um poema de Aline Bei

no escamandro dessa segunda.

escamandro

bei

Aline Bei é escritora e vive em sampa. sobre ela, sua voz: eu tinha uns 8 anos quando ganhei da minha mãe uma Agenda. – agora você pode se organizar, – ela disse. era uma agenda bem colorida, com folhas sem linhas, janeiro, março, julho e o melhor: em alguns dias do mês tinham poemas. esses dias com poemas. (meus favoritos do ano). contato: alinebei@hotmail.com

***

não tenho mãe

 

meu rosto ainda estava no asfalto

na queda tem esse momento

pequeno

em que a gente quase se acostuma com o chão, a gente quase mora no lugar onde caímos

também na pessoa em nós que caiu

como se a queda fosse irreversível

como se a vida, agora, se limitasse a isso, a esse

beijo.

o asfalto

é um lugar de pisar e carros, um lugar de passagem, não parece natural um rosto ali, Imóvel.

ou morreu

ou a queda está…

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irmãs

ela passava um bom tempo me olhando,

eu fingia estar concentrada no livro, na louça.

se eu vestisse uma blusa curta ela olhava pra minha barriga (cê fica inchada

depois que come?

claro, eu respondia como se não

percebesse).

se eu estava de cabelo solto ela

olhava o comprimento, a textura,

às vezes passava a mão e sutilmente eu inclinava

a cabeça

no ritmo dos movimentos

dela.

se eu estava sem maquiagem

detetive ela olhava

pra minha

pele, se eu estava Com

ela olhava para as possibilidades

do meu rosto, o crime

é conseguir ser

bonita sem maquiagem nenhuma, não éramos, a minha mãe era

um pouco.

quando eu passava um tempo fora, viajando, na volta ela me olhava profundamente. te comprei isto, eu dizia, geralmente um perfume.

vou abrir depois, ela

respondia querendo

descobrir o quanto

eu tinha mudado, se eu tinha me divertido o suficiente,

visto o

suficiente pra me tornar

uma pessoa melhor.

que tipo de melhora e até quando ela se perguntava

sem tirar o olho de mim

eu fingindo não perceber nenhum peso e quando ela

finalmente virava

de costas pra abrir o presente, passar o perfume,

 

 

então era a minha vez.

o ouro é outro

o velho andava vendendo um relógio de ouro. ninguém na cidade tinha dinheiro pra comprar aquilo

muito menos interesse, as pessoas

olhavam pro velho pensando Se eu tivesse grana jamais compraria

e sorriam dizendo Não.

aos poucos

o velho foi percebendo esse jeito de

olhar pro relógio e

olhar pra ele, isso

foi o deixando cabisbaixo.

mesmo assim ele não desistia,

acordava cedo, vestia seu terno apesar do calor e de nenhum evento acontecendo há anos naquela cidade que ele nasceu e jamais saiu, quem sabe sairia quando finalmente vendesse o relógio, o problema

era pra Onde.

preciso comprar um mapa ele pensou

depois de passar mais 1 dia

oferecendo a mesma coisa pras mesmas pessoas. ele sentou

na varanda de sua casa

sempre virado pra porta entreaberta da sala

o mesmo sofá

desde que ele se casou. o sofá que, 30 anos depois,

foi lugar da ana morrer, a primeira

mulher a morrer antes do marido naquela cidade sem homens.

desde então,

o velho não conseguia mais

sentar no sofá da sala, era como se a ana fosse o sofá, era como sentar na cabeça da ana. o velho

chorou um pouco

segurando o relógio dentro de um saquinho transparente

como se o relógio fosse

tudo o que ele tinha além da orelha

enorme, orelha e nariz nunca param de crescer. agora carro

raramente passava

nas costas do velho ali na varanda

mais fácil passar um cavalo

e um cachorro, passava direto 1 cachorro sem olho

e às vezes passava um cavalo. mas o velho não via

estava sempre de costas pra rua

imerso nos pensamentos de ter

um relógio nas mãos que não servia

pra nada

talvez só pra deixar o velho menos invisível. porque se fosse só ele

sem oferecer o relógio

pras mulheres que voltavam da feira

pras mães com criança no braço

ninguém o notaria

ele passaria pela rua como um mofo qualquer. a elegância do terno de outrora agora parecia patética

vê se pode

usar paletó em plena semana.

as pessoas

passavam pela casa do velho

de volta da feira que era longe quase em outra cidade

e pensavam que

se tivesse um mercadinho

ali naquele terreno

não seria nada mal, (quem sabe quando o velho morrer).

