomos na padaria de sábado a tarde
Eu fiquei te esperando
Você perdeu a hora
E depois tomamos chuva.
No meu aniversario, você me deu bombons e perguntou o porquê
daquela cicatriz na minha coxa.
Fomos ao teatro ver comédia de mãos dadas.
Agora
você é o ator.
Seus sucos, que você sempre tomava
E o documentário de carnaval que assistimos
Jantamos na rua de luzes.
Entramos na loja de máscaras.
Nos beijamos em cada farol vermelho.
cê arrancou minha calcinha com os dentes.
E me lambeu por vezes que não pude aguentar.
Não pude.
Fomos ao municipal ver a ópera, eu tava de chinelo e a sopa do intervalo te fez muito mal.
Eu guardei aquela garrafinha azul, sabe?, queria lembrar de você
pra sempre.
Como se precisasse.
Jogamos xadrez
Você fumou
E me mostrou suas mágoas
Seu quarto
Sua cama
Me deu um livro
Me deu dois livros
Um cd gravado do Chico
E uma bata
E uma carta que eu achei que era pra mim
Mas era uma conta
Cê ficou sem graça, me deu um beijo
E o teu cachorro morreu.
Tenho saudade dos seus lençóis e das músicas que você me colocava.
Toda vez que escuto Joni Mitchell
ou Bob Dylan
em alguns bairros,
quase em todas as flores e
Em muitos homens
morenos
Eu vejo você
Eu sinto você
Faz tempo que a gente não transa, mas não nos meus sonhos.
Podemos ficar a vida sem se ver, com você casado, apaixonado,
não importa.
Toda vez que penso em ti, eu juro, é a mesma sensação do primeiro dia
que você chamou meu nome.
cê me tocou no rosto em maio.
Me beijou a boca em junho.
No frio
Sentados
Na escada, com suas meias pretas e seu tênis claro, seus pelos e sua vergonha.
Você é um homem tímido pro seu quase um metro e noventa. Não sabe olhar nos olhos, mas sabe beijar um corpo.

Não se engane se algum dia tu achar que acabou.
O que eu sinto por você me acompanha e segue firme
desde o momento em que te (re)conheci.

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Era Carmem que abria a perna mais que eu

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No vestiário a conheci. Ela faz hidro, eu aeróbica. E musculação também, que agora acabou a brincadeira.  De repente, minhas manhãs foram tomadas por atividades físicas que eu

nunca

jamais

tinha feito.

Tenho ficado rosada com frequência, usado mais meia que chinelo e descobri alguns músculos bem divertidos no meu corpo.

Suo feito gorda,  na esteira minha mente vai a mil.

Pra piorar, o professor me disse hoje,  no exercício de abrir as pernas:

– Tem senhoras de oitenta que

abrem

mais

que tu.

Pois sim.

Mas essa senhora que conheci no vestiário, por certo não era dela que o professor estava falando.  Tinha também uns 80 anos. Seu cabelo era roxo, curtinho. Simpática ela, com um senso de humor plausível, especialmente pruma mulher.

No entanto, dona Carmem tinha algo de diferente das outras ladies que faziam hidro: Ela gostava de ficar pelada.

Era uma senhora bastante sóbria, you know, sem problemas de saúde e etc.

No entanto era gorda e tinha quase

1

século

de existência.

Todas as outras senhoras se trocavam dentro do banheiro Até as moças preferiam um pouco mais de privacidade. No máximo, saiam do banho de calcinha e sutiã.

Mas não dona Carmem.

Ela passava mais de meia hora pelada, sem motivo nenhum.

Não estava se secando

se trocando

ou passando creme.

Ficava simplesmente sentada, bunda no banco, sorrindo e conversando com as amigas. Suas pelancas cobriam-lhe as partes mais intimas e as tetas caiam vesgas, por cima de sua pança. Veias grossas  saltavam de suas coxas cruzadas,

coxas essas que já serviram de apoio para  alguns homens que a amaram.

E talvez, quem sabe, ainda servissem.

Seus pés eram pequenos.

Sua bunda era sebo,

Sua pele era seca,

sem brilho

nem cor.

Pra mim, era inevitável não olhá-la.

Pra ela, era um prazer ser vista.

Dona Carmem estava gargalhando com as amigas quando percebeu meu excesso de curiosidade. Ajeitou calmamente seus cabelos roxos e me disse num semi-sorriso:

–       Sou velha mas ainda estou viva.

E eu,

55

anos

mais

nova

y tantas vezes

mais morta.

