Destino

escolhemos poltronas ao fundo

pensando que elas seriam um lugar só nosso

como um copo dividido em silêncio, a festa atrás, duas bocas bebendo

o que tivesse ali.

o nome do nosso filme

estava no

ingresso já no bolso, o escolhemos por notar no hall de entrada

ninguém querendo

assistir tamanha

bobagem, diziam.

 

é esse, pensamos

 

e a alegria curvou nossos rostos, duas crianças numa montanha

russa

na verdade uma pilha

de almofadas no tapete.

 

sentamos nas nossas

cadeiras secretas

 

estávamos acesos

tomada na fonte

sua mão deslizou por minhas

coxas

não sem antes

apertá-las.

eu olhei

para as minhas coxas

pensando se elas eram assim tão boas quanto aquelas que eu via em revistas na mesma situação sendo desejadas, será? que eu merecia isso,

eu essa mulher que sou e mais nada

na casca que tenho

coberta por pequenas feiuras que juntas me transformam nesse mostro discreto

e meu corpo respondendo

ao seu toque, silenciando minha mente sempre pronta pro estrago,

meu ventre entregue às suas mãos que poderiam

tirar um bebê dali.

a criança

será a soma da minha família e da sua.

vamos amar

a nossa criança

especialmente pela parte dela que é nossa

e você colocou o dedo

na minha boca, começaram os

trailers.

 

foi quando entrou uma família

com pipoca e dois filhos.

 

a sala estava vazia, mas

eles sentaram justamente na poltrona da frente.

 

nos olhamos

como se aquilo fosse a grande metáfora da vida

e é.

 

-vamos ter que ser mais silenciosos. – eu te disse no ouvido

e os arrepios que nascem

quando a boca solta

palavras no

ouvido.

 

então você voltou devagar

a mão pro meu ponto

exatamente onde se deve

colocar o dedo pra que eu desfrute

do tremor que há no meu corpo

um raio implodido, o lugar onde nasce o raio.

atrasada encaixei

minha mão no seu

debaixo

agora nós dois

no mesmo ritmo

tanto que senti ter um pau você um útero

nossas respirações tentando

um volume baixo, não queríamos parecer animais e a família comendo pipoca

meu queixo pra cima procurando

resposta pra essa sensação de poder que é quando os corpos

se encontram, nossas coxas abertas, no líquido o espectro

do nosso futuro filho.

 

 

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limite

ele sentou na minha cama

as paredes se fecharam em volta dele, o pai,

um estranho ali pro meu quarto que ele nunca entra e agora está

assim

sem camisa.

 

-fala, filha. – ele disse, prevendo o amargo

da notícia que eu daria

porque eu nunca chamo meu pai pra conversar sobre algo terno ou cotidiano, quando a gente conversa é sempre pontual.

 

então eu comecei a contar pra ele

da minha viagem

 

-vou ter que me ausentar por uns dias,

a empresa

precisa de mim em Paris.

 

as mãos do meu pai me

ouvindo em riste

mas aquilo não tinha nenhum apelo religioso

era só que

ele não sabia muito bem o que fazer com as mãos, nunca soube,

toda vez que a vida lhe acessava um canto mais emocional

meu pai se apoiava no garoto de 5 anos que ele foi

voltando pra algo que deu errado lá trás com a sua família.

meu pai filho mais velho

teve que ver os irmãos nascendo

a mãe amamentando

não ele, outros meninos, meu pai já crescido, meu pai

cresceu depressa

por isso ficou assim calado, encostado na porta perdido

nas horas

achando que, como numa relação amorosa que termina,

o que ele tinha com a mãe dele terminou.

 

-vou ter que me ausentar por uns dias – repeti.