 

 

até que um dia

 

 

chegou um

Homem na cidade

assim, sem mais nem menos.

endinheirado, disseram, deu pra perceber pelo carro.

um Homem

minha nossa

fazia tempo que as mulheres não viam algo daquele tipo.

os homens que tinham na cidade

ou estavam mortos

ou eram crianças

aquela terra, por enquanto, era um lugar de mulheres viúvas

e do velho

com o relógio de ouro

ninguém com nada pra fazer.

então as pessoas colocavam as suas

cadeiras na frente de casa

raramente viam um carro como o de hoje

muito menos com um Homem dentro

na maioria das vezes só cavalo

e o cachorro caolho.

 

esse cachorro logo morre, as pessoas comentavam

 

mas no fim quem morreu primeiro

foi o cavalo, o bicho espatifou no chão, um barulho tremendo,

as pessoas achavam que essa coisa de mal súbito só dava em gente.

por dias

o corpo do cavalo ficou no meio da estrada

sem ninguém pra tirar além das

moscas de trabalho lento, afinal

era um cavalo grande

que mesmo morto

não atrapalhava ninguém, raramente passava carro ali.

até que chegou

o Homem endinheirado

e o cavalo agora sim

começou a atrapalhar. ficou no meio

da passagem, as ruas daquelas cidade eram bem estreitas.

o Homem buzinou,

 

buzinou de novo

 

foi juntando gente

logo juntou uma porção mulheres (as crianças na escola, homem não tinha) pra tentar

tirar o cavalo do meio

e as moscas, as moscas que já faziam parte do corpo do bicho.

 

nós vamos ajudar o senhor. – as mulheres disseram amarrando os cabelos,

levantando as mangas,

o Homem endinheirado parecia impaciente

aquela cidade era só uma ponte.

 

de repente chegou o velho

 

agora um pouco menos

cabisbaixo.

isso porque ele percebeu logo

que podia oferecer o relógio pro Homem, aquele sim tinha dinheiro pra pagar

enquanto as mulheres se juntavam

pra tirar o cavalo

mais de 20 levantado o bicho que além do cheiro,

soltou o peso

todo no chão.

 

– não dá, a gente vai precisar de mais ajuda. chama a Neide, chama a

Márcia – as mulheres disseram,

 

e o velho

se aproximou do carro.

 

boa tarde. – ele disse. – eu tenho aqui comigo um

relógio de ouro

que é herança de família,

uma belezura. (ele mostra o relógio no saquinho)

será que o senhor não tem interesse de comprar?

 

(chegou a Neide, a Márcia, a Fátima, a Gertrudes)

 

o velho pensando ainda bem

que estou de terno

imagina só falar com um sujeito daqueles vestindo uma roupa qualquer.

o Homem

deu uma boa olhada no velho, a sobrancelha Levantada. discretamente checou

se a carteira ainda estava no bolso

aquele velho

parecia astuto

o Homem tinha ouvido falar

de uma gangue

com bandido tudo na terceira idade.

 

as mulheres

 

agora mais de 30

juntas e

suadas

aleluia conseguiram

Levantar o

Cavalo,

e levaram o corpo pro canto

onde tinha mato.

foi quase um enterro, faltou só

enterrar.

então o Homem endinheirado

entrou no carro dizendo pro velho:

 

-Não.

 

e foi embora

pra nunca mais.

 

lentamente,

as mulheres foram voltando pra casa

honradas

por terem ajudado um Homem de fora

e também muito

mas muito cansadas.

