A NEUROSE D’UM CINÉFILO

Em uma roda de amigos, num fim de semana em comum, um sujeito me pergunta a queima roupa:

– Aline, você gosta de cinema?

Desprevenida, me abalo e não disfarço. Suo, nervosa, da testa ás costas. Balbucio sílabas ao vento (que formariam palavras só em meus pensamentos.) Prevejo a cilada e, amarga, peço arrego:

– Gente,  vou ao banheiro.

 

Se tem uma coisa que eu odeio é responder perguntas. Gosto da conversa, claro, não sou das cavernas. Mas odeio essas perguntinhas do nada, que saem da manga daquele que era o mais calado da roda. Como responderei a essa pergunta de forma verdadeira? Sim, porque as pessoas se acostumaram a mentir em público, fazer média, dissimular pra nunca terem que conversar sobre as coisas que realmente importam, como o amor ou a morte. Desculpa, mas eu não sou assim. Se tiver que responder uma coisa, ora, eu respondo de verdade. E se eu disser simplesmente que gosto de cinema ( como 90 por cento da população diria) seria pouco, muito pouco, uma puta de uma ofensa. No entanto, se eu disser que amo… Olha, eu deixaria mamãe furiosa, já que pra ela digo eu  a mesma coisa. Mas também, se eu disser que adoro, seria no mínimo muito estranho. Afinal a veneração sempre nos distancia do ser adorado e eu, poxa, me sinto tão perto do cinema! Como se ele fizesse parte do meu corpo, assim como a poesia ou o teatro. Na verdade, é muito difícil falar de algo que realmente amamos. Escuta, eu não quero ser  dramática ou leviana, muito menos sensacionalista. Só quero o verbo certo, que abranja e não mistifique minha relação com o cinema, que é doce e densa,  assim como a vida.

Como a vida?

Claro, como a vida!  

Todos os personagens que, muito mais do que histórias, me contaram seus segredos. Tenho um pouco do que me serve de cada um deles. De Chaplin a Tarantino: Um tanto de todos pulsa em cada vértebra minha. Se sou o que sou é pelos filmes que vi, ou vivi. E também os que nunca vi, só sonhei, mas que estão enlaçados nos outros, e mais outros, e mil outros, formando sempre o bonito encontro de todas as histórias do mundo. É que o cinema, Kiddo,  nos entrega de bandeja o que de mais humano tem na vida: o direito de sonhar.

 

Volto pra mesa resolvida. Me aconchego ao lado do sujeito responsável pelo meu  desassossego. E sussurro, olhando-o seriamente nos olhos:

 

– Tu já viu aquele filme, A Rosa Púrpura do Cairo?

 

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Depois daquela night

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E o beijo, quem inventou?
Afinal
Somehow
alguém um dia
decidiu, pela primeira vez,
encaixar a boca
na boca do fulano da frente
criando assim,  de repente
O ato mais bonito do mundo.
 
 
Pros internautas metido a cult,
Aviso logo de cara
que não me venham com: ai, o beijo vem de Atenas ou de Pireus…
Porque eu
Quero nomes, não cidades.
Claro!
Porque não creio que beijo
Seja inato tal o sexo.
O beijo é apetrecho inventado
Numa noite de inspiração
Ou loucura
E foi coisa d’um poeta, estou certa!
um bon vivant
apaixonado
pelo trago
de mulheres macias.
 
 
O sujeito, portanto,
Salvou o mundo do tédio barato
E a humanidade nem deu pelota…
Ah, esse ilustre desconhecido!
Esse herói subversivo e destinado
ao bolor do anonimato!
 
 
Na escola
estudamos descobridores
da eletricidade,
da matemática,
do Brasil
da puta que te pariu
Mas do beijo, nunca.
Quando deixaremos de ser tão caretas
E nos preocuparemos
enfim
com as coisas que realmente
importam?
 
 
Mas não se chateie, querido inventor: Deixe estar.
Perdoe-nos e eu lhe agradeço
publicamente
em nome de toda a humanidade:
Obrigada por aquecer
Paixões
Poemas
Baladas
Infância
E principalmente
por trazer o lírico do love
Porque sem você, anônimo,
O amor seria sexo
E o sexo seria estúpido.

Da psicodelia moderna

Sou uma romântica sem causa

minha mente é lírica

meu corpo é lúdico

e meu sonho é doce.

Tudo que vivo na pele

vira verso na
prosa e

não é que o teto

de madeira

parece mesmo de chocolate?

Não,

não tomo ácido.

É só que ando vendo

muito filme em 3D.

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Manifesto da vagina

ImagemDepois de anos pensando 
se não seria muito ousado,
decido, do alto dos meus vinte anos, 
que devo tirar a calcinha.

Nervosa e discreta
Cometo o polêmico
E retiro aquele pequeno 

pedaço de pano.

Depois, 
pego minha bike 
e pedalo pecadora.

De vestido,
Sorrio do vento em polpa
que brinca leve pelas saias
De minha coxa. 

However não se engane:
Que esse poema 
não é erótico
Antes, 
é a libertação do sexo, do meu sexo, particularmente preso 
desde o berço.

Meu sexo, que já passou
Por talco e fralda
Calcinha e tanga 
Maio de natação
biquíni de verão 
tecidos e mais tecidos
sempre cobrindo
sempre tapando 
e nunca mostrando
o que de mais belo tem 
a mulher.

Agora chega.
Pelo menos uma vez na vida
o sexo 
deve ser livre.

Sem calcinha
Sinto o mundo todo 
entrando dentro de mim
Como se, de repente, tivesse eu 
engolido a vida
pela boca da minha coxa

Sem calcinha 
fico mais atenta
ás pequenas, sempre lindas,
sensações do corpo
Desafio 
os caretas de recalque
a rotina da cidade
e faço guerra 
no silêncio dos meus pelos púbicos 

(que agora também são públicos 
e talvez até mais puros.) 

Me sinto fêmea 
como a morte
Forte 
como a vida.

Sem calcinha, 
sinto 
Sinto e sinto muito 
por todas as mulheres que ainda 
não tiveram seu dia de glória.

Por isso é que vos digo: 
Mulheres, uni-vos!
Livre teu sexo!
Tire a calcinha!
que isso, meus caros, é putaria uma ova:
Isso aqui 
é uma revolução