perfil da presidiária

pilar dirigia em ruas locais com tanta velocidade que

os telhados das casas

chegavam a

não sei, posso estar exagerando, mas os cães se

não estivessem presos e as crianças

se não estivessem dentro

dos computadores,

meu deus. o problema da pilar é que ela dirigia como se não houvesse mundo do lado de fora

culpa da música

sempre alta

ela aprendendo inglês cantando beatles, as frases finalmente entrando.

pilar também gostava de escutar salsa

no carro

se imaginava em cuba, queria ser fotografada depois transar

com o fotógrafo em algum muro e

seguir caminhando

suada de sexo

ela se imaginava bonita fazendo isso

porque nunca se olhava no espelho vendo a si mesma, ela

via seus sonhos.

o último aniversário de pilar fora das grades foi em um clube de salsa. ela quase acendeu um charuto

mas achou caro

no fim das contas preferiu tomar um dry martini.

Pilar.

você

dirige muito

rápido,

é pressa?

Não.

é que

quando eu entro

em um túnel

tenho vontade de

engolir o túnel.

 

às vezes

a pilar pensava em se jogar da ponte

com o carro

não era uma ideia suicida de alguém que estava deprimido

era curiosidade

pilar queria saber o que aconteceria se o carro virasse, igual nos filmes,

queria saber da dor, se a pessoa desmaia ou

sente tudo.

perguntaram pra ela, numa festa, como você gostaria de morrer?

 

– queimada.

– Nossa. – disseram. – mas essa deve ser a pior morte.

 

e toda gente foi se

afastando, a roda de amigos sumiu.

a pilar só foi se arrepender do que disse meses depois

quando a frase grudou na testa dela certa noite

a fazendo lembrar de uma menina que entrou no metrô com o corpo inteiro queimado e o rosto, porque estava derretido, parecia constantemente triste.

a pilar ficou com medo rolando na cama

o ventilador ligado virando a cabeça

não quero morrer queimada, ela emanou

pro universo

esperando que aquilo fosse mais forte do que o primeiro desejo.

até que ela

pegou no sono

e continuou pegando

pelas noites seguintes

só foi lembrar do medo no carro, de novo e de repente, ouvindo ring of fire.

será que

aquelas pessoas da festa ainda me odeiam pelo que eu disse? ela pensou virando a rua do shopping

com a sua

velocidade de sempre

e na curva atravessando de bicicleta

um homem que

ela soube do rosto, deu tempo.

a pilar freou, foi

enorme

por instinto ela fechou o olho

de tão grande um corpo voando com bicicleta e tudo.

 

começou a juntar gente.

 

 

 

 

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o método

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prevendo a altura que ela atingiria, ali bem no olho da janela, meu pai plantou uma árvore nos anos 80. meu pai deixa a luz do quarto acesa, quem passa na rua imagina seu júlio lendo como sempre dessa vez algum poeta, Mas. meu pai não está no quarto dele, meu pai nunca está no quarto, o peito do meu pai está nas minhas costas range a cama e a noite chora uma chuva que se nota apenas pelo ombro do casaco.

 

 

*tela de Magritte.

noite mal dormida

minha mãe abriu a janela, mas antes

a porta, o peso da mão dela interrompendo o quarto escuro

espalhando

pela casa

o cheiro do meu

sono, é tão

íntimo o cheiro de quem dorme e por isso se abandona, por isso está sem máscara sendo quem se é.

depois ela

puxou meu lençol

dizendo que

já era Tempo

meu pobre joelho

ossudo.

que horas são?, pergunto desprevenida, o vento invadindo

a pele

minha mãe falando sobre como ela era

quando tinha a minha idade

eu querendo virar

de bruços

desaparecer na

cama movediça, mas

eu estava de camisola e não podia

deixar que a minha bunda aparecesse.

minha mãe fica muito Brava

quando minha bunda aparece

e me bate

apanhar assim tão cedo eu não consigo mais.

talvez

seja melhor acordar de uma vez por todas

pensei tentando

descolar meus olhos

minha mãe varrendo

o quarto ela não gosta

de sujeira e fala muito

de sujeira

me surpreendo porque sou o próprio silêncio.

