Um conto de natal

 Dois dias, só 2, para o natal e essa guerra toda me enlouquece.

É muito ego, baby.

É falta de lucidez, entende? É hipocrisia e eu fico apavorada

aqui do alto

do meu apartamento, tomando sucrilhos,

eu me apavoro e não entendo

porque é tão difícil pra ti

ceder um pouco

ouvir o outro

viver de paz.

É preciso tanto grito? Hey, olha pra mim: vamos ser mais baixos, vem. que o teu volume é como uma maquiagem carregada, tu vira um palhaço, quando

só o que tu queres é ficar mais bonita.

com esse barulho todo, baby, cê está se fazendo ouvir

uma ova.

Está todo mundo se afastando, será que tu

não percebe?

Cinquenta anos e não percebe?

Só tua palavra é que importa,

tua alegria

Tua dança tem mais ritmo

mas

e o outro?

Foda-se?

Mulher, você precisa mudar antes que cê morra

sozinha, mesmo que cercada de gente.

Ninguém te deseja assim.

Hey, olha para mim: pare de gritar.

Teu caminho é o silêncio.

Presente e dinheiro no natal é bacana,

bem bacana,

não nego.

Mas acontece que tu tá deixando tudo podre,

tá tudo triste e tu sorrindo,

dando presente.

Hey, olha pra ti: tua maquiagem tá escorrendo

derretendo

tá grudando no teu cabelo

e eu, do alto do meu apartamento, já posso sentir teu rosto quase

nu.

Não é um rosto belo, nem de longe, mas é um rosto

cansado que ainda conserva

algo de humano. 

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Uma mulher, segundo si mesma

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Das obrigações estou farta, exausta do que me nega 
do que em mim se repete 
dia
após
dia

Não aguento mais minha cara. Essa cara que não combina comigo, que não escolhi em nada, que não me interessa em nenhum traço, e nem meu corpo, que a vinte e cinco anos me persegue, me esconde. E me fode. 
Me aborreço com uma intensidade suja, em pleno contraste com os sinos
de natal e com as promessas de um ano 
novo.
Preciso de um pouco de espaço.
Estou cansada 
de tudo me que tira 
o gosto do café da esquina, de tudo que me furta da embriaguez 
e da boemia. 

Choro ao volante, poluo o meio ambiente e não faço esporte. Mais um ano que se passa e eu
simplesmente
não fiz nada a respeito daqueles sonhos, no máximo,
planejei uma viagem 
que não fiz, 
faltou dinheiro, 
aquela merda.
Estou ficando velha
com pouca idade, meus amigos me disseram
estou ficando azeda mas ainda tenho espinhas, quando o que eu deveria ter
são as linhas 
de expressão, sou 
atriz. 

Ainda bem que tem você, com sua língua 
milagrosa.
Se não, 
nem sei.
Cada lambida tua é um ano a mais que ganho 
Ontem mesmo, quase fizemos amor no chão de locais imundos
E sabe que, com ontem, eu ganhei uns dez ou doze anos a mais 
de vida.
Obrigada. 
O mais incrível é que cê me deseja. Cê acha minha bunda linda e disse que mesmo pequena 
eu era maior que tu.
Tu me deseja, eu sinto, mas não entendo como teu pau fica duro ao meu lado. Nesse mundo, sempre tem alguém que não concorda 
nem um pouco 
com você. 
Sorte minha, amor. Estou farta de espelhos.

 

Devolva a minha calcinha (antes que o mundo acabe)

Em meio ao caos de dezembro

(que é sempre um tempo

intenso)

abraço amigos queridos que digo que amo. E amo mesmo. Nessa época do ano, a gente fica com sentimento de mundo. Eu,
particularmente,
fico de pele em flor, com choro quente na manga. É que estou fechando ciclos, abrindo outros, pisando em ovos. Estou entrando em fase business, baby. Não sei se é minha cara, não sei se eu dou conta ou até mesmo se vai dar samba. Sou da arte, mas tenho medo. Medo, como todo mundo. Se pareço confiante, é porque sou amante da vida. Mas se quer saber de uma coisa, eu te conto: a gente nunca sabe.

