AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR PLÍNIO

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na paulista vi uns putos gritando preconceitos e pedindo assinaturas.
Algumas, não poucas, pessoas assinavam. Que porra de cidade de merda. Não aguentei e gritei sou gay pra ver se eles me queimavam. Os reaças deram de ombro.
Claro.

tenho bebido muito refrigerante, pegado metrô e descobri anteontem na revista
que gostar de cachorro é instinto.
5 páginas
sobre o amor que se sente,
do ponto de vista científico.
Certo.

a cidade é cheia de bosta.
gente fedida
gente mal perfumada
mal educada
e gulosa
o que dá tudo na mesma quando se está em horário
de pico.

andar na rolante
pegar o trem com blusa transparente.
Pés, passos, pés
Passos
Pés
mas
e os sonhos?
Nunca saberei o sonho de ninguém, quiçá só daquele fellow,
que não tirava os olhos do meu peito.
Cara de bobo, calça caída ele se esqueceu do meu rosto
ficou só com a teta.
Dele eu sei o sonho.

A cidade é feita de rodas.
em salas de espera só tem revista
nunca livro.
de vez em quando encontramos um conhecido
com o abraço e a promessa do encontro, prum café
que never ever
irá acontecer.

no banheiro do shoppinho, na vitrine ou na praça de alimentação eu sinto
a ânsia daquele feeling
de out of control porque hoje,
em pleno doismiletreze,
eu vi aqueles putos gritando preconceitos e pedindo assinaturas.

Algumas,

não poucas

pessoas assinaram.

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Homesick

no telefone

ouvi de ti muitas coisas de ontem

enquanto tomava um café

salgado

porque quando se tem sono

sal e açúcar se parecem

tanto

que chega a ser perigoso.

 

 

Ando em minha casa descalçada: de camiseta e sem calcinha porque

porra,

se eu não posso ser

rainha

da minha sala

que puta de merda eu farei na rua?

 

 

Minhas janelas são sem cortina, tá tudo lavando, o que é bem normal em apartamentos de cidade grande. Minha

casa

tá pelada e hoje a tarde me bateu uma vontade

de trocar de roupa bem na  frente da janela, o que é que tem?

um par de tetas não é lá grande coisa

prum vizinho que me olha da esquina.

 

 

Fiquei de jeans sem blusa

pelo tempo de um cigarro na varanda.

O corpo nu é sempre um alarde.

 

 

eu não entendo porque as pessoas se ofendem mais

com bundas

do que com elas mesmas.

Outro dia, pra tu ter uma ideia, fui à uma loja de cosméticos e a moça,

uma tetéia,

tirou de mim a maquiagem, na frente do espelho,

pra ver se a nova base que eu comprara

caia bem na minha pele.

A moça  me pegou de surpresa, me deixou de cara limpa, eu mal conseguia olhar no espelho, tive náuseas,  a tetéia

me fodeu,  arrancou de mim o que me esconde e eu, porra, fiquei mais nua sem rouge

do que sem blusa.

 

 

Sai da varanda, fui pro quarto.

liguei meu abajur em meia luz.

seis da tarde e tu

me ligando

feito louco.

Não atendi  teu telefone.

Ouvi de ti tantas coisas de ontem que queria mesmo

era ficar sozinha.

Coloquei na vitrola o jazz que me faltava porque o blues, baby, esse me sobrava.

A vida

às vezes

é

tão

pesada.

Eu só queria ir ao cinema sem ter que pensar nas mil coisas que vão desde o preço do estacionamento

até a cor do sutiã que combina ou não com a blusa.

Meu deus.

Eu só queria ir na porra

de um cinema

ler o Hank e te mandar

pra puta que pariu.

girl

A homenagem

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Estava dirigindo quando me veio você.  De Bob Dylan no carro plus o cheiro da feira que fiz pela manhã. Fim de tarde, tipo as seis, meio sol  meio chuva, bem do jeito  que era quando a gente se encontrava.  Fazia um tempo, até, que eu não lembrava de ti. É que terminamos mal, cê ficou puto e me chamou de puta. Eu não queria mais te incomodar. Te tirei da cabeça.

Aí hoje a tarde, eu e um amigo estávamos conversando sobre beijo. Na boca. Ele fez umas confissões engraçadas e eu também, sempre há aquele tempo em que a gente é muito jovem e só faz merda. Depois a gente cresce. (e a merda aumenta.)

Acontece que todo esse assunto, de amor e coisas carnais, ficou em mim e me veio você. É que, porra, nossos beijos eram coisa de outro mundo. Abrir minha boca na boca de alguém nunca foi tão delicioso. O jeito que cê me tocava o peito enquanto passava a língua na minha e aquilo não acabava, durava tanto, o tempo que fosse, era muito gostoso, eu sei que você tá puto, mas a lembrança do teu gosto, baby, me deixa um tanto molhada. Quem te ensinou a amar assim? Meu Deus. Sou tua, vem. Não nos apaixonamos, eu me lembro, nosso beijo era suficiente por si mesmo, um caso a parte que quase pedi em casamento, só pra ter tua boca na minha quando eu bem precisasse. E preciso.

Paro no farol. Tem câmeras por toda a parte. Coloco minha mão dentro da calcinha. Me toco com a sua velocidade e fecho os olhos como se tua barba estivesse aqui, no meu pescoço. Imagino tua voz rouca me dizendo coisas que não aguento e tua mão, decidida, apertando a minha coxa. Minha bunda.

O Farol abriu. Merda, preciso de só mais um instante, só mais um segundo e eu….ahhhhh. ai..aaai.hummn.

Entre buzinas e freios, xingaram minha mãe de puta.

Não, gente, calma. A puta aqui sou eu.

O farol fechou de novo.

Quarta de cinzas

Bom mesmo tem sido essa sensação de mudança que me assola.  Essa intuição de que as coisas

(empoeiradas since 1987) 

vão sair do lugar,

trocar de cômodo,

de cor,

de cova.

Outro dia mesmo, pra vocês terem uma ideia, acendi meu cigarro

no fogão.

 

Vida rima com mudança . Por isso, nego

tudo o que for acomodado

atravancado

estático de dar desespero.

Quero o movimento, a surpresa,  a não-

rotina, o não-

diagnóstico: se é pra morrer, meu chapa

tudo bem, eu morro. Não me interessa saber o motivo.

 

Não duvido de mais nada. Nem de deus e muito menos do filho da puta que matou um cachorro na praia

só porque,

vejam vocês,

o dog estava atrapalhando os banhistas que jogavam frescobol. Estava atrapalhando

porque pegava a bolinha e não soltava, ficava brincando, queria atenção  

e morreu por isso, em meio a bundas encharcadas de filtro

solar  para

evitar o câncer

Percebem? Prum filho da puta, o motivo é o que menos importa.  E o escroto ainda comemorou o ano novo, teve a pachorra,

bebeu com os amigos e o cacete, rumo a podridão. Um brinde aos porcos, feliz doismiletreze.

 

Nojo.

 

Ainda bem que é tempo de mudança. Começo um novo emprego na segunda. O biscoito é fino, em bairro nobre.  Dessa vez eu me dou bem, juro. Parece até que acredito no futuro quando uma brisa de esperança

quase toma conta de mim.

 

Mas é só olhar pela janela e a gente entende que as coisas,

elas podem mudar o quanto quiserem.

However a merda, essa continua

sempre

a mesma.

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