O AUDITÓRIO

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Meu alimento
poético
São sempre os outros ou
as coisas que acontecem
Com’ os outros
É uma pena que a minha
poesia
nunca venha
De dentro
 
 
O alimento
Das palavras que escrevo
Vem das coisas que vivem os outros
Sempre o outro
O mais interessante
 
 
A caneta em linha word
E eu inerte
Escrevendo & Escrevendo
sobre vida que alheia a minha
sempre
 
 
Mas agora
Grito na angústia daquele que abandonou o próprio grito,
demasiadamente,
só porque existem outras vozes
melhores ou mais grossas.
 
 
Pois agora grito fina
Com meu bafo de naftalina
E meus dentes de mordida wry
Que talvez deixem minha cara
torta
(mas só aos cinquenta e poucos
anos de idade.)
E se quer saber?
Foda-se.
 
 
Vou ser agora um pouco eguda
E falar sim  da porra dos meus sentimentos
Que não é só O dos outros que me importa
nesse século onde o feed de notícias
é o que mais interessa 
numa rede social
 
 
Enough!
Sou eu agora
que falo das minhas burguesisses
Pro’s 4 fucking ventos:
 
Tenho tcc pra entregar
sonhos pra dormir
roupa pra lavar.
 
 
tenho sexo pra fazer que, afinal, ninguém é de ferro e sim de brasa.
 
 
Tenho moda jovem pra consumir
barriga pra perder
Apartamento pra comprar
Bigode pra tirar
Celulite pra drenar
e vícios
pra combater,
amém.
 
 
Pronto, sou livre.
 
 
Agora sim vou voltar a falar dos outros que a minha little life é mesmo uma merda. 
 
 
 
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SMALL TALK

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Trombar contigo ontem
foi como se eu tivesse trombado
com a felicidade.
Tomei um susto.
 
 
Me lembrei dos nossos tempos antigos em Londres.
Das nossas aulas de inglês.
Do teu ateliê.
De nós dois
pelados
assistindo Laranja Mecânica
pela primeira vez.
Dos jantares que você me fazia
com mortadela, á luz de velas.
Do vinil que você colocava.
Das nossas conversas intermináveis
sobre cinema
poesia
politica.
Ai,
ai miss u
 
Agora você está cabeludo e casado,
morando na vila Madalena.
Eu? Ora…
continuo vivendo
no mesmo apê.
Mas mudei os móveis, viu
ficou bacana.
Me inspirei nas revistas
daqui de Santana.
Também conheci novos amigos
Mas não casei não.
Nem quero, sabe.
acho que essa vida não é para mim.
Acho também que
a vila Madalena
Não é lá muito
a minha cara.
Tô mais pra Alto de Pinheiros.
 
Você me perguntou do teatro,
eu queria dizer da literatura
E dos novos projetos
cê ficaria orgulhoso.
Mas acabei por não dizer nada.
você está mais baixo do que eu lembrava.
 
Depois que cê foi embora,
fiquei cuma tremedeira discreta.
Achei que sonharia com você.
Mas até que não,viu?
Até que não.
Se eu soubesse que iria te ver
teria colocado um vestido.
Será que você me achou bonita?
Mais madura, talvez.
Mais magra.
Será que você pensou em mim?
Será que você pensa em mim?
Em como seríamos, se ainda estivéssemos juntos?
Trombar contigo, querido, me deu vontade de chorar.
 
 
Mas bom te ver,viu?
Ótimo.
Vamos marcar uma breja qualquer dia desses.
Eu te ligo, pra gente combinar.
Se cuida, viu? Tudo de bom e
etc.