Mesmo.

Nem em dois mil
e treze
ou até depois de Steve Jobs.
A coisa toda é um mistério, a vida só faz charme e o tempo, bom…
o tempo
é de tentativa.
Ontem foi foda, senti saudade antecipada. É que quatro anos não é brincadeira. De tudo que aprendi e não foi pouco, de tudo que sonhei e não foi fácil, levo comigo meus amigos. Meus lindos,
doces
amigos.
Me sinto lotada
de medo e questões
(tão nossas)
como: quem sou, pra onde vou, de onde venho, pra que tanto dinheiro, porque hoje e não amanhã, quando a gente morre vira estrela e etc, e etc, e etc.
Acho que agora,
Especialmente,
ninguém mais me segura.
A parte triste é que você não mais me adora. Me odeia, me despreza, me acha suja. Não me entende, nem me desculpa, dizem que você não pode ouvir meu nome. Porra…
Me perdoa.
Eu estava desesperada, te procurando em outros corpos. Queria, de você, mais um pouco, você não dava. Estava doente, de amor, de ti, de abandono. Entenda o efeito que cê me causa. Respeite minha loucura, você me deu o osso e depois me tira, eu fiquei bruta.
Carente.
Se fiz o que fiz, foi de saudade. Nunca quis te fazer chorar. (Apesar de que chorar é bom, tira o vício dessa mania boba de século vinte um, em que todos devem ser felizes cem por cento, bem alimentados, evitando o câncer e a fadiga.)
Se te fiz chorar, está feito.
Só espero que essa mágoa passe.
Repense.
Não seja careta ou vulgar.
Não quero viver o fim de ano com você me odiando. Mas entendo seu tempo. Só não esquece que eu te amo e que o mundo acaba em breve, pra de novo se construir em dias, que podem ser extremamente vazios para aqueles que não veem além do próprio pinto.
Pior que acabar o mundo é acabar sozinho, num quarto de hotel. Você também já fez isso antes. Você colocou uma loira na minha cama. Eu nunca te culpei. Agora é tua vez.
Não me culpe ou
me (des)culpe
que a vida só faz charme e o tempo, bom…
o tempo é de fim de mundo.
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Confissões de um safado

Se entregar aos prazeres da vida nunca foi 
lá muito seguro. 
Por isso, 
pra não correr riscos, 
nos reprimimos dia a dia
bem devagar
achatando o que há de lindo 
no gosto 

da experiência.

Nos poupando, é bem verdade que a vida 
fica mais fácil. 
Mas aprendemos pouco, 
bem pouco, 
ao vivermos assim. 

Se entregar aos prazeres da vida 
e respeitar as nossas vontades 
(por mais loucas que sejam) 
nunca foi tarefa simples.
É um ato de coragem 
permeado pelo acumulo de falhas
E de inimigos
E de alguns corações partidos mas, pelo menos,
estamos vivos.

Que todos vão te amar
Pode estar certo que não.
Que irão te entender ou perdoar
muito menos.
O máximo que irás conseguir
É uma meia dúzia de admiradores patéticos
E nunca mais ser esquecido
Para ser sempre lembrado
Como aquele que não tem limites
Que é o sacana libertino
o hipócrita que
não vale 
o centavo que come.

Calma minha gente
que eu 
estou 
também 
aprendendo.

A vantagem
Se for vantagem
É viver o que se diz
a flor da pele
Conhecendo os outros
e a si mesmo
num jogo infinito
e intenso
pois 
enquanto eu tiver instinto
Não preciso de cerveja.
Minha droga é o risco. 

Cada dia eu me descubro mais podre
e mais humano
e nem um pouquinho diferente 
de nenhum de vocês.

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