 

talvez

talvez eu seja assim

 

 

 

por ela nunca ter me dado espaço

 

 

 

você nunca me deu

espaço

 

 

digo levantando mas ela não escuta

nada além da própria

voz

 

e enquanto me dirijo

pro banheiro

minha mãe me dirige um

 

sorriso

 

que sei, já aprendi, não é

exatamente pra mim, é

pra ela mesma

 

uma vez acreditei na boca e

caí.

 

imaginei ali do chão

uma mãe sem morte aos noventa anos

 

vamos almoçar juntas,

eu só almoço se formos juntas.

 

sei

 

que ela vai precisar muito

de mim

quando ficar mais

velha

logo eu que preciso muito

do silêncio e minha mãe não cala

a boca entra comigo no

banheiro pra seguir contando suas histórias sempre as mesmas

que eu não quero ouvir, mãe, Chega, sinto vontade de bater a cabeça dela

no espelho.

 

vão me prender, se eu fizer isso, dirão que sou uma filha estúpida

 

mas ninguém sabe

Ninguém no mundo imagina

tudo o que eu tive que aguentar até aqui

e bato

a minha própria

cabeça no espelho, ninguém vai me prender por isso,

bato

cada vez mais forte e o espelho

 

 

não quebra, não sangra

 

 

é como se eu estivesse mergulhando

num rio e lá no fundo um peixe a cara da minha mãe.

 

De primeira viagem, por Souza Pereira

Philos

É natural a compreensão de esgotamento de algumas experiências estéticas na literatura. Desde Ana Hatherly no início dos anos 60, com a obra O Mestre, poucos escritores lusófonos foram capazes de debruçar-se sobre si com o alheamento do real para construírem narrativas que nos despertassem o interesse por sua poesia ou por seu experimentalismo.
O pintor Henri Michaux nos disse uma vez que “não é no espelho que devemos observar-nos”, para ele devíamos “nos contemplar no papel”. Ao iniciar a leitura de O peso do pássaro morto (Editora Nós, 2017), somos convidados à contemplação de nossas inquietudes e humanidades. De primeira viagem, Aline Bei nos entrega um livro que reflete sobre o próprio ato narrativo.
De acordo com a física, o peso expressa uma força com que um corpo é atraído para a terra pela ação da gravidade. Palavra derivada do latim pensum, também…

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diário de viagem

o trem finalmente atingiu uma velocidade constante. ao meu lado conversavam duas mulheres

numa língua que eu

não conheço. parecia sério

pelos gestos, um assunto inesgotável, na mesa de apoio repousava uma

flor.

a rosa

estava tão exatamente no centro das duas que eu não saberia

dizer de quem era, tampouco percebi o momento em que a flor apareceu, se saiu de algum bolso, perdi como sempre

o começo das coisas

notei apenas a permanência

da rosa

quase morta e ainda muito

bonita

daquele jeito que só as flores sabem morrer.

pensei no porteiro

do meu prédio, o Geraldo. a gente

se conhece há tanto tempo, eu

tinha quinze anos quando me mudei pra lá.

e então um pouco antes

de eu embarcar nessa

viagem de trem, quando eu estava saindo do prédio com mala e passaporte, o Geraldo me contou que foi

demitido.

-como assim? –perguntei estarrecida

prevendo meu

choro, malas e casacos na mão.

– eu não queria ter te contado isso agora, não quero

estragar

a sua viagem. mas seria pior

se você voltasse e

não me visse mais por aqui sem saber porquê.

 

dei razão a ele.

claro,

ele tinha razão. mas

como isso aconteceu? o Geraldo é tão querido. no natal as pessoas levam frango pra ele. vinho.

-o condomínio aumentaria se os moradores quisessem me manter. agora eles vão terceirizar tudo.

-não acredito. – lágrimas deslizavam

pelo meu rosto

exatamente como essa vista pela janela

com árvores que me parecem

melancólicas

só porque por dentro eu estou me sentindo assim.

-mas eu vou ficar bem. – o Geraldo disse me consolando,

era eu quem devia estar fazendo isso.

 

nos Abraçamos.

 

a memória do nosso abraço

ainda está comigo

ainda deixa

meu corpo quente.

 

o trem avisou em painéis o nome da próxima estação.

