A Tentativa

Diante de tanta lua tento, em fotos, guarda- la de memória. Em vão, pois não há lente capaz de espelhar tamanha beleza. E ainda descubro, pasma, que a luz ao lado da lua era estrela, uma ova! Era Vênus, poderosa.

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POEMAIL

Li que cê tá em Paris.
   Gostei.
Afinal, uma parte de mim também por aí está.
Sim, porque uma parte de ti também por aqui está.
Tudo dentro da gente.
Nos corações cabem cidades, cê sabe. São coisas do amor.
Claro, pois o que vivemos é digno de memória. Tudo que você me ensinou nunca vai esvaziar-se de mim. Vivo à sua maneira, cheia de marcas tuas. Não te esqueço, gostaria que você soubesse. Não quero reconciliação, nem tão pouco voltar ao passado. Quero só distribuir este amor, que cê me deu de graça, sem freios. Foi bonito. Ora, se foi. 
Nossos dias tinham cheiros. Vivíamos como se estivéssemos num filme do Woody, lembra? Como esquecer! A gente tinha gosto de jazz, som de vinho. Divino.
Quem sabe se, sem você, teria eu começado um dia a escrever. Você me ensinou a ser mulher, a ser melhor. Cê foi meu primeiro amor. Acredite.
Paris deve estar bela como nunca, com você por aí. E ainda vem chegando a primavera! Boa França pra ti. Sinto sua falta. 
Tenho novidades também, comprei uma vitrola. Quiçá um dia possamos ouvi-lá, juntos. Eu, você e o Lennon. Quiçá um dia. 
E te devo, além, vários obrigadas. Pelas pequenas e grandes coisas.
Obrigada por me mostrar da vida o ângulo mais bonito. Meus vícios, ócios e oficios são seus. 
 
Você se lembra daquele isqueiro que te dei? Pois use.
Use e acenda todas as luzes 
de seu caminho por Paris.
 
E nos intervalos
da vida,
não se esqueça
de ser feliz.
promete?
Cê merece.
 

Arcada novo mundo

Esse teu

sorriso bonito

É seu charme,

seu órgão,

meu ventre

sorrindo.

 

É válvula

de escape.

É fuga

da realidade

Dessa realidade

De sorrisos de merda.

 

Em meio a tanta

frieza dentária

Aparece tu, Bonito

Sorrindo esses dentes

de vidro

Pra mim e pra todos

Porque tu

é generoso

E abençoa mundo

num sorriso.

 

Eu nunca vi

nada mais bonito.

Ai, essa boca…

devia é de vir com aviso

CUIDADO: 

ALTO ÍNDICE DE APAIXONAMENTO.

 

 

Lágrima

Fiquei com medo da chuva.

Aí me lembrei daquele dia. Eu ria tanto, até esqueci que estava molhada.

Fiquei com medo do frio.

No escuro, me lembrei daquela noite. Você me emprestou teu casaco e levantou minha saia.  A gente dançou debaixo do telhado de vidro.

Fiquei com medo de olhar nos olhos.

Sonhei com nosso primeiro encontro, dentro do elevador. Você me devorou sentada, apesar das câmeras. Meu cabelo ficou com teu cheiro. Cheio de volume.

Fiquei com vergonha de mim.

Ouvi teu sussurro, dizendo semvergonhices ao pé d´ouvido, feito música. Me lembrei do sorriso grudado que a gente dava, ao sair dos beijos nossos.

Fiquei com medo da saudade.

Mas a vida me contou: só tem saudade quem um dia já amou.

Eu já amei. E como.

Por isso dou amém pra saudade. Nunca adeus.

Porque a saudade é aquela que guarda

o que de mais precioso restou do amor.

Desse amor, que se foi.

Sou romântica, claro. Mas sei que o amor tem um fim. O que é vivo sempre morre, por essência.

Ou decência.

E a saudade é vento tipo brisa, que faz a cortina dançar.

Ainda bem que existe a lembrança. Essas lembranças do que a vida, um dia, já foi.

Ainda bem que existe a fé. A fé do que a vida, um dia, será.

