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abrindo álbuns vi

uma foto minha

com o rosto depois do choro, me conheço, o úmido estava discreto mas eu

me conheço e li

meu olho descendo pro âmago, imagine uma galáxia. é como se por dentro eu não tivesse limite, imagine um pântano. é como se eu me afogasse em mim.

naquele dia, me lembro, tinha sido a minha colação de grau.

a foto

foi tirada num restaurante

todas as famílias depois da cerimônia foram pra lá

a minha

não foi nem na cerimônia

e uma amiga chamada

camila

me convidou pra jantar na mesa dela.

 

– está bem. – eu disse aceitando

 

eu tinha 14 anos, precisava

desesperadamente de

afeto,

bastava um passarinho voar

rente ao meu topo

para que eu não quisesse que ele morresse nunca mais.

prevendo o grito, decidi avisar minha mãe só depois de chegar no restaurante,

ela ia me mandar voltar pra casa

e a palavra casa

soava como um tiro pra mim.

uma vez, faz muito tempo,

eu dormi

na casa de uma amiga, a marília. tínhamos uma festa pra ir, então eu perguntei pra minha mãe

 

-posso? dormir lá. a festa vai acabar tarde

a marília mora perto

do lugar.

 

e nesse dia, milagrosamente,

minha mãe deixou.

experimentei então uma felicidade indescritível, passar a noite fora de casa era ser livre

por algumas horas e mais do que isso, era ser

eu mesma por algumas horas

sem a interferência materna na minha personalidade, minha mãe sempre quis que eu fosse

uma continuação dos passos que ela deu.

a festa

acabou 6 horas

da manhã. voltamos pra casa da marília

eu dormi no colchão, ela

na cama. quando deu nove horas

minha mãe me ligou

berrando

dizendo vê se pode

ficar dormindo até tarde

pior ainda na casa dos outros, isso era coisa de vagabunda. volta agora, ela mandou. eu preciso de você pra me ajudar.

desliguei o telefone

com aquela sensação de horror no peito.

arrumei minhas coisas com pressa

agradeci a marília

que estava dormindo.

 

-tá tudo bem? – ela me perguntou sonolenta.

 

(segurei o

choro) – tá sim. obrigada por tudo.

 

você não quer tomar nem um café? eu preparo pra você rapidinho.

 

-não, muito obrigada. eu preciso ir agora, sério. a gente se fala mais tarde.

 

no elevador me olhei no espelho,

a feia.

na rua eu corri até o ponto

prevendo a surra

imaginando os

detalhes

e era assim

que a minha mãe me controlava, era assim que ela me mantinha por perto.

o pior

é que o ônibus demorou, era domingo, e quando finalmente eu cheguei em casa

 

na chave virando um peso

 

o apartamento estava de pernas pro ar.

 

minha mãe disse:

 

-agora limpa.

 

e eu limpei

enquanto ela fiscalizava cada cômodo

cada canto que eu tinha passado o pano.

 

-aqui tem pó. – ela dizia eufórica.

 

e eu limpava de novo

por horas.

 

 

nesse dia da colação,

eu liguei pra minha mãe do banheiro, a camila foi comigo.

avisei que eu estava no restaurante

e que eu ia demorar

então ela começou

a cena de sempre

mas

nesse dia, de repente, eu enxerguei o que era aquilo

que a minha mãe fazia comigo, não era minha culpa, não era eu quem estava errada,

aquilo que minha mãe fazia era ela sentindo medo

da solidão. então eu disse pra ela, e não sei de onde me veio essa força, então eu disse que só voltaria pra casa quando terminasse de me divertir

eu estava comemorando a minha formatura

e puta que o pariu caralho porra, eu tinha esse direito.

 

desliguei o telefone

 

meu corpo

trêmulo.

então eu chorei

sentada no vaso, minha amiga jovens que éramos não sabia ao certo o que me dizer. limpou meu rímel borrado

tirou da bolsa

o dela e retocou a minha maquiagem.

