As uvas amadurecem no outono

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Tenho (re)conhecido mestres que admirei vida adentro, seja de livros, seja de rodas de amigos, de bares ou de bibliotecas.

Tenho, nos últimos dias, conhecido gênios. Eles falam de mulheres

e de bebidas

e de amor

e de sexo

e de como foder em uma noite escura

ou como uma foda pode salvar uma vida.

Trago em fumaça uma nova poesia.

Tenho lido muito, visto muito e já

não consigo nunca

vestir uma roupa sem metafísica.

Até o cinema, ou mesmo meus sonhos,

e já na hora do chá das cinco, penso nos velhos mestres que tenho (re)conhecido nesses últimos dias, e que estão sugando meu ritmo.

Meu Pulso.

 

Me olho no espelho pela vida.

Paro

mas não me preocupo

porque vejo nascer aqui, nessa cara de menina,

uma mulher mais noturna.

Mais safada.

E que acredita cada dia menos que poesia

vem das flores.

A poesia, meus caros, é urgente.

vem do sangue.

O gole

Sinto saudades

tantas

de ti

 

Disso, ganho dos deuses o poder de congelar

o Tempo

(pelo menos o tempo dos nossos beijos)

Tenho doses diárias de ti,

tu sabes,

teu gosto me curva a espinha,

dos nossos segundos nunca esqueço,

dos nossos cinemas,

da nossa Augusta,

que eu muito gosto,

tu devias é morar lá,

comigo,

que eu te espero,

sempre as seis,

pra jantar(te),

juntos,

ver a lua

e olhar nos olhos as novas pintas que ganhamos, nos últimos meses,

que não nos vimos,

nus estamos,

cê foi a praia?

engordou um pouco.

cê ta lindo,

me passa o copo,  

eu não quero,

vem aqui,

cê tá louco,

eu te amo.

 

Cheiro, dia a dia, o livro que cê me deu(s),

só que mais

(bem mais)

pela manhã.

 

Será que tudo isso de você

não me passa?

 

Ai de mim que preciso de um drink

de um trago

e de um beijo teu.

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Carta de um ex-suicida

Como num pé vento, de repente, minha vida virou do avesso. Não estou reclamando, repare bem. Estou aprendendo. E acho lindo a maturidade. Sei bem que dói mudar, dói pra caralho. Mas de que adianta viver de aparências? A essência não muda, entende? Por mais que você finja que, – está sim tudo muito bem amor, e com você?- lá dentro, no fundo mofado das coisas, lágrimas se corroem pra nunca mais. Que não tá fácil nem um pouco pra ninguém, isto minhas olheiras já não negam. Mas prefiro sofrer de rompimento do que de vazio.

 

(eu brincava de imaginar meus dias contigo daqui uns anos.)

To tomando na cara, a vida tá me dando o troco pelo silêncio que mantive em anos. É uma dor do cacete, mas pelo menos estou vivo. De uma guerra, não se levam flores. Se levam corpos.

Escuta, eu não vou desistir do amor, fique tranquila. Cada historia é única, não se repete. Eu não me repito. Tudo é outra coisa, e a vida gira, e a gente luta e se transforma já no ponto em que não se reconhece mais no espelho, seja pela ruga encravada na testa, seja pela boca sóbria carente de riso fácil.

(Já não me lembro da última vez que rimos juntos.)

Pra mim chega. Mulher, você precisa aprender a escutar essa palavra sem drama: Acabou.
As coisas acabam mesmo. O amor também. Achava que não, mas acaba. E não por isso deixaremos de tentar de novo. Não vou deixar de acreditar porque acabou. As pessoas também podem ser felizes sozinhas, ora! Claro que para uns é mais difícil que para outros. A solidão é amarga, mas a gente aprende. E eu aprendi que não te amo mais.

Culpa?
Não há, que o buraco é mais embaixo. O buraco é sujo, podre e cheio de baratas. Entre os insetos não há culpa, há instinto.
Você precisa aprender a ouvir isso sem drama.

(Toda vez que te olho não te vejo)

É o luto da nossa luta de trinta anos. Morro de nós, para renascer novo homem. Mais feliz, quem sabe, eu simplesmente não sei.
Mais vivo, pelos menos, disso
eu sei.

(Queria ter ido a Buenos Aires contigo. Pena você ter medo de voar.)

Trinta segundos

Imaginei que te encontrava no elevador. Me olhei no espelho de relance, pra saber se eu ainda dava um caldo as onze da noite. Mas quando abri a porta e vi que era mesmo tu, tomei um susto! Sempre fui intuitiva, mas dessa vez… dessa vez fui longe demais. Te olhei calada, com vontade de entender. Tu me olhou com fome, sem aquela discrição burocrática tão comum entre vizinhos. Fiquei sem graça, com os olhos fixos no interfone. E tu me avaliando, de cabo a rabo, se lambuzando. Ainda bem que fiz as unhas, imagine só. Não quero te parecer feia em nada, baby. A respiração ficou pesada, a minha por nervoso, a tua por tesão. Quando chegou no meu andar, mal tive forças pra abrir a porta. Soltei um tchau bem rouco, que muito pouco nos convenceu. Tu só me olhou em silencio. O elevador subiu contigo, uma pena. Peguei a chave de casa e abri a porta (muito mais pra ti do que pra mim.)

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Pecado origimeu

Das armadilhas,

me enrosco,

me engasgo,

me cavo

mas sempre

me saio mais viva.

E mais (d)esperta

a respeito da volta

das coisas de ida.

 

Sei lidar não,

só sei mesmo ser.

Na paz da paixão me levo,

mas fujo.

É que Nasce dos prazeres,

o pecado.

 

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