Tenho fé, tenho amor. Mas tenho medo deste futuro em que você não está.

Sigo sozinha. Na fé do encontro, encontro a Saudade.  (mãe do amor)

Fico com medo da morte. Imagem

Rocambole

 

Do amor,Imagem

o recheio

do meio

 é a luz.

 

Só que a luz

sem lustre

É frágil como a paixão.

E a luz

no lustre

perde a beleza de então.

 

Por isso é que vos digo:

Amour

combina mais

com abajur.

Afinal ele tem:

a cúpula,

que protege

o charme,

que fascina e funciona

só com a luz 

que do amor

é a sina.

 

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Apocalipse

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E Deus criou a Música.

O resto,

foi a gente mesmo

 

(Aos trancos,

nos barrancos)

 

Porque Ele sabia que

com a Música

Teríamos nós

o alimento pra criação

de tudo e até

{de nós mesmos}

 

Nos tornamos Deuses, pois,

Graças a Deus.

 

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O bilhete

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O estúdio estava com cheiro de trabalho. O chão estava sujo, as tintas estavam jogadas, os pincéis estavam de molho na pia. As cortinas estavam fechadas, mas as janelas estavam abertas. Era uma noite quente e ventava bastante. Ao ver aquele ambiente exalando vida e arte, Bianca sorriu. Ele falou para ela não reparar na bagunça, ela disse que não se importava. E não se importava mesmo. Adorava o processo artístico. Tinha uma inveja secreta dos artistas porque eles, no momento da criação, igualavam-se a Deus. – Sente-se. – disse ele, olhando-a com ternura. Bianca sentou em um sofá vermelho que mais parecia um divã. Na parede da frente, uma tela em especial chamou a atenção dela. Era um retrato abstrato de uma mulher. As formas da moça, que estava nua, confundiam-se com as cores do fundo, dando uma dimensão quase psicodélica à obra. Percebendo que ela havia se interessado pelo quadro, Julio perguntou: – Gostou? – Sim, muito. Quem é essa mulher? – Você. Bianca ficou em silêncio. No seu intimo, ela já sabia. -Eu fiz para você, pode levar para casa. – Obrigada. – Vou colocar uma musica para gente. Você quer um vinho? – Não Ju, brigada. Eu tenho que ir daqui a pouco. – Uma taça de vinho não vai fazer diferença. – Tudo bem então. Julio foi até o computador para escolher uma musica. Billy Holiday começou a cantar. Bianca sorriu. Ele serviu o vinho e eles brindaram. Ela então tirou os sapatos. Ele olhou os pés dela. As unhas estavam pintadas de chocolate. Os dedos eram pequenos e morenos. Julio achou-os irresistíveis. Ela percebeu. Eles se olharam. Mantendo seu olhar no dela, Julio ajoelhou-se diante de Bianca e beijou seus pés. Ela deixou. Estava sentindo-se muito frágil nesse dia. E Julio estava tão bonito sob a luz do estúdio. Ela o deixou beijar seus pés, suas pernas, e tudo mais que ele quisesse. Percebendo sua vulnerabilidade, Julio fez com ela tudo aquilo que desejava secretamente há tanto tempo. E ela deixou. Esqueceu do seu compromisso, perdeu a hora e a vergonha. Estava sentindo-se muito sozinha naquela noite. E, no meio das telas, dos pincéis e das velas, eles se amaram. Foi forte. O estúdio mudou de cheiro. Ficou no ar um aroma de rosas. E as taças de vinho paralisadas sob a mesa, como duas testemunhas de sangue. Depois do amor, exausto e quente, Julio entregou-se aos braços de Orfeu. Bianca, no entanto, não conseguia dormir. Tinha muitas coisas na cabeça e muitas chamadas perdidas no celular. Não estava arrependida, isso era certo. Olhou para Julio e sentiu que era forte o amor deles. Mas mesmo assim não podia ficar. Ela escreveu um bilhete para ele e colocou-o em cima do quadro que ele lhe dera. Vestiu-se, mas não calçou seus sapatos. Pegou a bolsa e saiu. Começou a chover. O céu chorava por eles. E as lagrimas dela confundiam-se com as lágrimas da chuva. Mas ela seguiu em frente, atravessou a rua e não olhou para trás. Julio acordou de sobressalto. Percebendo a ausência dela, correu para a janela. Mas ela já havia partido. Raios e trovões no céu, o sapato dela no chão dele e um quadro sem dono. Julio chorou. Mas mal sabia ele que aquelas lágrimas eram coisa à toa. Só chorava porque ainda não tinha lido o bilhete que ela lhe deixara.