 

-vou apanhar quando chegar em casa. – eu disse.

 

você já ia apanhar de qualquer jeito, pelo menos hoje você fez alguma coisa por você.

 

e me abraçou, minha amiga era a minha mãe.

ela sempre me dizia

que a vantagem de eu ser morena

era que, depois de secar tudo, não dava nem pra perceber que eu tinha chorado.

já ela, muito clara,

quando chorava ficava inchada, todo mundo vinha perguntar o que tinha acontecido. o problema

é quando o acontecido não cabe

em palavras, ainda não nasceu um jeito de explicar o que me aconteceu.

minha mãe é horrível eu não podia dizer

porque minha mãe não era horrível

minha mãe

era a minha mãe. então prefiro

deixar essa dor sem nome

ainda bem que sou

morena

e de fato quando me sentei na mesa com os pais da camila

e com a irmã e o irmão dela

ninguém percebeu nada, foi nessa hora que o fotógrafo se aproximou.

 

-junta a família. –ele disse

 

 

eu dei um leve

sorriso.

dinheiro

– dá sua mão – o porteiro me disse,

eu dei.

ele passou creme nela, espalhou bem.

– não é maravilhoso?

-sim, parece ótimo.

– leva a revista pra você dar uma olhada com calma nos produtos. 

-isso, leva a revista. –  incentivou o outro

que também estava na portaria, esse era morador.

– certo. – respondi pegando. 

 

– tá vendo como é fácil? –  o morador disse

piscando pro porteiro como se eu não estivesse ali.

 

 

 

 

 

primeiro rio

ela levantou o vestido

abaixou a calcinha e

sentou no vaso.

 

o xixi escorreu

 

mais denso do que de costume.

ela se secou e

no papel o sangue

que dia é hoje? ela pensou

olhou no celular.

pegou um pacote de absorvente na gaveta,

abriu e grudou

aquele barco anatômico na calcinha.

por que será que nas propagandas de absorvente o líquido que eles despejam pra mostrar que o produto aguenta

é azul?

um líquido vermelho ficaria muito forte para as pessoas que estão assistindo?

o que uma mulher vê saindo do próprio corpo

ela não pode ver também na tv?

e pensar que antigamente, a mãe da greta que conta, as mulheres usavam paninhos. depois lavavam no tanque, as mais endinheiradas jogavam fora,

o lixeiro pegando

podia pensar que alguém se machucou. engraçado

sangrar sem doer, a mulher.

dói a cólica

mas dói diferente da dor das coisas que sangram.

na cólica parece que tem uma

mão por dentro revirando tudo, mas não é dor de corte,

a anatomia da mulher já tem um corte

dividindo a carne da buceta como um sanduiche. a cor do sangue menstrual também é diferente, amarronzada, mas não dói

nada dói

e a greta ergueu

a calcinha. lavou as mãos. se encarou no espelho por alguns instantes. a primeira vez que menstruou ela tinha 11 anos

e estava com um rabo de cavalo igual a Britney Spears

que ela tinha visto na MTV.

ela queria ser a Britney

mas ser a

Britney

era tão diferente de ser ela mesma. então a greta colocava pó no rosto

pó de arroz da mãe

ela pegava escondido e passava

pra treinar as coreografias, a menina ficava parecendo um fantasma.

nesse dia

pulando e dançando na saleta perto dos quartos, ela

sentiu um algo descendo de uma vez só

 

Ploft.

 

correu pro banheiro, o melhor lugar do mundo pra tentar entender o nosso corpo quando coisas inesperadas acontecem com ele e

abaixou a calça

já manchada de sangue, seu rosto esquentou.

a vida inteira

a mãe dela tinha dito que

quando ficar mocinha você vai ver só o que é ser mulher

e aquilo

de ser mulher

parecia difícil

e confuso

será que agora eu não vou poder mais dançar Britney? e vou ter que fazer coisas como a minha mãe faz o dia todo varrendo

lavando

servindo as

pessoas da família?

 

Mãe. – ela gritou.

