O GRANDE

Hoje
um cachorro
morreu.
 
 
Era um bom cachorro,
de linda família.
Morreu assim, de morte
morrida
(porque
de vez em quando
parece que chega mesmo a hora
de partir dessa coisa
quente
a que chamamos de
vida.)
 
 
Hoje um cachorro morreu.
O vi duas ou treze vezes, no máximo
Mas conhecia seu olhar
porque reconhecia nesse olhar o castanho
do amor.
 
 
Era um bom garoto, esse cachorro
só tinha tamanho.
Era ele borbulhado de amor
transbordado de amor
em focinho,
pelos
patas e poros.
 
 
Era um bom cachorro, esse menino
Gostava de abraço
E de ficar junto e de tirar
fotos
E de dormir ao pé da cama
E de ir ao parque
Pra tomar um ar
andar um pouco
E, quem sabe,
até ser feliz.
 
 
Era um menino e tanto, esse garoto.
Morreu,
mas não devia
Porque ele ainda tinha
Muito sorriso
pra abrir
 
 
Sobrou um tanque de amor
Depois que ele se foi.
 
 
Que esse cachorro morreu importa pouco diante da grandeza dele já ter existido.
 
 
Hoje
é dia de silêncio
 
 
Sobrou saudade
Um tanque
De saudade
Depois que ele se foi.

Ao Sabiá

Já não mais durmo pronto
deitada que estou
nas questões de vida
adulta.
Varo noite pela lua
sonhada que sou
nas questões de vida
avulsa.

Que não tenho
{nunca mais}
uns oito anos
Disso minha olheira já me disse.
E me disse também das dores
E de como os adultos se esquecem
E de como os adultos trabalham
E calam
Por toda vida
Ó cosmos, estrelas e nuvens
Por favor, não me deixem esquecer
de como é bonito chorar
de como dá frio na barriga esperar um novo amor
na porta do cinema
De como é imenso sonhar e dar vida ao que não tem, tipo quando eu era menina e humaniza as frutas antes de comê-las, e depois também, como se lá dentro da minha barriga existisse um parque de diversão para alimentos.
E existia.
 
Quero meu lúdico sempre fresco,
visionário.
Para além do trânsito eu
Não quero esquecer de olhar pra lua.
Nem uma noitinha sequer. 
 
 
Mesmo que eu tenha problemas bancários
ou mamários.
Que a graça da vida nunca me escape.
Que não me falte o senso nem o humor.
Que jamais eu me faça de vítima.
Quero ser livre, o mais livre possível,
dentro da miniliberdade de meus passos.
E o mais importante: que essa pequena que habita o quentinho do meu coração
jamais me deixe sozinha
com essa adulta ocupada que habita minha pele.
 
 
Quero olhar para lua sem esquecê-la nenhuma noite sequer.
Sempre
e até o último dia
de minha vida.

Isto aqui não é Alemanha

Estou me sentindo um bagaço. Feia, envergonhada, um lixo de mulher. E isto é culpa da gula de vida que ando tendo ultimamente. Ainda morro pela boca com essa minha mania estúpida de querer ter tudo ao mesmo tempo. Quanta arrogância! Quando vou entender que o excesso não me leva a nada? Fora que nem todas as pessoas are meant to be together. A verdade é que vivo buscando resquícios teus, em novos corpos. Fico procurando teus beijos ou querendo que a nossa velha historia se repita nas mesmas ruas. Quando vou aprender que tudo se transforma o tempo todo? Nunca mais terei o que tive pelo simples fato de que passou. O tempo p-a-s-s-o-u e eu estraguei tudo. Peço desculpas pelos desconfortos e possíveis tristezas que causei. Sou uma idiota que vive o carpe diem a flor da pele. (e tenho que te esquecer pra não mais me machucar.)

Você sabe o que é beijar alguém que não quer te beijar? Alguém inerte a tua presença, ao teu toque? Me senti uma vagabunda, enquanto eu me esfregava no teu corpo seco de mente longe. Nunca tinha passado por isso antes. Do alto do meu ego, todos os meus beijos foram correspondidos no latim. Até os teus, que sempre foram deliciosos. Mas não nessa noite. A gente foi de norte a sul, em semanas. Do céu ao inferno. Como pode tudo mudar tão rápido? A velocidade da vida me assusta.

Agora que teu perfume ficou em mim, estou um pouco desgostosa. Porque você me tratou tão frio que o teu perfume agora me incomoda. E pensar que, dias atrás, ele me deixava louca.
O que é sentir algo por alguém? Porque tudo é tão frágil? Quiçá daqui uns anos você me procure dizendo de saudade, não sei. A vida não tem pressa, muito menos você. Você é livre, gosto disso. Gosto porque não sou. Você é bonito também, do tipo óbvio. Mas não estamos apaixonados. Como se fosse fácil brincar de amar… Mas é que, ás vezes, eu gosto do jogo. O jogo da paixão. E contigo, errei na tática. Que você é livre de horários e não gosta de carros, eu entendo e me desculpo. Não queria te magoar enquanto você me apalpava. Mas saiba que eu gosto de aventura, sou do risco. E talvez por isso, mesmo que cheia de horários, eu seja mais livre que você.
Não fomos assaltados e poderíamos ter sido. Mas não fomos. Eu entendo o perigo, mas prefiro o medo vivo do que o conforto inerte. É só uma questão de ideologia, baby. Logo passa.

 

 

A FÁBULA DO ESCRITÓRIO

Imagem

buzino meu carro

pro cara da frente:

reclamo,

xingo,

clamo.

o telefone toca:

alguém bate a porta.

Tomo susto e derrubo coca

Na bolsa da madame estridente

Corro, em busca dum pano de prato

enquanto meu salto

pinga alto

nos corredores de madeira

do taco

que um dia,

num

belo dia

já foi árvore:

 

 

A árvore.

 

 

de todos os barulho desse mundo

o mais bonito é o silêncio