 

pra ver se ele reagia de alguma forma, espero que meus pais não se matem enquanto eu não estiver,

a energia da minha casa até dos móveis fica a beira de um colapso quando eu não estou, sei disso pelo que minha mãe me conta depois que eu volto

e também pelo rosto dela

sempre envelhecido depois que eu volto

 

-a empresa está com problemas

na sede em

Paris

 

ele não me olhava

e quando olhava

era tão breve

meu pai está sempre de partida até no olho

sou eu que fico no lugar dele

quando ele se vai.

agora quando sou eu que vou

é neste momento que ele precisa ocupar o próprio lugar de pai dentro da nossa casa

e deus que abismo tem sido

pro meu pai ocupar o lugar que lhe pertence na nossa casa

sentar pro almoço

conversar com a minha mãe e

comigo,

ele levanta da mesa toda hora como se estivéssemos esquecido um copo, um talher (a mesa sempre completa, ele levanta e diz

que precisa de um

guardanapo, tem aqui pai, ó)

parece que

ele não lembra

onde guardou as

máscaras que usava pra viver com a minha mãe que também não está entendendo mais nada, pra onde foi o marido com quem me casei?

quando eu era menina

a tristeza do meu pai morava na

boca

 

-quando você volta? – ele perguntou finalmente.

 

(e ainda mora,

vocês deviam se separar de uma vez)

 

– em 3 semanas.

 

você consegue? eu ia emendar. fazer isso por mim.

mas ele

se levantou da cama, os braços apoiados no colchão deram o impulso,

meu pai não estava

bravo ou aborrecido

ele estava cansado, apenas

cansado de um jeito tão profundo que ali eu soube, paris não entraria no meu peito enquanto eu estivesse por lá, não caberia, já que eu estarei lotada

pensando no inferno que é meu pai e minha mãe juntos

sem a ponte que sou eu.

 

a conversa

– é melhor você soltar o estilete – eu disse, tão calma quanto uma viúva há muito viúva.

 

-solta. -pedi num sussurro. – você não precisa se matar agora.

 

e o tamanho

que ficou o Olho dela

quando eu disse isso, era como se a íris buscasse

a todo custo

um jeito de

sobreviver.

 

– vem aqui. deixa eu te contar uma coisa.

 

eu não queria me aproximar muito

não queria encurralar, seria melhor se ela

soltasse o estilete e

caminhasse apenas

na minha direção.

 

-por enquanto você não precisa – eu disse

 

tentando me conectar com a linha

de raciocínio dela, tentando sumir pra me tornar apenas

a voz da consciência dela, nenhum salto, nenhuma afronta, apenas um eco do que ela mesma já estava pensando lá na íris a parte

que ainda acredita.

foi quando o canivete deslizou

pro tapete.

o estrago que ele faria

agora no chão sem barulho. a mão dela

ficou um pouco aberta,

órfã.

 

-Vem – eu disse.

 

ela foi dando

passos, as costas em U.

o rosto dela, tão jovem, estava desfigurado pela coragem

que ela descobriu ter

uma parte dela queria mesmo

morrer agora

outra parte preferia seguir tentando.

 

ela se encaixou no meu corpo.

respirava parecendo um animal pequeno

depois da fuga.

 

eu a abracei de uma maneira que

flutuássemos

até o sofá

 

que eu também precisava de

apoio

 

por isso que gosto

desses móveis antigos

eles têm a força do passado que carregam.

 

ficamos abraçados,

os três.

 

a regata cinza que ela vestia

estava escura de suor

e susto

eu disse

 

-nenhum amor vale isso

eu sei, parece que a sua vida vai desmoronar. e talvez ela desmorone mesmo

deixe que tudo pegue fogo

você vai assistir isso sem morrer. você só vai morrer se quiser, juro que é possível aguentar, já aconteceu comigo, eu fui rasgada

por alguém que eu amava muito

numa idade que eu não tinha voz. o que aconteceu comigo me aconteceu calada

e o mais incrível, eu superei. duas coisas

das mais importantes nesta vida:

o tempo

e a resistência.

se você aguentar um dia

você aguenta o outro

e assim a dor vai se

esvaziando bexiga no céu

até não restar mais nada

além do silêncio.

você se lembrará de hoje pra sempre, claro que sim,

mas vai doer num lugar cada vez mais distante da superfície do corpo. é um fundo de mar, imagine assim. dói mas

tem tanta vida por cima. aos poucos você vai conseguindo começar de novo

encher seus dias

se não com amor

quem sabe com uma música

longa o bastante pra te fazer dormir. quem sabe uma cor

na parede. talvez até um livro.