 

a porta do banheiro estava fechada

a casa um sobrado

a mãe trabalhando na lavanderia não ouviu.

 

-Mãe,

ela gritou de novo

 

abrindo a porta

saindo do banheiro, andando pelos corredores com a calça arriada

os olhos molhados, o medo

do desconhecido, ali a mãe ouviu.

largou os lençóis no tanque e correu pra ver.

 

que foi filha?

meu deus greta, levanta essa calça

olha os moços lá embaixo a janela tá aberta.

 

e de fato os homens

que trabalhavam no jardim

estavam olhando

praquela bunda de

11 anos

que já tinha jeito de bunda adulta

inclusive lembrava muito

uma bunda adulta

eles

não puderam deixar de notar.

a mãe subiu as escadas, a menina não subia as calças,

estava em desespero

no carpete uma poça

aquela mancha nunca mais saiu porque secou.

a mãe foi tirando

o chinelo

ao mesmo tempo levantando a calça da filha

e dando umas

na menina

que aquilo era uma pouca vergonha. os homens trabalhando no jardim continuaram de olho

até o fim do que sobrou pra ver, até a mãe levar a filha pro banheiro de novo.

a greta chorava

copiosamente, assustada com seu dia de caça.

no banheiro a mãe trancou a porta, os olhos vivos.

ligou o chuveiro

mandou a menina tirar a roupa. depois do banho ela ensinou a greta a colocar o absorvente na calcinha,

 

– tem que grudar bem as abas pra não vazar. assim, tá vendo? como um barco.

 

naquele dia mais tarde

a mãe levou a menina no

carrefour. disse:

 

-nós precisamos comprar algumas coisas pra você.

 

a greta ali

adulta no espelho

não lembrava de tudo que elas compraram naquele dia.

mas lembrava de um roupão

e da mãe dizendo

 

-agora que você menstruou não pode mais ficar pelada na frente do papai.

 

por que? ela quis perguntar, mas sentiu que

tinha a ver

com os moços do jardim.

no seu primeiro banho de mulher, a greta vestiu o roupão como se o tecido daquilo fosse de seda. com ele

ela se sentiu uma pessoa importante

pensou que não era tão ruim assim ser mocinha, acho que foi aí

que os peitos da greta começaram a crescer. e toda vez que ela menstruava eles inchavam de um jeito, pareciam duas mangas

despontando.

 

 

 

 

 

escrita noturna

risco um fósforo enquanto penso no texto que descansa

na folha,

tem alguma coisa nele que está fora do lugar, alguma descrição, talvez

do bairro que o personagem visitou.

digito no google o nome da rua:

 

passo

de foto em

foto

 

nenhuma me diz do cheiro que a noite tem ali, da cor das crianças quando dormem se elas

amarelam, do nome do dono do pub,

já sei.

meu personagem vai passar a noite sozinho no hotel

muito cansado depois da festa

por isso

ele vai dormir rápido

e de terno

enquanto a prostituta

do outro lado da cidade

toma coragem pra

discar um número, mas

não disca. é,

ela não disca, e assim eu não preciso me preocupar com a vista da janela. prefiro pensar nos meus personagens por dentro, investigar a vida interior que eles têm, porque as cidades não são nada

sem alguém olhando pra elas

não há descrição que fuja

do estado de espírito de quem as descreve.

 

 

(latidos na rua)

 

 

apago o fósforo.

acendo outro, eles sempre me ajudam a dissecar um texto, eles são a minha luz de cozinha. a prostituta, olho pro fogo pensando, vai se matar nesta noite, será que fica muito trágico? a maquiagem borrada na banheira. as olheiras enormes e cintilantes.

na exposição da Yoko Ono

eu li em uma das placas

exatamente isso

 

 

Acenda um fósforo.