 

as duas mulheres se levantaram.

afastei as pernas

para que elas passassem,

me ocorreu que talvez fossem irmãs.

pegaram as malas

no alto dos bancos, as sacolas também (e a flor?) ainda conversando mas agora com menos

volume ou era eu? que estava amortecida

 

o trem foi parando.

 

a porta

abriu (vocês estão esquecendo da rosa).

 

 

elas desceram na última

vez que nos vimos e isso

me tirou

alguma coisa, me fez perder brevemente o eixo por me lembrar que somos finitos, todos, que temos um tempo na terra que passa sem ninguém ter muito tempo para lamentar o fim de um ciclo, essas renovações constantes

de pessoas

em prol da nossa vagarosa evolução.

mas e a flor?

a pobre flor

quase morta e muito linda

bem aqui

na minha frente, não, não era delas,

a rosa não é de ninguém.

 

o trem voltou a se locomover.

 

qual?

é a história dessa rosa

pra merecer essa morte esquecida em cima da mesa

é total

o abandono de uma

planta

já que ela não pode, não

consegue

se mover. o Geraldo também não

na portaria por horas

mas isso acabou, agora ele vai tocar a vida de outro jeito, vai fazer um curso

de inglês, me disse, e quando eu voltar para casa um desconhecido

abrirá

o meu portão, penso, como se o sujeito valesse menos

só porque Eu não o conheço.

 

carta para V.

-você gosta de campo? – um amigo me perguntou.

-gosto. – eu disse, mas a minha cabeça estava

longe,

estava no corpo

do poeta que morreu.

-você gosta de montar a cavalo?

-não, tenho pena. prefiro o bicho livre.

-te entendo.

minha cabeça no poeta

morto que eu não conheci.

estava estranhando mesmo

o silêncio dele por esses

meses.

cheguei a pensar nisso

vagamente, como o poeta está calado.

voltou de viagem

arrastando malas, comeu grilos por lá. parecia feliz mas andava calado, eu pensava lá no fundo misturado com outras preocupações.

-e de praia, você gosta?

prefiro campo. – respondi com saudade

do mar.

-você está tão distante hoje.

eu queria pedir pro meu amigo não fazer mais perguntas

precisava de paz

pra pensar na morte do poeta que eu nunca vi

mas imagino

pelas ruas cariocas, seus óculos, suas camisas.

 

-com licença. – pedi deixando

meu amigo sozinho

 

me afastei o quanto pude

querendo chorar.

 

se eu tivesse o telefone do poeta.

telefonaria, antes de tudo, pedindo não se vá pelo amor de deus. eu sei

que a gente não se conhece, e que talvez nunca nos conhecêssemos sem que isso afetasse qualquer coisa em nossas vidas. mas a dor da sua perda, V., não é

sobre a impossibilidade de um encontro nosso, é sobre você não estando mais no mundo deixando órfãos os espaços que ocupava nas ruas, nas casas,

nos aviões

e nas pessoas que já conversaram com você que já olharam pro seu rosto contando uma história

ou o jeito que você beijava, um sorteio que você ganhou.

suas roupas estão te esperando, V.,

ainda tem uma camisa sua no varal e tudo ganha áurea ao redor da sua falta, um espirro, sua cama,

o sabonete no box. porque acabou você existindo com um corpo,

a orla sem V. acordou devastada, estamos sem forças olhando para as palavras que você deixou procurando sabe deus o que, um sentido, um conforto, enquanto um cavalo corre perpassando cercas pra nunca mais.

meu ensaio sobre a cegueira

a praça estava vazia. eles se sentaram no banco, o vento varria as folhas e o som das folhas se arrastando

-não dá mais, ele disse, a gente não pode seguir brigando assim.

-eu sei, ela disse tão triste. desculpa, ela disse inaudível.

-é sempre a mesma coisa, clara.

a ex casa deles não muito longe

da praça

os móveis cobertos

com lençóis.

-pensei que se a gente se separasse não brigaríamos mais porque acabou mas não acaba, você não entende o que é um fim.

-eu vou me controlar, prometo.

-a gente tem que resolver nossas coisas civilizadamente, clara

-eu vou tentar.

