5.040 horas depois

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O (esperado) dia do encontro chegou em setembro

E chegou preenchido da velha intimidade (que em nada se parece com os

tão nossos

setembros

de antes.)

Mas sabe de uma coisa? Não me lembro de já termos conversado com tanta alma.

Eu não disse que era apenas um silêncio?

Prazer você, meu nome é eu.  

 

Não dormirei essa noite

Ficarei pensando na pessoa maravilhosa que (re)conheci

Você é outro, eu sou nova e mesmo a rua que pisamos em anos passados

já foi pisada por mais de cem mil

novos pés. 

Em meses de silêncio,

Quantas fotos

Quantos mares

Quantas lágrimas

E descobertas  alcançadas

E cigarros, e cafés, e tombos e doses

de whisky com energético,

E poemas  e músicas,

Ou a correnteza  de acontecimentos

Que a vida é

e que não nos testemunhamos, simplesmente,

em nenhum.

Somos outros, eu e tu

Remontados.

Em novos rins, nem a respiração nossa

não mais bate junto: bate outra.

Não me entenda mal: Nunca tivemos tanta sinfonia

Como agora.

que amei ter te visto, não te nego.

Só me rasgou a pele constar que não estamos mais apaixonados

(porque em sonhos eu pensava que sim)

Mas me arrancou o sorriso dos olhos

perceber que, claro, ainda nos amamos

ainda e mesmo assim.

 

O tempo, esse demônio,

revira

e transforma qualquer sentimento

em pura dispersão

de átomos

Menos o amor.

O amor nunca.

Prazer você, meu nome é teu.

 

 

 

 

Tango-me

the way I feel

when I listen

to
é como quando
se nasce
claro que não me lembro,
ninguém

jamais se lembrou
É que coisas felizes
São assim mesmo:
Apagam-se
pelo excesso de amor.
Só fica, assim, de memória
o arrepio da experiência doce
qué trazida e levada
pelo sonho
das águas
Explico:
É como se o ritmo
tivesse uma mão
que me revira por dentro;
inverte meus órgãos e
faz uma
bagunça boa no meu
coração
É como uma nova ordem
que funciona melhor,
bem melhor,
do que a da antes. 

Tenho vontade de colher flores,
Todas as flores desse mundo,
Pra soltar o cabelo e dançar descalça
Até que eu
Doa muito
sue muito
e me perca
fundo
dentro de mim

 

No compasso de dois
por quatro
Alcanço o nirvana
absoluto:
Sem luto
escuto

e posso voar

Eu devia ascender um cigarro

 

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que eu não fumo

importa pouco

muito pouco

 

do cigarro

não quero

o trago

quero o tempo da fumaça

pra poder pensar na vida

com mais graça

antes que a rotina engula o ócio. 

 

o tempo da fumaça

me interessa

que eu não quero já ter pressa

nunca mais.

Tava de choro pisado

Sufocado e amarrado

por dias

só porque não havia

um tempo bom pra chorar.

 

Rezo, pois, pra Dionísio

Por uma vida vagarosa

e sem juízo.

 

Já que o pódio

em mim é tédio

eu fico com café de coador.

Em vida mansa, um livro pleno

deitada numa rede de tricô.

Fale menos, sem alardes.

Não me avise mais

se é cedo ou tarde

que só o tempo do sonho

me interessa.

nunca o prazo.

nunca o raso.

 

do cigarro

não quero o trago

quero a metafísica

 

 

 

 

E quero teu pelo nu,

Prum sexo de nuvens gordas

Que o corpo aprende lindo,

mais lindo

do que a mente.

 

 

Na fumaça do cigarro que não fumo

a Angústia e a Augusta

me lembram bem você.

 

Se era amor

Baby

Sempre ainda o é.

Setembro

Que a vida perde a graça quando alguém se vai, disso eu já sabia. No entanto, o saber é muito diferente do sentir. Já tive perdas, de avós e cachorros, inocência e passarinhos. Mas aconteceu diferente, dessa vez. Bateu diferente. Até porque, hoje em dia, penso mais sobre a morte. E a entendo cada vez menos.

É que partir mais velho parece um consolo pra quem fica, soa como algo natural,  já que morrer todos vamos. Devíamos, por lei, morrer sempre de velho. Morrer de jovem é o maior vazio que pode existir. O maior.

Não a conhecia tão bem, poucas palavras trocamos. Sabíamos quem éramos, e só. Não tinha mais pensado nela desde a última vez que nos vimos(e duvido muito que ela pensara em mim). Não era minha amiga, nem nutria por ela alguma admiração em especial. Não marcamos a vida uma da outra, nem de longe. No máximo eu a achava doce, feito nuvem.

Mas agora que fiquei sabendo a queima roupa de sua morte súbita, sinto-me quase culpada. Ah, se eu soubesse que ela iria tão logo, talvez teria tentado me aproximar mais! É que eu pensei que tivéssemos tempo. Pensei que a vida era longa. Imaginei um: Quem sabe um dia não nos trombamos em algum palco? Mas não deu tempo, a Morte chegou pro jantar. Será que ela não se enganou? Ainda é tão cedo… A Morte deve estar arrependida. Mas acontece que depois que se vai, não se volta. E a vida fica assim, com essa cara de bunda. Sem sentindo nenhum pra quem fica. Haja força para tentar voltar pro eixo. Estou em slow motion, no silêncio do desespero. Não encontro razão pra sorrir. Talvez no amor. Quem sabe.
Fico lembrando do jeito dela o tempo todo. Da sua delicadeza, da pele branca com pintinhas, dos sorrisos que ela dava de canto. É como se, depois da morte, eu a conhecesse melhor. Nos tornamos tão próximas, desde de sábado. Agora, eu a amo. Amo o mundo e desejo que nunca mais ninguém morra. Ninguém, nem os corruptos.
E também, ordeno aos deuses que ela volte. Houve um engano, não percebem? Algum anjo, por favor, a traga de volta! Não preciso vê-la nunca mais contanto que eu saiba que ela está viva.

Mas ela não volta,
Porque ninguém volta
nunca

Choro pelo tempo perdido e pela saudade que sinto de alguém que mal conheci.
Nos igualamos na morte já que o destino de quem vive é sempre o mesmo.
Não, não é um pesadelo. É setembro, e a primavera não demora.

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