 

 

nunca tinha lido antes qualquer coisa a respeito da força de um pequeno fogo ainda controlável nas mãos, o fazia intuitivamente

para me arejar os pensamentos

e a Yoko também

e quantas pessoas mais, ou seja, somos tão parecidos, alguns de nós.

ontem

eu disse para um amigo sobre o quanto a gente era diferente, ele riu. não concordamos em praticamente nada, nem nisso,

mas nos damos relativamente bem. apesar que

meu amigo

não me sai da cabeça

fico tentando entender como cabem aquelas opiniões nele sem doer, às vezes penso que ele está dizendo o contrário só pra me provocar

como se tudo fosse sobre mim

sendo que na verdade ele nem é exatamente meu amigo. não ligamos um para o outro quando temos problemas, ele está precisando de dinheiro e eu

não emprestei. ofereci carona e ele não quis. queríamos transar, há uns meses.

acabou não indo pra frente

então estamos

com essa amizade arrastada

com ele me dizendo o que não cabe na minha boca, gosto mais quando encontro semelhanças

porque a única coisa que sei amar é a mim mesma.

 

 

(alguém dá partida no carro)

 

 

apago mais um fósforo. na mesa

uma coleção

de palitos queimados. ajusto mais alguns detalhes no texto, distancio em léguas os personagens, penso agora em colocar cada um em um país. a puta

já é um cadáver na banheira, o homem

está roncando na cama. de barriga pra cima. com sapato no pé.

tem

um ponto de encontro

entre essas

duas cenas

a morte e o sono, o pau mole, o seio inerte. a água da banheira balança levemente por conta do vento, ela esqueceu a janela aberta. então, de vez em quando, o bico

do peito dela fica

de fora. na cena dele, no hotel, começa a chover. ninguém acorda. por enquanto nenhum dos dois acordarão. leio o texto

mais uma vez.

não é um poema

nem um conto

e ainda está faltando

alguma coisa. um encaixe. talvez

um título, vou dormir um pouco, quem sabe amanhã

eu acorde com uma ideia. tendo tido sonhos tão estranhos. noite passada mesmo

sonhei que meu pai esmagou uma borboleta pra mim

e depois que a minha amiga tinha amputado as pernas.

dei google e

sonhar com borboletas

é aparentemente bom, não sei se esmagadas, não tinha no site esmagadas. agora com amputação

já não era tão bom assim, representava que a vida estava me tirando coisas importantes,

é claro que a vida está me tirando

coisas importantes, respondi pro site, não é assim com você também?

desliguei o computador.

deitei na cama

e de repente me veio

a preocupação de onde

vou estacionar o carro amanhã naquele evento que não tem estacionamento

nem lugar na rua

vou ter que

andar sozinha de madrugada por um trajeto

longo

será que no fundo é tudo medo de morrer?

esquecemos do disco

quando perguntei o preço do cd ele disse 15 de um jeito enroscado como se

não quisesse dizer.

tínhamos nos conhecido há meia hora

e o natural seria cobrar, claro, como se cobra um remédio na farmácia

ou um livro quando o autor não está.

15, ele disse, mas alguma coisa em nós

já estava estabelecida

um rio de intimidade que, não nego,

me incomodou pela rapidez com que nasceu. como podíamos ficar tão a vontades um com o outro sendo que tínhamos acabado de nos conhecer?

ele puxou o violão, começou a cantar.

meu amigo disse:

 

-ele é um caetano, um lenine.

 

a voz dele me levou pro colo

da minha mãe.

enchi a xícara de café. derrubei

um pouco no balcão.

desculpa, tem um pano?

Ninguém me respondeu.

antes desse cara aparecer

eu estava conversando com o meu amigo sobre moto, a moto que ele tinha

e que estava no conserto,

quando detrás do sofá surgiu esse homem

feito um bicho.

 

– ele mora comigo – meu amigo disse. – é gringo, não entende 1 palavra em português.

 

 

e o cara me olhando

como se fosse de outro

planeta

com um quê de ingenuidade típica dos bebês.

eu sabia

que aquilo era uma cena

e mandei os dois pararem com isso.

eles sustentaram a história

por mais um tempo

até que sozinha a brincadeira se

desmanchou.

então o cara pegou o violão e começou a cantar, foi quando eu ouvi

a voz que me levou pro colo

foi aí que eu perguntei

o preço do disco

você tem aqui?