 

o velho

 

foi indo logo atrás

sentindo que carregava uma coisa nas mãos sem ser o relógio,

pela primeira vez em muito tempo

alguém tinha olhado pra ele sem pena.

no carro

– o centro da cidade não era assim, filha,

era todo iluminado, cheio de

criança brincando na rua. não existia celular, imagina isso. eu passava dias

sem dar notícia pra minha mãe e ela não ficava preocupada

eram outros tempos.

o dia parecia mais longo sem tanto

recurso pra acabar com o tédio. a gente cansava de viver até a hora de dormir,

eu brincava com as minhas irmãs de queimada, de pega-pega, estava sempre com o joelho ralado. minha mãe ficava assistindo a gente

acendia um cigarro

conversava com a vizinha, as pessoas tinham que se olhar nos olhos e conversar.

eu gostava

de conversar sobre tudo. sentava com as minhas irmãs na cozinha

e a gente conversava a tarde toda ouvindo jovem guarda, a porta de casa aberta. eu não tinha medo nenhum de andar na rua, andava aquele viaduto do chá inteirinho

até o bairro do limão. tinha os trombadinhas é claro,

sempre teve.

uma vez eu vi um

roubando a carteira de um velhinho.

ele roubou e saiu correndo

mas uma molecada saiu logo atrás. pegaram o menino, deram socos, chutes, eu não quis nem ver. vi só depois

quando a molecada devolveu a carteira do velhinho

que ficou agradecido demais,

ele disse que a aposentadoria dele estava toda ali.

o ladrão

ficou esticado na rua até chegar a polícia. eu achei que ele tava dormindo pra passar a vergonha,

mas quando a polícia chegou eles viram que o menino estava morto.

 

-que horror, mãe. – eu disse virando à esquerda.

 

-foi muito triste. o menino era puro osso, não aguentou a pancada. disseram depois que ele tinha só 12 anos. foi o primeiro morto que eu vi.

 

(ficamos caladas por um momento.

no rádio estava tocando uma música do bruce springsteen)

 

– mas sabe,

essas coisas trágicas assim

eram raras de acontecer. geralmente os dias eram calmos, a cidade era boa naquela época.

 

– a cidade ainda é boa, mãe.

 

-de domingo eu e teu pai íamos no cinema. só tinha 1 na cidade toda. ficava uma fila Enorme pra assistir o filme de jesus na sexta feira santa. eu tive muita sorte

de viver naquele tempo, – ela disse

 

sem me escutar

 

falava comigo porque eu estava no carro

mas na verdade ela estava falando sozinha

eu podia ser qualquer pessoa

ela só precisava de um ouvido humano.

engraçado que ela me contava sempre

as mesmas histórias, todo dia era como se ela esquecesse de tudo

e me contasse de novo

e de novo as mesmas histórias

de como

o meu avô era um excelente alfaiate

ele fazia terno para o sílvio santos.

seu avô não conseguiu melhorar de vida porque era muito cabeça dura, minha mãe dizia, ela que sempre gostou de costura.

queria Aprender, ficava do lado do vô observado como ele

fazia pra cortar o tecido

pra colocar a linha na agulha

pra dar ponto na máquina

mas logo ele mandava ela embora dali.

quando eu tinha uns 4 anos

minha mãe se inscreveu num curso de costura

e finalmente começou a aprender o que ela gostaria tanto que o pai a tivesse ensinado. me levava junto pras aulas, o cheiro de linha entrava em mim como uma flecha.

eu via aquelas senhoras todas

vestidas com blusas de flores

eu batendo na altura

dos joelhos delas

joelhos inchados e morenos.

minha mãe era a mais moça da sala, eu pensava que isso que nunca mudaria

e corria pela loja

que era longa, corria com os meus brinquedos nas mãos.

nesse dia que ficou guardado na memória, porque a gente não guarda todos os dias de uma época, a gente guarda 1

ou 2 que servem

de bandeira,

nesse dia que guardei eu estava com um chaveiro de queijo nas mãos. eu mordia aquele plástico

como se estivesse comendo

queijo quente

era o melhor gosto do mundo

me fazia pular

até o máximo que eu conseguia.

não era muito

mas pra mim, naquele tempo, era o céu.

 

– o que ela tá fazendo? – perguntavam.

– é assim que ela brinca.