 

ela chorava sem

pausa

entregue aos meus

braços

 

(lembrei do chuveiro

no quintal da minha avó. meu avô na porta da cozinha não perdia um banho

o cigarro interminável

ninguém percebendo

nada,

apenas eu)

 

coloquei o cabelo dela

todo pra trás num

rabo que não amarrei, uma promessa de rabo que se desmanchou também num choro

e assim abraçadas

comigo dizendo o que me vinha na cabeça

e nessas horas temos que usar toda a nossa intuição

para que se diga exatamente o que deve ser dito

fazendo a pessoa voltar

pra esse mundo

será

que vale a pena voltar?

 

-vale. – eu disse.

vale porque a beleza existe

até em momentos como este.

contaminação

confessei sobre seu cheiro

ser o mesmo de uma

carta quando alguém a descobre

desdobra o papel

começa a ler

é esse o seu cheiro, de algo resgatado,

que depois do regaste já não entendemos como

conseguimos viver por tanto

tempo sem ler a carta que, pela Beleza, deveria ser lida diariamente em voz alta.

acontece que se a lêssemos

assim e

pra sempre

a surpresa de encontrá-la se perderia

e definitivamente esse não é o seu cheiro, de algo que se perdeu.

você disse que entendia

e que também não era fácil

ouvir essas coisas tão

íntimas.

 

 

nos abraçamos,

 

 

fiquei feliz de

voltarmos a nos falar. nem sei por que paramos

ou se paramos,

já que considero natural esses silêncios entre amigos. mas você

 

disse que estava tudo bem entre nós

e se estivesse tudo bem desde o começo

você não teria dito nada, foi isso que me preocupou. de qualquer forma um alívio

estarmos bem agora

e pra selar a nossa volta

você leu um texto meu.

 

– chama Quase.

 

as pessoas ao redor

me perguntaram se éramos irmãs.

nunca pensei

que teria uma amizade assim como a sua um pouco suspensa, o cotidiano jamais nos alcançou. se for pra contar deve caber numa palma

todos os encontros que tivemos

mas são enormes, os nossos encontros, misture duas águas no limite de um copo

que pra sempre elas serão apenas uma.

olho para as coisas

que você me emprestou e as amo

porque você está nas coisas, não é todo mundo que está. você sim porque se doa,

já te vi grifando com régua

o que te salta num

livro, já eu dobro páginas

vulgarmente.

no livro de poemas que você me emprestou, por exemplo, todo marcado com as suas anotações, tem uma frase grifada a lápis (o grifo uma cama)

sobre o redondo de uma cabeça, sobre o mundo em cima do pescoço que é ter uma cabeça

e eu imaginei

o seu sorriso com som quando li essa frase

já que uma risada não passa disso,

de um sorriso com som.

 

-vem me visitar, – te disse no meio

do nosso abraço

 

 

e

 

 

no dia em que você vier de fato

então nesse dia eu não estarei

ou melhor estarei

sumida

incorporada na

parede

só pra te ver tocando

nas minhas coisas

e a alma das coisas

se livrando de mim pra virar você.

Roberta

ela não imaginava a falta que o billy lhe faria,

quando algo está permanentemente ali

fica difícil mesmo

perceber o tamanho que esse algo tem pra gente

no geral entendemos por contraste

a bia chegava da escola direto pro computador. então o billy ia

até o quarto dela

se espreguiçando com

as patas

ela dava um abraço nele, depois

voltava para as suas coisas, ouvir música, uma chamada angel, girl you’re my angel era a que mais tocava.