 

-tenho.

vou cantar outra música pra você

antes de pegar. (percebi que ele estava querendo

ganhar tempo

para que criássemos ainda mais

intimidade

que transformaria esse Nós em um lugar seguro pra ele me dar o disco ao invés de vender, sem desvalorizar a arte dele,

mas sim como uma troca

tão justa quanto o dinheiro, um disco por um momento de escuta reflexiva como eu estava fazendo ali)

 

 

o telefone do meu amigo tocou.

 

a minha moto ficou pronta. – ele disse animado, desligando. – vou dar um pulo lá na oficina, tudo bem se vocês ficarem um pouco sozinhos?

 

claro – eu disse – vai lá.

 

meu amigo foi e na sala nasceu um silêncio sem peso.

então o sujeito começou a me contar

da sua vida nômade

ele que já tinha morado até na china.

 

– imaginando? que você estava na china?

 

-não, eu fui mesmo pra lá. um voo longo o mais longo do mundo tão

longo que

me acostumei a voar.

quando saí do avião, andando pelo aeroporto,

estranhei usar os pés.

 

ele falava lentamente

de uma maneira que dava pra

degustar cada sílaba.

 

-é o ácido que te deixa assim?

Não- ele disse rindo da

impossibilidade de ser o ácido.

– desculpe, eu não entendo nada de drogas.

– tudo bem.

 

fiquei fazendo

carinho no gato que estava ali

no sofá.

 

-é seu?- perguntei.

-ele não é de ninguém. está aqui, apenas.

como eu e você.

 

o gato cedeu ao meu toque

e eu comentei

exatamente disso,

 

olha como são os bichos, a gente os toca e eles se abrem, aproveitam o momento.

quando acaba

não nos cobram nada. já uma pessoa

quando a tocamos

ela cria uma ligação conosco

e coisas começam a serem cobradas a partir disso

como atender o telefone

e estabelecer um relacionamento

pode ser de amizade ou de amor, mas há cobrança, o ser humano precisa dar nome aos bois.

agora com bicho a liberdade é total

nem existe a palavra liberdade. a partir do momento que precisamos da palavra é sinal de que a coisa em si ainda não é forte o suficiente pra pulsar sozinha.

 

ele balançou a cabeça concordando.

continuei.

 

sabe que

às vezes eu duvido do meu toque? não sei se meu carinho é bom. acho que é porque eu não tive carinho na infância e também minha mãe nunca me deixou tocá-la, entre nós duas era sempre algo pra fazer

nunca um não fazer nada e se tocar, apenas, e isso me fez falta. agora eu não acredito mais

no meu toque.

 

-vem cá. – ele disse esticando o braço. – faz um teste em mim.

sentei mais perto

e comecei passear os dedos

nele e também no gato

nos 2 ao mesmo tempo

como faria um maestro.

aquilo

durou alguns minutos.

quando parei ele abriu os olhos

o gato seguiu dormindo.

 

-preciso ir agora. – eu disse levantando.

 

senti que ele quis me dizer não vá

mas se lembrou

da minha fala sobre tocar uma pessoa e o compromisso que vem logo depois disso, especialmente quando o toque é bom.

se segurou. me levou até a porta.

 

-tchau.

até. – eu disse

 

e desci as escadas.

meu celular

começou a tocar na bolsa

me senti uma caixinha de música ambulante

não virei pra trás.

na rua,

quando eu olhei o telefone pra ver quem estava me ligando

era aquele maldito número

que me liga direto

e quando eu atendo

a pessoa simplesmente não responde.