 

eu e a minha mãe saíamos muito juntas. ela me levava no shopping pra eu andar de patins.

eu sonhava com a pista de patinação quase todas as noites

e quando eu estava lá patinando

não conseguia respirar direito tamanha felicidade.

minha mãe assistindo me dava tchau toda hora, meu peito enchia.

depois

a gente tomava lanche

e tentava pegar urso naquelas máquinas de pelúcia,

nunca conseguíamos.

eu ficava com pena

daqueles animais aprisionados

eu podia passar horas com o rosto colado ali no vidro olhando pra eles

 

tira o nariz daí filha, é sujo.

 

naquele tempo minha mãe ainda não me contava

as histórias de sua vida

naquele tempo a gente vivia no presente.

hoje em dia

a vida da minha mãe é lembrar do que aconteceu com ela dos 12 aos 24 anos.

eu nasci quando ela tinha 25.

a partir dos 25 sou eu que conto

dela pra ela

que estava ocupada demais cuidando de mim e não se recorda de nada.

– lembra quando você pintava, mãe?

a janela da sala ficava aberta pra sair o cheiro.

você pintava muitas uvas

e pintava camisetas pra mim.

eu adorava o cheiro da tinta e o nosso carpete verde.

eu ia pra escola pensando em você.

 

ela sorriu.

 

você tinha umas revistas de arte pra fazer colagem, lembra? você colava umas coisas lindas

nas cartas que você escrevia pras suas irmãs. você tinha uma coleção de selos também, lembra?

 

– nossa é mesmo, meus selos.

como eu adorava aquilo.

 

-eles devem estar em alguma caixa no seu armário.

 

– será? já faz tanto tempo, filha. esses selos não existem mais.

 

– engraçado.

 

– o que?

 

-isso da gente ir perdendo as coisas sem saber nem como.

 

– não sobra quase nada, filha – ela disse, a luz da rua

deixava o osso do colo dela

tão nítido.

quando eu adormecia ali, me lembro,

aquele osso me machucava

delicadamente.

 

 

estudo de texto curto n.3

saí carregada do mercado, as frutas na sacola pesavam mais do que a palavra manga na lista de compras,

as pessoas reparavam no meu caminhar trôpego

eu desviava o rosto, não queria parecer frágil.

1 passo

de cada vez, pensei, quando um homem me perguntou se eu precisava de ajuda.

não obrigada, eu disse

e ele continuou andando.

 

parou de repente.

 

 

voltou até mim dizendo segura a sacola de um lado que eu seguro do outro

e foi como se eu ganhasse asas.

não precisava eu moro logo ali.

não me custa, ele disse sinceramente

e conversando descobri que o homem morava no prédio de frente pro meu.

você trabalha em que? ele me perguntou. sou escritora.

ah é? e tem funcionado?

 

um cachorro passou por nós.

 

não, nem um pouco, respondi

e ele disse que gostava muito

de cachorro,

não tenho porque fico o dia todo fora, hoje eu tô de folga mas tem mês que eu trabalho até de fim de semana. sou analista de sistemas.

você é casado? perguntei.

ele não me respondeu.

isso atrapalhou o nosso pequeno

começo de

intimidade. acabamos ficando em silêncio só os passos na calçada, a sacola roçando no jeans.

será que a esposa tinha morrido?

pior, será que ela

tinha morrido recentemente?

eu não devia ter perguntado nada, maldito cachorro.

chegamos na portaria do meu prédio. agradeci a ajuda e

nos despedimos.

à noite

eu fiquei procurando

o homem no apartamento da frente

vestindo um hobby de Seda na gaveta há anos e

mais nada

meu olho caminhando pelas salas acesas.

 

a visita

– você já leu o caderno rosa de lori lambi? – perguntei mostrando o livro que não era rosa,

 

ela olhou pra capa e

pensou um pouco

o tempo dela de abrir a boca e dizer algo numa conversa nunca se prendia a nenhuma ansiedade alheia.

 

– não – ela disse finalmente. – é bom?

-é brutal. um escritor me perguntou que livro eu gostaria de ter escrito. eu disse esse na Hora.

você vai gostar de saber então.

– saber o que?

– li que tá pra sair uma antologia completa dos poemas da Hilda, um baita livro (ela fez assim com os dedos pra mostrar a grossura)

temos muita sorte de poder ler essa mulher em língua original.

