Setembro

Que a vida perde a graça quando alguém se vai, disso eu já sabia. No entanto, o saber é muito diferente do sentir. Já tive perdas, de avós e cachorros, inocência e passarinhos. Mas aconteceu diferente, dessa vez. Bateu diferente. Até porque, hoje em dia, penso mais sobre a morte. E a entendo cada vez menos.

É que partir mais velho parece um consolo pra quem fica, soa como algo natural,  já que morrer todos vamos. Devíamos, por lei, morrer sempre de velho. Morrer de jovem é o maior vazio que pode existir. O maior.

Não a conhecia tão bem, poucas palavras trocamos. Sabíamos quem éramos, e só. Não tinha mais pensado nela desde a última vez que nos vimos(e duvido muito que ela pensara em mim). Não era minha amiga, nem nutria por ela alguma admiração em especial. Não marcamos a vida uma da outra, nem de longe. No máximo eu a achava doce, feito nuvem.

Mas agora que fiquei sabendo a queima roupa de sua morte súbita, sinto-me quase culpada. Ah, se eu soubesse que ela iria tão logo, talvez teria tentado me aproximar mais! É que eu pensei que tivéssemos tempo. Pensei que a vida era longa. Imaginei um: Quem sabe um dia não nos trombamos em algum palco? Mas não deu tempo, a Morte chegou pro jantar. Será que ela não se enganou? Ainda é tão cedo… A Morte deve estar arrependida. Mas acontece que depois que se vai, não se volta. E a vida fica assim, com essa cara de bunda. Sem sentindo nenhum pra quem fica. Haja força para tentar voltar pro eixo. Estou em slow motion, no silêncio do desespero. Não encontro razão pra sorrir. Talvez no amor. Quem sabe.
Fico lembrando do jeito dela o tempo todo. Da sua delicadeza, da pele branca com pintinhas, dos sorrisos que ela dava de canto. É como se, depois da morte, eu a conhecesse melhor. Nos tornamos tão próximas, desde de sábado. Agora, eu a amo. Amo o mundo e desejo que nunca mais ninguém morra. Ninguém, nem os corruptos.
E também, ordeno aos deuses que ela volte. Houve um engano, não percebem? Algum anjo, por favor, a traga de volta! Não preciso vê-la nunca mais contanto que eu saiba que ela está viva.

Mas ela não volta,
Porque ninguém volta
nunca

Choro pelo tempo perdido e pela saudade que sinto de alguém que mal conheci.
Nos igualamos na morte já que o destino de quem vive é sempre o mesmo.
Não, não é um pesadelo. É setembro, e a primavera não demora.

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