 

então por que você me liga? – um dia eu perguntei

sem saber se aquilo era um ser humano

ou uma máquina

e por um segundo pensei que tinha escutado algo no inaudível como Porque com você eu converso pela respiração, mas

duvido,

acho que

não ouvi nada mesmo.

inversão

na garagem meu pai bate uma foto minha, estou usando a calça que ele me deu.

entramos no carro, peço coloca o cinto

olho pra ele colocando depois

coloco o meu.

abro

o portão da garagem

dirijo trocando

a marcha pro meu pai ver.

antigamente

era ele quem estava sempre ao volante, eu assistia o mundo do banco de trás,

assistia também o rosto dele

pelo espelho

nenhuma ruga, 30 anos,

a barba por fazer.

não sabia se ele me percebia olhando

eu reparava muito forte no rosto que ele tinha, ficaria com vergonha

se ele percebesse.

Agora,

ele respondia uma mensagem no telefone

sem notar que eu

estava dirigindo finalmente tão bem e não era isso, afinal,

dirigir bem? o passageiro se sentindo tão confortável que o motorista acaba invisível.

comecei a imaginar

meu pai daqui uns anos, com a morte

já perto

da boca. será que

ficaremos mais próximos quando ele estiver assim? precisando de ajuda até nas intimidades,

levemente a colher

entrando sem bater nos

dentes.

eu queria perguntar pro meu pai tanta coisa.

queria saber como foi

de viagem, quantos países ele conhece, chega de mentiras ou inconversas, você tem medo de morrer, pai?

você ainda sofre

com as humilhações que a mãe faz você passar? sinto que

você a ama

só não ama mais

porque ela te afasta com todas as forças do mar que ela é

então você não consegue chegar, já está muito fraco, porque vocês estão juntos há quarenta anos.

não desista dela, pai. quando você não está

ela fala coisas lindas a seu respeito, diz até que você a salvou.

abrace ela,

eu acho que vocês vão se resolver se ficarem abraçados por um momento, talvez por algumas horas. quando saírem do laço

estarão como eram quando tinham 14 anos

se conhecendo nos arredores do colégio. quase posso ver

exatamente como aconteceu

de tanto que a mãe me conta, de tanto que esse dia é importante pra ela, pai.

ela não te diz por medo

do amor, ela que nunca teve isso na infância

e a infância é essa potência de vida em poucos anos nos marcando pra sempre

e porque ela apanhou de fio de ferro, porque o pai dela tratava mulher feito lixo,

então agora ela não sabe o que fazer

quando percebe que finalmente pode confiar em alguém.

eu sei que o seu amor sozinho não vai salvar a mãe do Trauma, pai.

mas vai ajudar, tenho certeza,

eu também a amo e estou tentando,

um monte de pedra junta uma hora não deixa o caminhão passar.

o terreno seguro da mãe

é a dor, isso

não é sobre a gente, você sabe,

e eu tenho achado

que você está levando as coisas com mais leveza como eu tinha dito que seria melhor. mas agora

me diga de você, vamos,

me conte da sua

enxaqueca, senti-la se parece com que?

com uma luz explodindo? não pra quem vê de fora e sim a própria luz de dentro, explodindo.

ou é como o corpo

de alguém que estava

na beira e

de repente caiu? me dê uma imagem, pai, eu quero entender o que você sente. e porque sente há tanto tempo,

pelo hábito a dor diminui? é tanta coisa pai,

que eu queria saber.

você já leu algum texto que escrevi? você acha que sou melhor escrevendo do que no teatro? me lembro daquele seu livro

do telê Santana

deixa eu te contar uma coisa, eu

roubei esse livro pra mim.

é o único de futebol que tenho, sabia? gosto de tê-lo,

gosto de pensar que tenho

o único livro você fez questão de ter.