 

eu estava um pouco atrás subindo as escadas e

concordei com o que ouvi balançando a cabeça até que

chegamos

no apartamento dela, um prédio antigo

sem elevador.

 

-eu não posso ficar em pé por muito tempo. – ela me disse

-claro. – respondi

oferecendo o meu

braço e fomos para o quarto

fazia menos de 1 semana que os médicos tinham

revirado a barriga dela,

eu não teria coragem

de revirar aquela pequena barriga

a débora parecia ser feita de

vidro mas eu sabia

que o material de que ela era feita tinha mais a ver com um rio que trás

pessoas do mundo inteiro para vê-lo passar.

como o Tejo, por exemplo, você se senta num degrau de lisboa

e o tejo é portugal inteiro.

na cama dela conversávamos quase deitadas na colcha azul. ela me confessou que gostava de beijar mais do que de sexo

e que passava horas beijando um cara

sem transar.

eu fiquei imaginando o saco do sujeito

ardendo como

o coração de alguém que acabou de morrer e vai doar

o órgão,

tá escrito no documento

esse aqui é doador.

 

meu coração batendo no peito de outra pessoa torna essa pessoa um pouco eu? perguntei.

 

como sempre ela pensou antes de responder.

depois me disse que

Sim,

que em algum nível a pessoa viraria eu.

 

o cara que recebe o órgão

deve dizer pra todo mundo que não sente diferença nenhuma do coração antigo pro novo, – eu disse – mas no quarto

sozinho em casa

o cara deve se sentir esquisito a beça.

 

– receber o órgão de alguém é mais íntimo do que transar. – ela disse.

 

ah sim. no sexo também se recebe o órgão de alguém, né? mas passa.

 

na sala da debóra

num canto perto da janela

tinha um varal

com panos de limpeza pendurados e algumas roupas, na última vez que eu a visitei

não tinha varal nenhum na sala.

ela me contou que a mãe dela

passou uns dias ali no apartamento ajudando no

pós operatório (um dia a débora me disse: se um pai está abandonado num asilo

pegunta pro pai o que ele fez pro filho. não é normal ser abandonado quando se dá amor)

aquele varal na sala

era a mãe dela que veio

e passou, já estava em casa

a quilômetros dali.

quando saímos do quarto

porque a débora queria tomar um café na padaria pra andar um pouco

o varal me confundiu,

por causa dele pensei que a sala começava por outro ângulo.

peguei a minha bolsa e o meu livro

a débora colocou seus óculos escuros no cabelo

como uma tiara.

quando chegamos na padaria

com o meu carro

(ficamos discutindo se íamos a pé ou de carro, decidimos de carro porque ela estava frágil)

eu não vi mais os óculos da débora

tampouco percebi quando ela os tirou,

os óculos sumiram, simplesmente,

como um pássaro que não está mais.

 

seu carro é blindado? – ela me perguntou abrindo a porta tão pesada

aquela

era a pergunta que eu não queria,

aquela era a pergunta que

eu não sabia explicar.

 

-é.

 

por que? você é traficante ou algo assim?

 

não, é que, como eu posso dizer?

bom,

a minha família pensa em segurança como uma porta trancada pro mundo,

a minha família não acredita no mundo

nem em caminhos tranquilos.

 

ela sorriu e

não me perguntou mais nada.

disse só que andava a pé no bairro

e que as coisas pareciam tranquilas enquanto ela andava por elas.

sentamos numa mesa na parte de fora da padaria.

se alguém nos desse um tiro

seria curioso quando descobrissem que o carro de uma das mortas era blindado.

 

-se ela não tivesse saído do carro ou se tivesse saído um pouco depois. – diriam lamentando,

eu mesma

ainda que morta lamentaria

felizmente não houve tiro nenhum. em paz tomamos nosso café com leite conversando sobre poesia

e poetas

que mastigam suas poesias

e que tem muitos leitores por isso, porque mastigam demais os assustos e

as pessoas só precisam engolir sem

pensar,

as pessoas estão cansadas.

então um senhor de boné com olhos alegres

se aproximou da nossa mesa.

disse que estava ouvindo Tudo o que conversávamos e

deu uma gargalhada.