Lolita Pimenta ou A presa

Olhos azuis tão azuis os seus. Coisa rara, linda de se ver. De se ter e você
tem.
São olhos pequenos
rasgados
que me causam arrepios
por todos os lados. Olhos celestes de uma terra muy distante.
Têm um quê de loucura também, um tempero, uma malícia de homem que já viu muita estrada, comeu poeira e mais de mil mulheres, ao som de Johnny Cash. Sempre o Cash, que eu te conheço. Sou menina, mas cê não me engana. Na cama
es um lince.
Um bárbaro.
On the road, o asfalto tem seu cheiro. Cê é livre, prematuro e sabe que a poesia vem do sexo.
Não tem casa só tem carro e claro,
não se apaixona nunca
(ou quase nunca)
porque sabe do poder de uma buceta.
Sou menina, mas leio muito
e achei Bukowski outro dia, na sua prateleira.
Entrei no teu quarto, fucei nas tuas coisas, cheirei tuas cuecas e
levei uma.
Minha mãe descobriu, me deu uma surra.
é que ela não entende que eu

gosto de tu.

E gosto também da sua cara. Cê é jovem
mas tem ruga.
No cartório, 29, mas te olhando uns 34.
35.
Boca fina
Avermelhada
que se abre em gozo quando passa uma mulher que te agrada.
Já te vi olhando uma mulata.
Tua boca denuncia o desejo,
te reparo.
cê me mata.
amo tua barba, que é das grossas e é morena, como eu. Sou pequena, mas cê me cabe. Cê me ensina, eu te aprendo.
Quando tu senta na calçada de perna aberta e jeans antigo
eu sinto que o mundo inteiro
podia parar ali,
acabar em ti.
Cê é a soma de todos os homens que eu sonhei pra mim.

Daí num belo dia, foi na quarta ou na segunda,
Você provou da minha boca.
Eu tava lavando teu carro, do jeito que cê tinha mandado. Fazia um calor da peste e eu vestida de branco. Me molhei um pouco.
Fiquei transparente.

Você, que me olhava da rede, abriu a boca de desejo
daquele jeito que eu tanto conhecia.
Senti um frio na barriga. Há anos que eu morava ali,
contigo,
e você nunca
tinha me visto.
Agora me vinha assim, sem pressa, andando safado em minha direção.
Teu jeans
Tua bota
Teu cheiro cada vez mais perto.
Eu tremia por dentro, era menina. Te provocava do meu jeito mas não sabia das coisas. Tive medo.
Me virei de costas pra ti. Minha calcinha
era vermelha, eu tinha
15 anos e você cada vez mais perto.
Mais perto
Feito lince.

Já podia sentir tua respiração.

Me virei de novo. Dei de cara com a sua
boca.
Teus olhos azuis
ainda mais azuis
por causa do fogo.
Cê me pegou pela cintura e sussurrou entre os dentes:
– Você cresceu demais, Mariana. Tua mãe te criou direito.
– Senhor, eu..
Me beijou a boca
me arrancou a roupa e me comeu ali, do lado do carro. Não deu nem tempo de desligar a mangueira.

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O pesadelo

Tenho tensão amorosa. Te provoco e te toco numa transa macia. Tu me morde, me encaixa, mesmo com 
o passar do tempo. Porém a vida se renova em gente que nasceu nos anos noventa. Todos de noventa, e eu ficando pra trás. Tenho medo que cê me troque por um broto. Na janela do meu carro vislumbro o passado em flashes. Engasgo. Compreendo que meus peitos já não são mais os mesmos. Ainda assim, fodo mais que essas gatinhas de dezoito a vinte dois. Minhas tetas são antigas, nada plásticas, mas Essas crianças pintadas de cabelo raspado são pequenas, são novatas. Eu tenho estrada. Me sinto larga por estar na roda há mais tempo. Saca? Me sinto á frente da ninhada, bem na frente. Tão na frente que de lá avisto a sombra da moça- morte. Merda!
Não quero morrer tão cedo, não, não, não quero. Tenho coisas pra fazer, entende, farmácia, emails, sexo, passaporte. Me deixa aqui, porra, por favor, socorro! Amor! Amor, acorda! Socorro! Sua vaca, me larga, socorro, amor, acorda!! Socorro!!!
Levanto da cama num salto.
Meu homem, um pouco assustado, me abraça de lado. De barba por fazer e sem camisa, ele nunca me pareceu tão bonito. 
– Calma, tô aqui. Foi só um sonho, calma. Pronto. Assim… Respira, mulher. Isso…Cê quer alguma coisa?
– Me chupa. – solucei.
– O que?
– Depois me fode.
Ele sorriu. Que homem lindo, meu deus, que sorte a minha. Ele me agarrou pelas coxas e arrancou minha calcinha.
– Mais devagar, baby. To me sentindo muito sozinha essa noite.

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