3×4

 

O Silêncio
é um menino tímido,
faminto por vida
rara.
 
Ele escancara a verdade
sem palavra
nem gemido.
 
Sutil
na paz semsom,
ele ensina o amor
a amar sem barulho.
E pulsa,
no eco oco da pausa.
 
Amante do tempo,
se diverte no suspenso
das horas.
O Silêncio
é o menino dos olhos de Deus.
 
 

Outono

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A noite estava ótima.
Teve até café, com confidências.
Mas acontece
que o outono chegou,
trazendo a lembrança
de que não te esqueci.
dói, viu.
Rasga.
Esqueço o casaco no carro
enquanto enfrento o fato
da sua falta.
Tremo, de frio ou de ausência,
pouco importa.
Nada importa
enquanto você corta
meu coração, que ainda é teu.
Tenho que me lembrar de te esquecer first thing tomorrow morning.
Mas já que é noite
e os sonhos sempre rimam com a lua,
Sonho.

 

Bed Peace

Paixão.

Esse era o seu lema, sua fé, seu poema.

Intensa, era  atriz e cantora. Gostava de Janis, Jimi e John. Usava jeans sem sutiã.

Mesmo nos dias mais tristes, lá estava ela, viva, lutando a dança das flores.Mesmo nos amores mais frios,lá estava ela, viva, tentando o tango dos corpos.

Ela acrescentava nos dias, acrescentava na vida, que ficava mais quentinha se vivida ao lado dela. Dentre todas as possibilidades, escolhia amar, escolhia amor.Sempre.  Era  um doce a sua presença, uma paz. Tinha a voz mansa, a pele branda, o coração aberto.

Não acreditava em Deus, acreditava em energia. Energia dos homens, da natureza, dos céus. Acreditava na força das coisas do mundo, como a música e o cinema. Botava fé nos artistas, nela mesma, enfim. Era otimista. Sabia que a força da vida estava no humor (ou na flor)

Tinha um metro e meio, andava de bicicleta e respeitava o planeta. Seus longos cabelos morenos odiavam tesoura. Seus dentes eram tortos de uma maneira divertida, o que deixava seu sorriso muito gracioso. Seus olhos tinham o brilho da lua, quando cheia. Era fã de Caetano e de Clarice.

Jovem, andava descalça. Vire e mexe cortava os pés. Mas não dava pelota. Tudo era experiência, repertorio, e servia, no fim, para sermos melhores.

Era um espirito livre, gostava de andar pelada pela casa ou pela praia. Fazia amor com liberdade, desprendida do corpo como era. Gostava de dançar na areia, de subir em árvores, de chupar picolé. Amante das descobertas, tinha muito gosto pela vida.

Um dia pela manhã, saiu de bicicleta. Era primavera, o sol brilhava.Parou num jardim bonito, sentou-se na grama, colheu flores. Fez um piquenique com os passarinhos, cantou Beatles e foi feliz.

Na volta pra casa, em um cruzamento,um carro bateu na sua bicicleta. Ela caiu na calçada, que virou poça de sangue.

O carro fugiu.

A bicicleta chorou.

Maria morreu.

Assim, sem mais nem menos. Bem na hora do almoço.

Mas a cidade continua, cheia de vida.

E de sonhos.

Olheira

Luto contra
o luto do sono,
que se derrama em litros
de cansaço
bem diante
dos meus olhos,
desses olhos que
não quero fechar,
não quero,
não devo,
há tanta vida na lua,
tantos boêmios na rua,
não posso dormir.
É pecado de poeta,
nem um cochilo cai bem,
eu não devo,
eu não…
eu…
caio no sono, pois.
Nesse breu de sonhos.
 

Eventually

Depois de ouvir
o mestre Allen
falando sobre a morte
e o sentido da vida
Me sinto tão humana
que esqueço do Sou mortal.
 
Quando ouvimos gênios 
assim 
falando
entendemos porque
a vida vale a pena,
afinal.
 
Choro, pois.
percebo o óbvio 
Apesar de vivermos
de passagem.
alguns, poucos que merecem,
Ficam.
Ficam & edificam
na permanência do estado de luz
Renovando eras
instigando a busca 
das novas, tão próximas
gerações
 
E assim, de Allen em Allen, 
quem sabe um dia 
alguém descubra
o mistério ou o milagre 
de existir.
 
 
Ainda bem que os gênios nunca morrem mesmo.