 

– mas eu vou guardar segredo, – ele disse se afastando. – vou guardar direitinho o segredo de vocês.

 

tinha álcool

na cara dele

era dali que vinha tanta alegria nos passos e vendo ele desaparecer pela descida da rua

fiquei me perguntando se o que conversávamos eu e a débora

era mesmo aquele papo de poesia mastigada

ou se eu tinha imaginado isso

e no fundo

estávamos falando sobre coisas muito mais

sérias (fiquei com medo de ter contado pra débora sobre eu e a minha prima fazendo carinho no bumbum

uma da outra e nunca mais termos conversado sobre isso, minha prima fingiu que esqueceu ao ponto de me fazer pensar que eu tinha sonhado com nós duas

naquela tarde

na casa vó com tantos terços e velas na sala)

eu ia perguntar

pra ela,

 

-débora, como você sabe que não estamos nos Inventando? como você pode ter certeza de que estamos falando do que estamos falando?

e se nós formos apenas fruto da imaginação de alguém? pensamos que isso é a vida

mas na verade estamos presas na vida de outra pessoa,

talvez moramos dentro de um livro

ou de um texto, por exemplo, por que não?

 

mas a débora

ainda estava com a barriga se recuperando, não seria nada bom mexer também com a cabeça dela então eu

continuei

tomando o meu café

como se eu não tivesse dúvidas.

 

 

 

literatura não é a coisa mais importante

te dei um livro. por praxe perguntei se você gostava do poeta, eu tinha certeza que sim.

você olhou pro nome

escrito na capa

e confortavelmente me disse que não.

durante toda a festa

o livro ficou de embrulho aberto em cima de uma mesa.

quem olhasse de longe acharia que o livro tinha sido um bom presente ou pelo menos

um presente como outro qualquer

mas porque agora eu sabia que você não gostava do poeta, então o livro ficou com cara de abandono pra mim.

antes de ir embora eu vou pegar ele de volta, pensei.

não é justo, pensei, com um livro desse calibre, mas

por conta do vinho

sendo colocado insistentemente na minha taça

e de um homem chamado césar

dizendo no meu ouvido que não conseguia ficar ao meu lado sem derreter

então eu acabei me

esquecendo de resgatar o livro e

fui embora da festa pensando em sexo.

tentativa n. 5

não somos amigos.

quando acontecia da gente se trombar

como hoje ali na esquina do mercado, os dois com sacolas nas mãos,

conversávamos apenas sobre coisas possíveis

rapidamente como são os encontros casuais.

 

-tudo bem? – eu disse o cumprimentando sem

beijo

já familiarizada com a nossa falta de intimidade

achando até bonito

conversar com alguém que conheço pouco, era como andar por um rio congelado

a profundeza dele, os acúmulos,

ficam para uma outra

estação.

uma vez numa festa

conversando com algumas amigas eu

comecei a falar sobre perdas, as minhas perdas no romance que eu estava escrevendo e uma delas

enchendo o próprio copo de vinho

reclamou que assunto estava pesado demais.

 

tudo e você? – ele respondeu. – tá na correria?

– nem me fale. (engraçado que minha vida nunca foi corrida.

nada me acontece

e quando acontece é sem susto algum. claro que dizer isso poderia soar como algo depressivo demais. por isso eu minto quando converso. porque é sempre mais fácil inventar

do que explicar)

 

– as horas estão passando muito rápido. – ele comentou.

– é verdade. pra resolver isso eu fiz um trato comigo mesma.

– ah é? qual?

– eu não olho mais pro relógio

a não ser que eu tenha que tomar um remédio por exemplo, aí

eu olho, ou se eu marcar um horário com alguém. tirando isso

não olho mais.

-também não olha a temperatura, né? um frio desses e você aí sem blusa.

 

eu sempre deixava minha blusa em algum lugar fora de mim,

era meu jeito de mostrar a pele quando ninguém mais estava mostrando.

como disse bukowski num poema ou numa entrevista, wherever the crowd goes run in the other direction.

 

-quer meu casaco?

-não tô com frio, obrigada.

 

sorrimos.

dei um passo a frente

já com a boca abrindo num até mais quando ele me disse:

 

-você não quer tomar um café?