 

vem jantar, filha. – eu dizia da porta

 

a gente comia conversando

sobre a escola, como tinha sido, eu colocava minha mão sobre a dela

os dedinhos desapareciam.

 

-hoje a roberta quase falou. – ela me contava, animada

 

a roberta era uma menina da classe que

não falava, simplesmente,

e o grande objetivo da vida da minha filha era fazer essa menina falar.

não com todos, claro,

com ela apenas.

uma vez a bia perguntou por papel

 

 

você tem voz?

 

 

jogou o bilhete na mesa da amiga.

a roberta respondeu

 

 

Tenho

 

 

 

e jogou o papel

de volta pra bia

 

 

 

então por que você não fala? (juro que você pode

confiar em mim)

 

 

 

minha filha mandou de novo,

a roberta

estava escrevendo a reposta quando a professora se aproximou

e pegou papel.

 

-pra diretoria, as duas.  

 

a bia me contou tudo

quando chegou em casa com a advertência

 

depois dessa, a roberta ficou ainda mais muda. – ela me disse.

 

e o billy encostado

no pé da mesa

feliz

apenas por estar. como eu amava aquele cão. foi por isso que tentei

levá-lo com a gente quando nos mudamos

mesmo sabendo que seria impossível pra ele viver num espaço tão pequeno.

 

 

-por que a gente tem que se mudar? – minha filha perguntava.

 

a mamãe não tá mais conseguindo pagar essa casa.

 

-mas eu amo essa casa.

 

-e eu amo você.

 

 

nas férias da escola

nos mudamos

olhei o billy pelo retrovisor sentado parecendo gente ao lado da bia no banco do carro e tudo nele era despedida, todos os pelos

e o formato das patas, era como se ele soubesse ou então era meu olho contaminado de

culpa.

quando chegamos

e começamos a arrumar as coisas, tive que vender quase todos os móveis,

eu precisei ficar descendo com o billy direto, ele só fazia xixi em grama, desde pequeno foi assim.

eu não podia

ficar descendo com ele

tinha que arrumar a casa

e voltar pro trabalho em dois dias, minha filha dormindo no sofá.

 

 

acendi um cigarro.

 

 

olhei a nova vista pela janela

um mar

de outras janelas

 

 

o billy se sentou ao meu lado no silêncio que ele era

 

 

de repente a bia

levantou do sofá. se aconchegou no meu colo.

 

 

-você não estava dormindo?

-te enganei de novo – ela disse e sorriu.

 

apaguei o cigarro, dei um beijo nela. achei que era uma boa hora de contar.

 

-meu amor,

a gente vai ter que deixar o billy na casa do tio maurício durante a semana.

 

-por que?

 

-olha o tamanho dessa casa bia, não tem como a mamãe ficar descendo com o billy toda hora pra ele fazer xixi.

 

-e se a gente comprar um tapete de grama?

 

o problema é a falta de espaço, a mamãe trabalhando o dia todo, você na escola,

quem vai levar o billy pra fazer xixi, pra brincar? ele precisa de espaço, meu amor, cachorros grandes precisam

e lá no tio ele vai ter.

 

-mas ele não vai ter a gente.

 

-ele não vai nem perceber com tanta terra e outros bichos pra ele brincar. é igual quando você tá na escola, você fica pensando no billy ou em mim?

 

 

-não.

 

-então meu amor. na casa do tio maurício vai ser a mesma coisa, ele vai ficar distraído brincando

e quando chegar o fim de semana estaremos lá.

 

-todo fim de semana?

 

-sim, todo fim de semana.

 

-você promete?

 

 

foi difícil prometer. eu sabia que ir tanto assim seria inviável, mas

no começo era o que faríamos,

até que a bia fosse ocupando a cabeça com

outras coisas,

pouco a pouco o billy se tornaria apenas uma lembraça que não dói, como tudo. também quando ele morrer vai ser mais fácil

nós não sentiremos tanto

o perdemos antes

e perder algo com vida dói menos do que perder pra morte.