é tanta coisa que eu queria te perguntar, pai. pelo acúmulo

acabo sem coragem

não sei nem por onde

começar.

fico te olhando do meu banco

enquanto você digita a mensagem

por um segundo penso que você está enviando a foto que tirou de mim pra alguém.

divido minha atenção com o que você escreve

e a estrada

também a sua

presença

também o quanto tudo muda no carro quando você está.

aumento

o volume do rádio, porque o locutor está comentando

de um exposição na pinacoteca que acabou de chegar no brasil.

tive a impressão que a sua cabeça

levantou um pouco

e eu querendo que você saiba

o quanto eu me interesso por Arte

ao ponto de

aumentar o volume do rádio mesmo quando estamos em silêncio.

insônia

ela caminha. quando me vê

estica até o máximo o tempo de não me cumprimentar antes que vire má educação.

então me cumprimenta

com o hálito quente

 

a tati não te chamou pro casamento?

 

-não – respondo calma. – ficamos mais próximas agora

e ela disse que era pequeno, o lugar, pra poucas pessoas.

 

-é,

eram pra poucas.

 

e ela me fala

mais duas ou três coisas

que não prendem a minha atenção

ao invés fico imaginando

a pele dela de manhã bem cedo

com o sono acumulado ao redor da boca.

outra vez que cruzamos, ela estava com o neto e não me viu, naquele dia

eu a senti um pouco mais real. agora comigo é sempre essa máscara

sempre esses dois

degraus acima.

então ela diz tchau

e se afasta

deixando um rastro

invisível.

semana passada eu estava correndo na rua e

trombamos novamente, nossas casas são próximas (no peito uma vontade

de mudar

de bairro

pra nunca mais

vê-la

é pra tanto?) e ela me perguntou se eu estava correndo ali pra paquerar.

 

não – eu disse

depois contei pra ela

que comecei a lutar boxe.

 

– é mesmo? você?

 

sim, respondi, e mostrei meu jab

depois outro

no ar

no meio

da rua.

 

ela riu de um jeito que me fez parar.

disse:

 

– tudo isso?

 

e olhou para as minhas roupas.

lembrei de uma amiga que tive

com essa mesma energia

tudo ficava guardado no como essa amiga me olhava

também nos monólogos, eu a ouvindo sem vontade de responder

tampouco queria que ela parasse de falar

era penoso demais

o silêncio entre nós.

demorei anos

pra sair dessa amizade

na época eu não tinha certeza do que eu sentia

às vezes pensava que era um sonho

a opressão, que eu estava

exagerando

e à noite quando eu fechava o olho

era o rosto da minha amiga que eu via. é difícil

existir alguém que de verdade nos queira

bem, as pessoas não se gostam

se suportam. as pessoas se machucam

e é sutil, parece um vento gelado

na nuca

parece um jogo

de olhar pra trás pensando que viu algo

era um gato?

 

 

(a rua vazia)

 

 

então você volta devagar

a cabeça

mas aquela sensação de alguém nas costas não passa.

houve um tempo que

eu até tive

uma amiga que se importava comigo.

mas agora

ela não está se sentindo bem, está triste e quer

morrer, eu adoraria que a nossas conversas fossem como antes pra eu dizer pra ela Pare, a vida é uma pizza

a gente vai de um pedaço pro outro, são

fases, eu ia dizer

no jantar que combinamos

mas em cima da hora ela me avisou

que estava com

 

cólica (eu acho

 

que era Mentira.

 

eu acho que o esforço pra me ver

seria muito grande

ela prefere constantemente estar sozinha).

 

o hálito das pessoas que vem falar comigo

é parecido. se aproximam

penso que elas querem uma conversa amena

oi, tudo bem?

eu digo tudo

e imagino

que teremos ali

alguns minutos prazerosos de contato.

de repente elas me pedem

um dinheiro

ou querem o número

daquele cara que estava conversando comigo ontem,

o Jorge?

de repente elas perguntam

por que eu me visto daquela maneira

ou pior, apenas olham

sempre parecido

esse olhar.

então eu me sinto

tão distante daquele corpo falando comigo, é como se nascesse um deserto entre nós

e eu vejo

lá no fundo

alguém minúsculo

me acenando não sei

nem se

é Humano, mas quando eu coloco a cabeça no travesseiro

fica na fronha o rosto

dessas pessoas, eu

esmago tentando

 

dormir.