-você não se esforça. você pensa que vai me prender sendo louca.

-eu não faço isso de forma racional, mário, pelo amor de deus.

-você precisa se tratar.

-não fala assim comigo.

os móveis cobertos

por lençóis. o estalo do taco. os tempos áureos vividos ali. na cama, mas não só. também na cama conversando

sobre medos a coisa mais íntima, a mão debaixo do travesseiro

clara começou a chorar.

ele acendeu um cigarro. – minha mãe conhece um terapeuta excelente, trabalha com ela na usp – ele disse.

-eu não preciso de terapeuta muito menos amigo da sua mãe.

-tá vendo como você é impossível?

 

nos tempos áureos

ele dizia isso em

outro tom

quando ela queria sexo de manhã bem cedo

ele era muito preguiçoso

de manhã bem cedo.

 

chegou na praça um casal

com filha tão agasalhada que a menina mal se mexia.

 

ainda assim

 

ela pegou um galho

da grama

 

e fincou o galho

 

na direção contrária que as folhas corriam

tentando frear

o movimento

 

a clara pediu um cigarro pro não mais seu marido.

 

ele tirou do bolso, emprestou também

o isqueiro

 

ela tragou cerrando os olhos

que ainda estavam

molhados

por isso caiu uma gota.

 

os pais um pouco a frente chamaram a menina.

ela ouviu o próprio nome despertando

 

largou o galho

e correu

até eles, pequeno desespero nos pés.

 

a menina então ficou no centro

dos pais

uma mão pra cada um.

 

 

agora se você perguntar

pra clara e

pro mário

vocês se lembram daquela família que passou na praça?

 

que família? – eles diriam

 

não, eles não viram

nada.

 

 

 

a primeira surra

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cortou o cabelo, tesoura da vó naná, os fios no chão lembravam o sono de um cachorro todo preto, pegou também uma blusa no armário do irmão. tirou os brincos, lançou os brincos o mais longe que pode com seus braços de 6 anos e decidiu assim, olhando no espelho, que esse rosto exatamente desse jeito lhe vestia bem melhor, passos da Mãe no corredor. mão da Mãe na maçaneta. Mãe abrindo a porta, 1887.

 

Brutal

quando chegou em casa a primeira coisa que ela fez foi pegar a gaiola.

o prego

inesperadamente órfão sem ter que carregar um peso, nada, começou por isso a reparar no próprio corpo

enterrado na parede há tanto tempo

um mundo de parede

ao redor de seu ferro magro.

eles se olharam, o prego e a parede, mal e mal como podiam se olhar duas criaturas assim tão mortas. pressentiam algo

de ruim.

a mulher

colocou a gaiola em cima da mesa com uma força desnecessária.

o canário

virou a cabeça e seu olho por inteiro preto

parecia perguntar o que, afinal, estava acontecendo ali.

a mulher se apoiou na pia.

chorava, se alguém escutasse, mas

não tinha ninguém

na cozinha

tampouco pro pássaro o ângulo era bom pra entender, a grade na frente, ele mexia ansioso a cabeça de um lado

pro outro.

finalmente ela se virou pra gaiola.

abriu a

grade

o pássaro no pauzinho beliscou o jiló e o jiló escapando

a mulher deu as costas e

foi pro quarto

lentamente fechou

a porta

deitou de bruços na cama vazia

tentando farejar um

rastro dele

algo que tenha ficado, qualquer coisa,

o canário o último vestígio.

 

ela abriu a gaveta da cômoda, tomou um remédio pra dormir. o jesus no quadro

daqueles que se mexem conforme a gente anda

também dormia.

 

na cozinha o pássaro

ainda na gaiola

que ele fecharia, se possível, e tentou

 

 

o prego e a parede assistindo

 

o pássaro puxando a grade com o bico

mas

era tudo tão pesado que ele

se desiquilibrou e

caiu

da mesa

com seus olhos tão pretos.

 

 

anoiteceu.

 

 

foi quando a mulher

reapareceu na cozinha, o rosto inchado,

e viu

 

o pássaro no chão perto da mesa

ele já tinha virado bolinha pra dormir.

 

suspirou.