 

 

liguei pra bia a música angel.

 

 

-você promete? – ela perguntou de novo.

 

 

e no fim de semana levamos o billy pra chácara do tio.

minha filha no carro

estava cabisbaixa mas

a estrada

a distraia

o billy ao lado

sempre tão calmo, dava a impressão de que nada definitivo iria acontecer.

a hora que a bia começou a chorar de verdade foi quando a gente soltou a coleira do billy e ele começou a correr no quintal feito um louco

se jogando na grama, rolando

de barriga pra cima, a língua de fora, ela chorava e ria, o tio mauricio com a mão por cima do olho pra proteger do sol. era um bom sujeito, o tio.

 

– agora ele vai ser livre. – eu disse

 

o billy correndo atrás das galinhas

 

achei melhor pegar a bia no colo

e irmos embora

sem ficarmos nos depedindo demais.

 

voltamos semana que vem. – eu disse.

venham sim, estarei esperando.

 

coloquei a bia no banco de trás

e conforme a gente foi ganhando estrada

o choro dela foi virando

garoa

era bonito ver como a estrada

acalmava a minha filha, ou talvez o tempo

disfarçado de estrada

e depois de

quilômetros em silêncio a bia disse

que agora a roberta era a sua última esperança.

 

Farol

estão construindo uma ponte

pra melhorar o

trânsito que vai aumentar, disse o jornal,
por conta do terreno recém vendido pra cielo, mas

o caos não vai chegar a acontecer graças a deus

agora que eles estão construindo
a ponte

pra tentar diminuir o tempo
que se perde no
carro sem afetar o progresso
que nada
pode afetar o
Progresso.

dirijo
por essas promessas
paro,
por um minuto
ou dois.

 

(uma travesti atravessa na faixa. alguém grita o nome Elen. Ei, Elen.)

 

sigo.

longas distâncias

a barriga saliente daquele cara me fez pensar que talvez um homem também pudesse ficar grávido. o bebê cresceria no estômago, por que não? quando chegasse a hora escorreria pelo cu, alguém

chamou meu nome, olhei ao redor era

o márcio

 

-oi. – ele disse

 

nos cumprimentamos, meu nariz começou a

coçar.

fui percebendo que a culpa era do

perfume dele, pra que tanto, márcio, sabe que eu também já fui assim? sentia vergonha

do meu cheiro natural

pensava que ele não era bom o suficiente pra que as pessoas gostassem de mim.

 

vou buscar uma caipirinha, você quer? – ele me perguntou animado.

-não, valeu.

-até já. – ele disse saindo

 

voltei minha atenção pra barriga do homem

que agora estava de pé, a impressão de gravidez tinha sumido com ele assim, de pé. um dia

minha mãe parou na frente do meu quarto

e disse que tinha ganhado

muita barriga, Olha isso, ela reclamou.

eu ri abertamente

daquela

sinceridade

 

– tá rindo sozinha? – brincou uma amiga, se aproximando.

tava com o márcio, ele foi pegar um drink.

falando em pegar – ela disse

 

e começou a me contar de um caso,

uma mulher que ela conhecia tinha roubado o cartão da outra, fez compras, teve coragem. quando a investigação começou a ficar séria a mulher acabou confessando

 

– as duas saíram no tapa – minha amiga disse

 

situações como uma festa

nunca me fizeram bem. tenho que ficar conversando

sobre essas

coisas que não me interessam, se eu ficar calada

vão acabar descobrindo

que na verdade eu sou uma pessoa triste.

o que eu não gosto é do alarde, como se todo mundo também não fosse

triste em algum momento

pedi licença

pra minha amiga que

se ofendeu. eu estava te contando uma história seu rosto curvado parecia dizer. nessas horas que eu gostaria de ser fumante, um já volto apenas nunca soa bem.

