ENSAIO SOBRE A LOUCURA

Se perguntassem por ele, diriam: É louco. Mas não o era. Isso era definição dos fracos de espírito. Na verdade ele era um rapaz intenso demais para uma sociedade muito ocupada e pouco sensível aos acontecimentos diários. Ele era diferente da massa porque não negava amor nem a uma formiga. Percebia a beleza de tudo e a vida o fazia pulsar. Qualquer coisa o transformava: Uma brisa, uma menina, uma queda, uma aula, uma pedra ou um abraço. Vivia longe da jaula urbana e perto da essência das coisas. O rapaz era poeta e não sabia. Ele era ator e estudava filosofia. Andava de bicicleta por ideologia. E respeitava a vida acima de tudo.
Tinha amigos, muitos e tantos. Mas apesar de sensíveis e artistas, nenhum levava a vida com a intensidade de Paulo. E ele estava sempre tão cansado porque se dedicava demais a todos e colocava energia demais em tudo.
No dia em que o conheci, ele estava cansado. Mas mesmo assim me olhou sorrindo e me ouviu falando, o que nos dias de hoje é raríssimo. Ninguém tem tempo de escutar. Mas ele, mesmo cansado de doar-se tanto, sempre tinha tempo de ouvir alguém. E eu, aproveitando-me de sua generosidade, falei. Contei tudo. Me abri. Me encontrei. Ele me escutou, me olhou e me sorriu um sorriso maroto, que somente um garoto sabia dar. E disse:
– Minha cara, estais apaixonada e é só. Não se aflija por isso. Amar é uma sorte, além de trazer a sorte para a vida.
Verdade. Ele estava mais que certo. Por que se afligir por uma coisa tão bonita? Amar alguém é uma sorte, além de trazer a sorte para a vida. Nós ficamos amigos desde então. E com ele fui aprendendo a amar todas as coisas do mundo. Não é fácil viver tão apaixonada pela vida, realmente cansa. Mas compensa. Ele me mostrou as ruas, as musicas e céu. E eu me apaixonei pelo asfalto, pelo samba e pelos desenhos das nuvens. Ele falou de Nelson, de Vinicius, de Freud e de Cecília. E eu decorei o Soneto do Amor Total. Nós dançamos e eu percebi a importância da pausa na musica. Nós cantamos e eu percebi a doçura dos passarinhos. Fomos ao teatro, e eu chorei em todos os atos. Me sentia como Clarice, mãe do mundo inteiro. E a cada dia nossa amizade crescia e o mundo girava e tudo brilhava. Comecei a estudar teatro, filosofia e a andar a pé por ideologia. Se você perguntasse por mim, diriam: É louca. Mas definições, como vocês bem sabem, são somente para os fracos de espírito.

DÉCIMO TERCEIRO

Toda vez que eu me arrumo muito, fico feia. Toda vez que eu te vejo muito, fico seca. Quando como demais, azedo. Quando durmo demais, engordo. Se me lavo, fico rasa. Se me levo, vou para casa. Se te amo, me devoro. Se te chamo, eu te amo.
A vida é uma roda.
Gigante.
Olha, ta difícil assim. São onze e quinze e eu não te esqueço desde julho. Tento viver, você não deixa. Por quê? Qual é a tua graça? Não me leve a mal, meu bem, você é um homem interessante. Mas o que {em você} me paralisa? Preciso voltar a ser cotidiana, você não deixa.
O amor é um elefante.
Gigante
Gostaria de voltar a dormir sem sonhar com as suas coxas. É difícil, e já estamos em dezembro. “Talvez o Natal me distraia”, pensei. Qual o que, você é mais bonito que o menino Jesus.
Tomo chá, vou ao shopping, me capitalizo. Mas você não deixa. Fui à Paulista e todas as luzes não tiraram teu brilho. Não agüentei e te comprei um livro, espero que goste. Não faltou amor, faltou embrulhar. A fila tava muito grande, meu bem.
Volto pra casa, olho teu livro. De perto tudo isso é tão pouco. Um dia morreremos. E o mercado natalino continua, mesmo sem a tua carteira. O caixa não para, meu bem. A morte também é comércio e até dia 23, as lojas só fecham meia noite.
A cidade está tão bonita. Ah, não posso me esquecer de comprar um presente para o meu cachorro! Vou comprar aquele Panetonne Cani (Natali) no que eu vi no Petshop anteontem. Se tiver alguém que sabe o que é Natal, esse alguém é ele. Se tiver alguém que merece um presente, esse alguém é ele. E você, claro.
Sabe, eu deveria ter te comprado uma bicicleta. A bicicleta é o livro na prática, e deixa suas coxas ainda melhores. Vamos fazer amor no Natal? Lennon já dizia. Vamos? Que o meu corpo, no teu corpo, brilha mais que a árvore do Ibirapuera.
Feliz Natal, meu bem, mas eu prefiro você.