 

pegou o bicho

ele acordou de sobressalto uma mão de repente em mim.

começou a virar o pescoço daquele seu jeito de lidar com o medo para não

explodir, a mulher

bem que poderia ter dito uma palavra de afeto

algo como

 

calma,

vai ficar tudo bem

 

mas seu marido agora estava morto

e ela não sabia mais por onde começar.

 

 

caminhou até o quintal

 

 

colocou o pássaro

em cima do muro

 

 

pensando que ali ele entenderia

o seu novo

Estado

 

ela bem que poderia ter contado uma história pra ele entender, uma anedota como fazia o seu marido,

 

ao invés ela voltou

pra cama arrastando os

chinelos

de propósito, jesus observou.

 

no quintal

 

o prego e a parede teriam feito alguma coisa se pudessem, o passarinho olhou pra eles. socorro, ele parecia pedir

virando tanto

o pescoço que

uma hora a cabeça caiu.

 

pequeno teatro sobre o desespero

Ato 1.

 

 

 

peguei no colo a menina enrolada no cobertor, ela não acordou. nosso trem partiria às seis, agora 4:30, na mochila pouca roupa e um livro

sobre a américa.

caminhamos até a estação, não era longe, o vento que fazia parecer distante.

a rua de terra. minha bota surrada.

passei a mão pelo rosto da menina tão

gelado. apertei o corpinho contra o peito. cantei pra ela

uma música do chile que

minha mãe costumava cantar pra mim, uma música que me acalmava toda vez que eu sentia medo do meu pai batendo nela. minha mãe cantava a música depois que meu pai batia. depois que meu pai já estava dormindo. hola chiquita, eres un mar. eres tan grande como todo el mar

um cão começou a nos seguir.

 

não tenho comida –avisei.

 

ele me olhou de volta como se dissesse

não estou aqui por você.

 

segui caminhando, esqueci uma parte da canção. esqueci, meu deus, como era?, mas isso não chegou a acordar a menina. quando entrássemos na estação tudo ficaria melhor. mais calmo. sentaremos naqueles bancos onde se sentam os viajantes, sentaremos igualmente

esperando o nosso trem e a vida vai melhorar a partir disso, tenho certeza. cinco da manhã, um frio cortante. sinto sede e o cachorro já não está, perdi o momento

em que ele se foi. quase sinto saudades, imagine. saudades daquela rabugice.

avisto a estação.

estamos chegando, sussurro pra menina. estamos quase lá

barulho dos pés

pela terra

meu som caminhando o único som e se for ouvir bem fundo

o silêncio tem qualquer coisa da nossa própria respiração. volto a cantar o hino do chile, minha mãezinha sempre comigo. agora já avisto a porta, estou vendo a porta, sussurro pra menina.

adentro o lugar,

completamente vazio a não ser pelas pessoas que trabalham ali.

compro meu bilhete, estou nervosa.

a menina precisa? não, a atende responde sem me olhar.

sento, nas cadeiras que tanto imaginei que sentaria, elas são desconfortáveis e alegres, elas

são a promessa de uma nova cidade pra nós cada vez mais perto enquanto o trem não chega. abro os botões da blusa.

tento amamentar a menina.

a boca dela

não se mexe.

tudo bem se você não quer mamar agora. você pode mamar quando quiser.

são quase seis.

Finalmente nosso trem aparece. penso por um instante que perdi o bilhete

mas o bilhete está em cima da minha coxa. entrego pro maquinista. sem bagagem? só a mochila, senhor. entro. o vagão está morno e o mundo pela janela ou parte dele, a cidade que não volto

nunca mais. sento. o trem

está vazio como tudo. a menina pesa no meu braço e não acorda,

vou colocar ela no banco.

o trem

começa a se mover, aqueles barulhos típicos. estou sentada

do lado oposto da vista e

é como se eu fizesse duas viagens. pego meu livro

sobre a américa e

é como se eu fizesse três.

leio

algumas páginas

sobre a terra, sobre a quantidade de terra na américa latina e isso me dá um pouco de

Sono. isso me dá

um tipo de

Sono

 

inédito.

 

**

 

Ato 2.

 

 

Senhora?

Senhora?

 

 

 

 

(o maquinista coloca a mão no bebê.

grita

pedindo socorro.

cai o pano).