 

saí do salão,

o ar

fresco da noite.

 

na frete do buffet um cara com

cigarro, um casal

namorando.

 

-a senhora quer seu carro? – o manobrista perguntou.

-ainda não.

 

acontece que eu não tinha

nenhum carro

 

e fazia isso com frequência,

mentir

 

não só sobre

fatos, também sobre pontos

de vista, pra

concordar com pessoas que estavam ali

falando do comportamento de fulano, eu balançava a cabeça sendo que eu já tinha feito algo parecido sem me arrepender. gostaria muito de

poder ser eu mesma em qualquer situação

sem me deixar levar pelo que o outro espera de mim, principalmente sem rir

de algo que considero

desespero. pelo menos na missa eu nunca mais fui. Chega, eu disse pra minha mãe

ela ficou quieta, depois

entrou pro banho

quero me fortalecer assim em relação a tudo, quero ser por fora exatamente o que sou em essência mas

 

a distância é

enorme

 

o que posso fazer pra acelerar o processo?

envelhecer.

 

 

você tem um cigarro? – pergunto finalmente.

-era meu último.

 

 

esse BUFFET VILA SÔNIA piscando

me lembra aquelas placas

de hotéis

 

será que a casa do césar fica muito longe daqui?

 

fui seguindo pela rua

como se isso não

importasse.

 

 

 

penetração

ela acordou,

pegou no armário o pote de café. tirou o vaso de cima, abriu o fogão. colocou água na caneca, ele se levantou um pouco depois.

foi pra cozinha. deu um beijo

na nuca dela, ficou na boca um gosto de

sal.

sentou na mesa. começou a beliscar

o que já tinha ali

enquanto olhava pro

shorts que ela vestia

o tempo deixou o tecido

transparente

 

 

(na janela topos de árvores, fios

de postes, o vento)

 

a caneca começou a assoviar.

ela desligou o fogo. despejou a água no pó, subiu o cheiro

de café.

ele deu uma mordida

na maçã, pegou o controle, apareceu no preto

da tv o tele

jornal.

ela caminhou

em direção a mesa, deixou o café ali. sentou no colo

do marido,

ficaram os dois

assistindo

notícias sem pensar em

notícias.

o interfone tocou.

 

alô? ela disse.

não, ela disse, agora não posso, tenho que trabalhar. fala pra ele que eu ligo depois,

tá? obrigada.

 

-quem era?

meu professor de boxe. outro dia trombei com ele na rua, ele falou que tá dando aula no parque. aí eu disse que ia dar uma passada hoje, mas pensei que era de noite.

 

o marido ouviu olhando pra tv.

o interfone tocou de novo

 

Oi.

ah, tá bom, coloca ele na linha.

oi meu bem. sim, mas é que agora eu não posso, tenho que trabalhar.

é que eu pensei que a aula era de noite. hann? não,

não tem como. eu sei. sim, eu sei. mas depois eu te ligo pra gente combinar melhor, pode ser? beijo.

 

-eu pensei que era de noite. – ela repetiu.

ele cobra quanto?

-50.

 

ela levantou. pegou duas xícaras no armário.

o marido ficou olhando pros braços

dela

pro nariz de lado, pro joelho ossudo o queixo

ossudo

 

-tá tudo bem?

 

um espectro.

 

-tá. –ele responde despertando. se serve de

café.

 

ela senta na mesa, abre o pão com faca. será que

pão sente dor? ele fica olhando

aquele formato, aquela cor de

areia, dá pra pôr uma banda de pão na piscina

pra criança brincar de navegar boneco

no rio,

alguém inventou um pão e de repente todo mundo

usa

passa manteiga, come.

 

-tá tudo bem? –ela pergunta de novo.

-tá sim.

-por acaso você ficou com ciúme?

de que?

-do meu professor.