-um café? – estranhei. será que teríamos

estofo

pra sentar 1 de frente

pro outro e dizer coisas que passassem da fase trivial de desconhecidos que são

muito diferentes entre si mas

em algum lugar por dentro

sentiam um certo

arrepio nas costas quando se olhavam fixamente.

 

–pode ser. – respondi.

 

caminhamos até o café.

escolhemos uma mesa na parte de fora apesar do frio, ele queria fumar

perguntou se tudo bem sentarmos ali e me ofereceu o casaco de novo.

aceitei, pra sentir o cheiro dele,

era uma mistura de musgo

com nicotina.

ele ficou me olhando com a jaqueta.

 

-como tá a loja? – perguntei, desviando. ele me disse uma vez que tinha uma loja de esportes.

 

tá mais ou menos. o que mais vende são os suplementos, a galera que treina não deixa de tomar. agora roupa, tênis, essas coisas

tá vendendo muito pouco.

 

– que pena. deixa que eu pago o café então.

 

ele riu dizendo que não era pra tanto.

ficamos em silêncio, ele fumando o cigarro, eu olhando pra cidade.

aquele encontro estava

frouxo como eu imaginei que seria.

ainda assim,

aquele sujeito tinha um olhar que me atravessava.

 

me vê um expresso por favor? – ele pediu.

-dois.

 

o garçom se afastou.

 

você continua escrevendo?

-Claro.

 

(essa pergunta sempre me ofendia.

como pode alguém pensar que eu não estou escrevendo? por acaso não fica evidente? o quanto a escrita é tudo o que tenho)

 

firme e forte?

-você pensa que sou uma entusiasta?

– não, estou brincando. eu sei que você leva bem a sério.

-engraçado que eu nunca te perguntei se você ainda é atleta. porque eu sei que você é atleta, eu vejo no seu corpo, no jeito que você senta.

 

o garçom se aproximou com os nossos cafés. colocou 1 pra cada, o açúcar no centro.

saiu.

 

– você ainda escreve sobre aqueles temas mais quentes?

– quando surge na história sim.

eu gostava muito de ler aqueles seus textos mais quentes. você falava umas coisas. eu entrava sempre no seu blog pra ler as novidades.

-humn.

mas agora parece que você virou uma escritora séria.

– cê tá dizendo que escrever sobre sexo não é sério?

– você entendeu.

-não, não entendi.

-eu só tô dizendo que fico com saudade de te ler mais quente, só isso. uma mulher bonita escrevendo sobre sexo

é sempre excitante.

 

me levantei.

 

-onde você vai?

é impressionante como você reduz tudo ao pó. detesto quando as pessoas transformam um assunto filosófico como o sexo em punhetas pessoais. sabe o que eu já tive que ouvir de homens como você? que o que mais interessa no meu texto

é o meu rabo. o melhor da sua literatura é o seu rabo, o cara me disse em tom de elogio.

eu gostaria de saber que homem no mundo já ouviu isso de alguém. por pior que ele escreva, por mais cenas de sexo que ele tenha em seus livros, qual deles já escutou que o mais importante do trabalho que eles fazem é o pau que eles têm no meio das pernas?

 

saí sem pagar meu café, esqueci também das minhas sacolas. lembrei no meio do caminho, mas não voltei atrás. pelo contrário,

aumentei meu passo

tanto que

acabei numa corrida

de volta pra casa.

começou a garoar, uma garoa tão fina,

parecia que eu estava imaginando.

e pensar que eu cheguei a me sentir atraída por esse idiota. eu devia ter sacado logo

não era normal aquela nossa falta de assunto, aquele incomodo.

não sei por que ainda me arrisco

tento um café e tento uma vida

mais na superfície das coisas. isso são as minhas amigas em mim me perguntando toda hora se eu finalmente arrumei um namorado, se eu vou casar um dia, minha mãe perguntando, minha vó 5 filhos perguntando, meu pai preocupadíssimo. só meu peixe não pergunta

meu peixe que

quando cheguei em casa

estava no fundo

do aquário.

dei uma leve batida no vidro. depois outra.

está morto, pensei,

e peguei uma peneira. mais essa, pensei,

e quando fui tirar o corpo

o peixe se mexeu.