POESIA DE BEIRA DE ESTRADA: Uma homenagem On the Road

(A autora adverte: leia ao som Crosby, Stills and Nash)

Se o amor tivesse um órgão,
O carro chefe seria a pele.
Nem boca, nem veia, nem língua.
A pele.
 
 
Se a estrada tivesse um filho
O primogênito seria conversível
Nem jipe, nem moto, nem vespa.
O conversível.
 
 
Se o amor tivesse um nome
Esse nome seria o teu.
Nem  dele nem dela.
O teu.
 
 
Se a estrada tivesse acessório
Este seria um sunglasses
Nem lenço nem jeans nem flores
Sunglasses.
 
 
Se a estrada fosse o caminho
O GPS seria a poesia.
Nem filme nem foto nem conto.
A poesia.
Este sim, é meu destino.
Nem vida,
nem volta,
nem templo.
Só poesia,
Nua
no vento.
 Imagem

PRÓLOGO:

Na beira da estrada tinha uma rima.

Tinha uma rima da beira da estrada.

 

BONECA RUSSA

DESCOBERTA talvez seja

a palavra mais importante

do dicionário.

 
Mais que milagre
ou alegria
amor ou música
fé e até paz.
Mais,
muito mais!
Que todos os verbos, poderosos da gramática,
Todos os pronomes,
sobrenomes, adjetivos!
Dentre todos os substantivos,
Este.
 
Este signo que emerge
E talvez carregue
O significado de todas
as outras
palavras do mundo.
Uma
Dentro
Da outra.
Todas
Dentro
De uma

                         ,Descoberta.

A menina que descobriu o batom

Foi em um domingo à tarde. Estava ela em casa, assistindo televisão e comendo pipoca. Mas sabe quando o sal da pipoca deixa nossa boca queimando? Pois então, a dela queimara. “Minha mãe exagerou no sal!”, pensou ela. O programa estava interessante, queria esperar até o intervalo, mas sua boca estava em brasas. Teve que ir urgentemente ao banheiro, deixando o sofá sozinho.

Chegou ao banheiro e olhou a boca no espelho. Estava vermelha e inchada. Sua boca era naturalmente fina e sem cor, por isso estranhou vê-la tão rosada. Gostou, devo confessar. Na verdade, adorou. Sentiu-se muito mulher com aquela boca carmim. Mal reconhecia sua própria imagem no espelho. Sua boca ainda ardia pelo sal, mas sua vaidade ardia ainda mais. Nunca, em seus 13 anos de vida, teve ela vontade de beijar. Mas aquela boca vermelha era, por si só, a própria metáfora do beijo. Sentiu vontade de beijar a si mesma, sentiu vontade de beijar o mundo com aqueles lábios suculentos. Seria esse o seu talento, enfim? Sua boca?

O sofá esperava-a.

A televisão não.

Mas triste é reconhecer que coisas boas são efêmeras.  O efeito saldapipoca estava acabando. Sentia-se ela quase como Cinderela perto da meia-noite. Seus lábios foram murchando e a cor carmim foi se transformando, pálida e cálida, até que por fim a menina reconheceu-se no espelho. A mulher boca carnuda se foi. Sobrou a menina sem lábio. Menina sem lábio com olhos aguados.

A mãe passou pelo corredor e a viu, amuada e chorosa frente ao espelho do banheiro. Estranhou e entrou. Perguntou o que acontecera. A menina explicou envergonhada. A mãe entendeu, ficou com pena. E mesmo achando sua menina ainda muito pequena, deu a ela um presente. E disse, com uma piscadela marota, de mulher que já foi garota:

– Menina que pinta a boca é porque tá ficando moça…