-claro que não. – ele disse, a voz dele saiu

débil

 

o telejornal cheio de

terno

ele começou a reparar nos barulhos que a esposa fazia enquanto mastigava.

imaginou a bagunça dentro da boca dela

os dentes a língua a bochecha trabalhando

depois a massa de pão

descendo pela garganta, o café ajuda

a deslizar.

ele faria

qualquer coisa por aquela mulher

que mastigava

satisfeita

pra depois de 15 no máximo 20

minutos

levantar e ir ao banheiro, religiosamente.

depois que ela saiu da mesa

ele saiu também.

estacionou o corpo

na parede mais próxima

sua esposa cantava uma música que ele não conhecia.

de repente ela deu

descarga

 

 

(barulho do papel higiênico rodando)

 

ligou o chuveiro

 

ele foi chegando

mais perto da porta

o espelho embaçado, a linha das costas dela parecia o contorno de um país.

 

devagar ele tirou

o pijama

 

querendo alongar

os segundos

 

já o pau

duríssimo

preferia entrar de uma vez

no banho.

 

 

 

tempo

nos sentamos. você começou a falar

das suas estrias, eu estava

especialmente cansada naquela noite

sua voz parecia vir de dentro de uma lata.

senti saudades

de quando não falávamos o tempo todo sobre o corpo, eu entendo a importância de um corpo, a gente só existe na terra se tivermos um. quando não temos mais chama morte o que acontece, eu entendo a importância e te olho

falando sobre traços brancos também nos peitos. é tão pouco

estar vivo, eu sempre imaginei que era mais.

fico esperando

esse mais que não chega

e a nossa amizade longa

como uma missa.

será que

já não era tempo da gente se afastar? olha pra nós, olha

pra esta mesa cheia de

comida.

tudo isso é medo

de não termos o que dizer uma pra outra

porque assim ficaria claro

que não temos mesmo mais nada pra dizer,

levantei.

 

-que foi?

 

-acabou.

 

-acabou o que?

 

-eu não quero mais te ver.

 

-eu falei alguma coisa?

 

-não, você não falou nada. faz 5 ou 6 anos que eu não te escuto falando nada, só sobre você mesma e nem é sobre você, é sobre a máscara que você construiu. faz muito tempo que a gente não conversa de verdade ou a minha perspectiva de conversa mudou.

 

-você tá passando bem?

 

-eu te amo

muito

e pelo menos isso nunca vai mudar. mas esse peso de termos que nos encontrar só porque um dia foi bom estarmos juntas, isso eu não quero mais.

 

-você tá louca?

 

-vou pagar minha conta no caixa, tá?

 

-espera aí, você tá sem carro.

 

-eu vou andando.

 

paguei minha parte e

saí, minha amiga não veio atrás de mim.

sempre fui do tipo que tem uma melhor amiga

até que meu namorado perguntou precisa ser melhor, não basta ser amiga?

e na hora eu respondi larga a mão de ser besta, mas

depois

depois eu

fiquei pensando.

ventava e quase chovia

nessa noite que andei de volta pra casa e não era frio, será que a minha amiga ainda estava no restaurante? acho que no íntimo ela entendeu perfeitamente o que eu disse

apesar de na superfície ela ter preferido fazer o jogo do você está louca.

mas quando ela deitar na cama, encostar no travesseiro,

aí sim ela vai reconhecer a minha coragem

de ter dito que está morto algo que já morreu. pessoas que mudam de país têm muita sorte

porque esses finais de

ciclos

ficam camuflados pela distância geográfica, ninguém percebe direito como ou quando morreram as relações. outro dia mesmo

eu encontrei a ana na rua,

quando nadávamos no clube éramos tão próximas.

ela me viu primeiro,

buzinou chamando meu nome, fui até lá. a gente se abraçou pela janela do carro, sorrimos, ela me perguntou se eu ainda morava na platô. sim, respondi distraída

 

-tchau – ela disse acelerando

 

nada nessa vida se sustenta.